— Cara, tu ia tirar a braçadeira do Marquinhos depois do pênalti?
— Não ia não. Mas dói, né. Aquele travessão...
— Pois é. E o Ancelotti também não tirou.

Esse diálogo, repetido em bares do Méier ao Leblon nos meses que se seguiram ao Catar, resume com precisão o dilema que Marquinhos carrega desde 9 de dezembro de 2022. Naquela noite em Al Rayyan, o zagueiro nascido em Duque de Caxias cobrou o quinto pênalti da série contra a Croácia, acertou o travessão e encerrou a campanha brasileira nas quartas de final. O Brasil não chegava tão longe numa Copa desde 2006 — e saía da mesma maneira frustrante. Mais de três anos depois, Marquinhos está convocado para a Copa do Mundo de 2026 com 104 jogos pela Seleção, a braçadeira no braço e a confiança explícita de Carlo Ancelotti.

Cremonese - Como

A palavra de Ancelotti e o que ela significa historicamente

Logo após o empate sem gols com o Equador em Guayaquil, na estreia do técnico italiano pelas Eliminatórias Sul-Americanas, Ancelotti foi direto ao ponto quando questionado sobre a capitania:

"Creio que Marquinhos foi o capitão nos últimos anos, não é necessário mudar, seguimos assim. Ele foi muito bem, todos os quatro jogadores de trás, Alexsandro também merece ser ressaltado, fez seu primeiro jogo e foi muito bem atrás."

A declaração tem peso histórico. Havia especulação legítima de que Casemiro, com quem Ancelotti já trabalhou no Real Madrid e que conhece os mecanismos de liderança do treinador, poderia assumir a braçadeira. O técnico descartou qualquer transição. Para quem acompanha a história da Seleção, a decisão lembra a postura de Zagallo ao manter a faixa de capitão em Dunga mesmo após 1990 — a confiança no líder veterano como âncora do grupo, independentemente do resultado mais recente.

104 jogos e uma trajetória que começa antes do pênalti

Marcos Aoás Corrêa foi convocado pela primeira vez em outubro de 2013, pelo então técnico Luiz Felipe Scolari, para amistosos contra Honduras e Chile. Tinha 19 anos e era recém-chegado ao Paris Saint-Germain, clube que o comprou da Roma naquele mesmo ano. Ficou de fora da Copa de 2014, disputada no Brasil — uma ausência que, paradoxalmente, o poupou do trauma do 7 a 1 contra a Alemanha em Belo Horizonte.

Desde 2014, quando Dunga o reintegrou ao grupo, Marquinhos não saiu mais. Cinco Copas Américas (2015, 2016, 2019, 2021 e 2024), os Jogos Olímpicos do Rio em 2016 — onde foi medalhista de ouro —, duas Copas do Mundo (2018 e 2022) e agora a terceira, em 2026. O título da Copa América de 2019 é o único troféu em nível de seleções de uma carreira que acumula glórias quase exclusivamente no clube.

No PSG, são 522 jogos disputados e 42 gols marcados, com um currículo que inclui 11 Campeonatos Franceses, oito Taças da França, uma Liga dos Campeões conquistada na temporada 2024/2025, uma Supercopa Europeia e uma Copa Intercontinental da Fifa. Poucos zagueiros brasileiros na história acumularam tanto em termos de títulos europeus — Aldair, com a Roma de 2001, e Lúcio, com o Internazionale de 2010, são as referências mais próximas.

O dado que explica por que a braçadeira faz sentido

Há uma métrica de desempenho defensivo chamada PPDA — passes permitidos por ação defensiva — que mede, de forma simplificada, o quanto uma equipe pressiona o adversário a cada ação de recuperação de bola. Quanto menor o índice, mais intensa é a pressão. Nas partidas em que Marquinhos atuou como titular pelo PSG na temporada 2025/2026, o clube francês registrou um dos menores PPDAs entre os grandes times europeus na fase de grupos da Champions League, segundo dados tabulados pelo portal Fbref. Para o torcedor não familiarizado com o conceito: significa que o time de Marquinhos sufoca o adversário com muito mais eficiência do que a média dos grandes clubes. Liderança técnica e liderança de vestiário costumam andar juntas — e o número sustenta a segunda.

Sob o comando de Ancelotti na Seleção, Marquinhos fez parte de cinco das seis convocações, ficando de fora apenas em outubro de 2025 por conta de uma lesão muscular na coxa esquerda. Nas cinco partidas em que esteve disponível, foi titular em quatro.

"O objetivo que temos é qualificar para a Copa do Mundo, brigar na Copa do Mundo e tentar colocar o Brasil onde sempre esteve, nas primeiras posições do futebol mundial. Todos vamos brigar para conseguir isso", disse Ancelotti ao definir o projeto do ciclo.

O Grupo C e o que espera o capitão em junho

O Brasil está no Grupo C da Copa do Mundo de 2026, ao lado de Marrocos, Haiti e Escócia — uma chave que combina adversários de perfis radicalmente distintos. Marrocos, semifinalista em 2022, é a principal ameaça e tem no bloco defensivo organizado sua marca registrada, o que coloca Marquinhos diante de uma tarefa dupla: conter os ataques adversários e liderar a saída de bola que Ancelotti exige de seus zagueiros. Haiti e Escócia representam intensidade física e jogo direto — nada que um zagueiro formado no futebol europeu não conheça.

A estreia do Brasil na Copa do Mundo está marcada para 15 de junho de 2026, contra Marrocos. Nessa data, Marquinhos terá 32 anos e a oportunidade de reescrever a última página que a Seleção escreveu com a sua assinatura. Em 15 de junho saberemos se a braçadeira que Ancelotti manteve pesa como fardo ou voa como asa — conforme registrado por SportNavo ao longo deste ciclo de convocações.