5 de dezembro de 2022. O Estádio Education City, em Al Rayyan, ficou em silêncio por alguns segundos enquanto o goleiro Dominik Livaković defendia a cobrança de Marquinhos e encerrava a participação do Brasil na Copa do Qatar. O zagueiro caiu de joelhos no gramado. Naquele instante, o peso de uma nação inteira pousou sobre um homem de 28 anos que havia chegado ao torneio como um dos líderes silenciosos da equipe de Tite. Três anos e meio depois, esse mesmo homem está instalado no Hotel The Ridge, em Bernardsville, Nova Jersey, com a braçadeira de capitão no pulso e o bicampeonato da Champions League na bagagem.
O peso de 2022 e a reconstrução de um líder
Marquinhos admitiu, na coletiva de imprensa desta quarta-feira (3), que o processo de digestão emocional do Qatar não foi imediato. O Hotel The Ridge — propriedade de uma gigante do setor de telecomunicações, decorado com bandeirinhas e pinturas alusivas à Seleção Brasileira para receber a delegação de 91 pessoas — serviu de cenário para uma das falas mais honestas que um capitão verde-amarelo já deu às vésperas de uma Copa.
"O Marquinhos de 2022 realmente é diferente desse de hoje. Quatro anos no futebol é muita coisa. As coisas amadurecem. A gente tem que estar buscando evolução, crescimento como pessoa, como líder e como jogador", disse o zagueiro.
Essa evolução tem respaldo estatístico. Nos quatro anos que separaram as duas Copas, o defensor conquistou duas Champions League com o Paris Saint-Germain — clube pelo qual acumula mais de 400 partidas — e se consolidou como um dos zagueiros mais consistentes da Europa. Enquanto o Brasil trocava de técnico três vezes no ciclo (Fernando Diniz, Dorival Júnior e Carlo Ancelotti), Marquinhos construía, em Paris, a estabilidade que faltava à seleção no plano coletivo.
Ancelotti, a braçadeira e o timing da Champions
A escolha de Carlo Ancelotti por Marquinhos como capitão ganhou uma dimensão quase cinematográfica quando o próprio jogador revelou os bastidores do anúncio. O técnico comunicou a decisão quase na véspera da final da Champions League — e o defensor só ficou sabendo depois, porque estava em modo de concentração total para o jogo.
"O dia que o Mister anunciou que eu seria capitão foi quase na hora da final da Champions, eu não vi a notícia. Estava tranquilizando minha mente para esse jogo. Fiquei muito feliz. Ser capitão da Seleção em uma Copa, fico muito honrado", revelou Marquinhos.
A mensagem que Ancelotti envia ao grupo ao escolher Marquinhos não é apenas simbólica. O técnico italiano, que ao longo da carreira gerenciou vestiários com Zidane, Ronaldo e Maldini, prioriza lideranças construídas na experiência e não no carisma de palco. Marquinhos encarna exatamente esse perfil: discreto, técnico e capaz de absorver pressão sem transferi-la ao entorno. O próprio capitão reforçou essa concepção de liderança.
"Ser capitão não é só ter aquela braçadeira no braço, ser capitão vem primeiro da pessoa. Não é só o momento das quatro linhas", afirmou o zagueiro.
O Brasil que chega diferente — e por que isso não é necessariamente fraqueza
O cenário de 2026 é radicalmente distinto do Qatar. Naquela Copa, o Brasil chegava como um dos favoritos mais cotados, amparado por um ciclo de quase seis anos sob Tite, com elenco rodado e confiança alta. Hoje, a seleção carrega a desconfiança de um ciclo acidentado e a responsabilidade de ser o único grande país das Américas sem título mundial desde 2002 — 24 anos de jejum. Marquinhos, porém, recusou a narrativa de que chegar sem favoritismo é desvantagem.
A concentração em Bernardsville já funciona a todo vapor. Nesta quarta, além da coletiva com Marquinhos e com o atacante Igor Thiago — que defende o Brentford, da Premier League inglesa —, o grupo realizou atividade matinal na academia do The Ridge e treino vespertino no centro de treinamento do New York Red Bulls, em Morristown. O diretor de seleções da CBF, Rodrigo Caetano, acompanhou a abertura à imprensa.
O primeiro teste oficial está marcado para sábado (6), contra o Egito, em Cleveland — último amistoso antes da estreia na Copa. A comissão técnica de Ancelotti deve usar o jogo para definir a formação titular, incluindo a zaga que terá Marquinhos como referência, após a perda de Éder Militão por lesão. O capitão chega ao jogo em condição física plena, tendo sido um dos últimos a se apresentar à delegação, mas já integrado à rotina de treinos.
- 6 de junho — Brasil x Egito, em Cleveland (amistoso preparatório)
- Estreia na Copa — aguardando confirmação do adversário do Grupo D
Conforme apurado em matéria do SportNavo, o clima no Hotel The Ridge mistura seriedade e pertencimento: as bandeirinhas espalhadas pelos corredores e as pinturas nas paredes transformaram o espaço em uma extensão simbólica do Brasil em solo norte-americano. Para Marquinhos, esse ambiente não é acessório — é o combustível de um ciclo que ele quer encerrar de forma diferente de 2022.
É o mesmo cenário que Cafu viveu em 1998 — capitão, favorito e eliminado — só que agora a aposta é diferente: um líder que já tocou o fundo e escolheu subir com mais consciência do que velocidade.










