Quando Mia Hamm marcou o gol que consagrou os Estados Unidos campeões mundiais em 1991 — a primeira Copa do Mundo Feminina da história —, Marta Vieira da Silva tinha três anos e vivia em Dois Riachos, no sertão alagoano, chutando bola descalça em terrenos de terra batida. Três décadas depois, a maior jogadora da história do futebol feminino é citada com reverência pelas herdeiras de Hamm, as mesmas que carregam quatro títulos mundiais e cinco ouros olímpicos no currículo. Essa inversão de referências diz muito sobre o que Marta representa para o esporte global.

A seleção dos Estados Unidos desembarcou no Brasil para dois amistosos preparatórios — o primeiro marcado para este sábado, dia 7 de junho, às 18h30, na Neo Química Arena, em São Paulo — e, no centro de treinamento do São Paulo Futebol Clube, onde a equipe se prepara, as declarações sobre a camisa 10 brasileira soaram menos como protocolo de imprensa e mais como confissão de admiração genuína.

"Marta é uma lenda! Honestamente, estar em campo com ela é surreal. É a jogadora em que muitas de nós se espelharam. Enfrentá-la é um desespero", disse a meia Rose Lavelle, vencedora da Copa do Mundo de 2019 e medalhista olímpica em Tóquio.

A capitã Lindsay Heaps foi além da admiração técnica e apontou algo que os números sozinhos não capturam.

"A maneira como ela encara o jogo, técnica e taticamente, mas também o quanto ela gosta de jogar. Sempre adorei ver jogadoras que têm esse encanto. Ela tem uma mentalidade vencedora e traz muita alegria aos torcedores", avaliou Heaps.

43 jogos, 4 vitórias brasileiras e uma conta que o Brasil quer mudar

O historial entre as duas seleções é pesado para o lado verde e amarelo. Em 43 confrontos ao longo de décadas, o Brasil saiu vitorioso apenas quatro vezes. Os Estados Unidos construíram esse domínio com uma estrutura profissional que antecedeu em anos a organização do futebol feminino na maioria dos países — a liga doméstica americana, a NWSL, existe desde 2013, mas o futebol feminino universitário já formava atletas de elite nos EUA desde os anos 1980, quando o Brasil mal reconhecia a modalidade oficialmente.

O que o futebol argentino chama de garra como atributo coletivo irrenunciável, o futebol norte-americano traduz em system — uma estrutura de desenvolvimento que fabrica atletas em série. Marta pertence a outra tradição: a do talento forjado na adversidade, sem academia, sem estrutura, sem reconhecimento precoce. E foi exatamente esse talento bruto que atravessou fronteiras e moldou gerações de jogadoras americanas.

A última vez que as duas seleções se enfrentaram, porém, o script foi outro.

A vitória no PayPal Park que abriu um precedente inédito

Em setembro de 2024, no PayPal Park, em San Jose, na Califórnia, o Brasil venceu os Estados Unidos por 2 a 1 — resultado que marcou o primeiro triunfo brasileiro em solo americano em toda a história do confronto. As atacantes Kerolin e Amanda Gutierres foram as autoras dos gols. Não foi sorte: foi a expressão de uma geração que a técnica norte-americana Emma Hayes reconhece com clareza.

"O Brasil é um time de classe mundial, com um grande técnico. A equipe joga com muita responsabilidade e torna muito difícil você ter o controle do jogo. Não importa quem elas enfrentam, estão sempre em alto nível. E nunca desistem. Acho que o Brasil sempre teve um time muito bom, mas que essa geração tem mais jogadoras no alto nível", analisou Hayes, ex-treinadora do Chelsea feminino, onde acumulou sete títulos da Women's Super League inglesa.

Hayes chegou ao comando dos EUA em 2024 e já enfrenta o Brasil com outro olhar: não mais o de quem espera uma vitória tranquila, mas o de quem sabe que as margens diminuíram.

O legado de Marta além dos gols e das copas perdidas

Seis vezes eleita melhor jogadora do mundo pela FIFA — entre 2006 e 2018 —, Marta acumula 17 gols em Copas do Mundo, recorde absoluto entre homens e mulheres. O Brasil, apesar de nunca ter conquistado o título, chegou a duas finais mundiais: em 2007, na China, quando perdeu 2 a 0 para a Alemanha, e antes disso esteve nas quartas e semis em edições anteriores. Marta esteve em todas essas campanhas como protagonista incontestável.

O que Rose Lavelle e Lindsay Heaps descrevem não é apenas respeito por estatísticas. É o reconhecimento de que Marta popularizou o futebol feminino em mercados onde o esporte ainda lutava por visibilidade — e que esse impacto chegou às jovens americanas por meio de vídeos, de transmissões olímpicas e de Copas do Mundo que ela transformou em espetáculo individual dentro de equipes coletivamente inferiores às adversárias.

Aos 38 anos, a alagoana retornou à seleção brasileira para estes dois amistosos sob o comando de Arthur Elias — técnico que Hayes elogiou publicamente. A presença de Marta não é simbólica: ela foi convocada porque ainda compete em alto nível na NWSL, onde defende o Orlando Pride.

O que está em jogo na Neo Química Arena além do resultado

Os dois amistosos no Brasil — o segundo ainda sem data confirmada — funcionam como preparação para a Copa do Mundo Feminina de 2027, que será realizada no próprio país. A lei que oficializa o Brasil como sede foi sancionada pelo presidente Lula recentemente, e o torneio representa a maior oportunidade da história do futebol feminino brasileiro de conquistar um título mundial diante de sua própria torcida.

Para os Estados Unidos, o objetivo é testar o novo ciclo de Hayes contra adversárias de alto nível em condições adversas — calor, altitude e uma torcida que vai lotar a Neo Química Arena atrás de Marta. Para o Brasil, a vitória em San Jose criou um precedente psicológico que Arthur Elias quer transformar em padrão, não em exceção. O primeiro apito está marcado para as 18h30 deste sábado, e o histórico de 43 jogos entre as duas seleções vai ganhar mais um capítulo — desta vez, em casa.