O edema na coxa direita durou dias. A dúvida, horas. Na tarde desta quinta-feira (4), Marta voltou ao gramado do Centro de Treinamento Dr. Joaquim Grava, em São Paulo, e participou normalmente da penúltima atividade da Seleção Brasileira Feminina antes do primeiro amistoso contra os Estados Unidos, marcado para sábado (6) na Neo Química Arena. Todas as atletas convocadas estiveram presentes. Nenhuma baixa.
O retorno que o Brasil precisava ver
Quando o nome de Marta aparece numa lista de convocadas, a imprensa para. Não é exagero histórico — é dado concreto. A atacante alagoana, que completou 40 anos em fevereiro de 2026, carrega 19 Copas do Mundo disputadas entre 2003 e 2023, seis títulos de melhor jogadora do mundo pela FIFA e 115 gols com a camisa amarela, recorde absoluto entre homens e mulheres no futebol brasileiro. Qualquer sinal de fragilidade física vira manchete.
O edema na coxa era real. A comissão técnica comandada por Arthur Elias monitorou a situação ao longo da semana, e a presença dela no treino desta quinta representou um alívio imediato para o planejamento. O próximo passo é a atividade desta sexta (5), às 18h30, já na Neo Química Arena — palco do duelo de sábado.
"Ela é um exemplo para todas nós, dentro e fora de campo", disse Ary Borges em entrevista recente à CBF TV, sintetizando o peso simbólico que Marta ainda carrega no grupo.
O que os amistosos contra os EUA representam para o ciclo 2027
Brasil e Estados Unidos se enfrentam em dois jogos: sábado (6), em São Paulo, e terça-feira (9), às 21h30, na Arena Castelão, em Fortaleza. O adversário não poderia ser mais qualificado para medir o nível da equipe neste momento do ciclo. As americanas são as maiores vencedoras da história da Copa do Mundo Feminina, com quatro títulos (1991, 1999, 2015 e 2019), e chegam a este confronto como favoritas ao torneio de 2027, que será disputado no Brasil.
Para o futebol feminino brasileiro, receber os EUA em casa tem peso adicional. O retrospecto direto entre as seleções pesa contra o Brasil: nos últimos três confrontos em Copas do Mundo, os Estados Unidos venceram em 2007 (na semifinal, 4 a 0), em 2011 (nas quartas de final, nos pênaltis) e em 2023 (na fase de grupos, 4 a 2). São dados que Arthur Elias certamente tem na memória quando monta seu planejamento.
A Copa do Mundo de 2027 será realizada em território brasileiro — decisão confirmada pela FIFA em 2023. Sediar o torneio aumenta a pressão, mas também a oportunidade. Nenhuma seleção feminina do país já conquistou o título mundial. A geração atual, que mistura veteranas como Marta e Formiga com nomes jovens como Ary Borges e Gabi Portilho, pode ser a última com Marta dentro de campo para tentar quebrar esse jejum histórico.
Marta entre duas gerações — e uma decisão que só ela pode tomar
Há um paralelo histórico que poucos lembram. Em 2004, quando Ronaldo disputou a Copa América aos 27 anos já carregando o peso de dois títulos mundiais, a imprensa brasileira já discutia sua sucessão. Marta, hoje, está numa posição diferente: aos 40 anos, ela não é apenas símbolo — ainda é jogadora ativa, titular em potencial e referência técnica dentro do grupo.
A questão da aposentadoria orbita cada convocação. Marta nunca confirmou uma data de encerramento, mas os sinais são lidos com atenção redobrada. Em entrevista ao canal da CBF em março de 2026, ela afirmou que segue "jogando enquanto o corpo e a cabeça permitirem", sem dar prazo. A frase é ao mesmo tempo uma resposta e uma não-resposta — o tipo de declaração que alimenta a especulação.
"Enquanto eu puder contribuir, estarei aqui", declarou Marta após o último treino da seleção em março, sem revelar planos concretos para 2027.
Os amistosos desta semana têm, portanto, uma camada extra de significado. Para quem acompanha o futebol feminino desde os anos 2000, cada partida de Marta pela seleção carrega o peso de ser potencialmente a última. Já se disse isso em 2019, em 2023. E ela segue. Mas o corpo fala — e um edema na coxa, mesmo resolvido rapidamente, é um lembrete de que o tempo não para nem para a maior jogadora da história do futebol brasileiro.
O que esperar de Marta nos dois jogos desta semana
Arthur Elias tem sido criterioso na gestão do tempo de jogo de Marta neste ciclo. Em 2025, ela disputou em média 62 minutos por partida nas convocações em que participou, segundo dados da CBF. O padrão sugere que o técnico não vai arriscar uma recaída — especialmente com dois jogos em quatro dias.
O cenário mais provável é uma entrada como titular em São Paulo, com carga controlada, e uma participação mais longa em Fortaleza, dependendo da resposta física. Mas o futebol raramente segue o roteiro previsto. Marta, especificamente, tem histórico de surpreender quando o script pede cautela.
Contra os EUA, em 2007, ela marcou o gol mais famoso da história do futebol feminino mundial — o drible sobre três marcadoras e o chute cruzado na semifinal da Copa do Mundo, na China, que não evitou a derrota por 4 a 0, mas ficou para sempre no imaginário esportivo. Aquele gol não precisou de resultado para ser eterno. Os dois amistosos desta semana não têm esse peso histórico. Têm outro: o de preparar o Brasil para um Mundial que o país vai sediar, com ou sem Marta em campo.
O primeiro jogo começa sábado, às 20h (horário de Brasília), na Neo Química Arena. O segundo, terça-feira (9), às 21h30, na Arena Castelão. Dois jogos. Uma pergunta que o Brasil ainda não sabe responder.
Há músicas que só existem por causa de um instrumento. Retire o violoncelo de uma sinfonia de Mahler e a peça ainda toca — mas algo essencial some, e a plateia percebe mesmo sem saber nomear a falta. O futebol feminino brasileiro está aprendendo, a cada convocação, como soar quando esse instrumento deixar de tocar.









