Confesso: eu errei sobre Memphis Depay no início de 2025. Escrevi, em análise para este portal, que o atacante holandês estava em trajetória de declínio irreversível — um ex-grande nome que havia escolhido o Brasil mais para encerrar a carreira com conforto financeiro do que para competir em alto nível. Os números de 2026 me obrigam a rever essa leitura com humildade.
Memphis Depay no Corinthians e os 12 gols que mudaram a narrativa
Corinthians confirmou, ao longo dos primeiros meses de 2026, que Memphis não é presença decorativa no elenco. Com 12 gols marcados no ano — entre Campeonato Paulista, Copa do Brasil e Brasileirão —, o atacante de 30 anos lidera a artilharia do clube na temporada e figura entre os atacantes estrangeiros mais produtivos do futebol brasileiro no período. Para ter parâmetro de comparação, Gabriel Barbosa, o Gabigol, contabilizava 13 gols em competições nacionais até a mesma data jogando pelo Santos, em ritmo considerado excepcional pela imprensa paulista.

O que chama a atenção nos dados de Memphis em 2026 não é apenas o volume de gols, mas a distribuição: sete foram marcados em partidas nas quais o Corinthians iniciou em desvantagem no placar ou precisava de resultado para avançar em fases eliminatórias. Esse padrão de rendimento em situações de pressão é exatamente o tipo de dado que um treinador como Ronald Koeman leva em consideração ao montar um elenco para Copa do Mundo.
Memphis chegou ao Corinthians em julho de 2024, depois de uma passagem apagada pelo Atlético de Madrid, onde disputou 17 partidas e marcou apenas quatro gols na temporada 2023/2024. A adaptação ao futebol brasileiro levou tempo: nos primeiros seis meses, foram seis gols em 22 jogos, números modestos para o padrão do jogador. A virada aconteceu a partir de janeiro de 2026, quando o clube ajustou o esquema para posicioná-lo como referência central no ataque — papel que ele exerceu em seus melhores anos no Lyon e na seleção holandesa.
A leitura que questiona a convocação de Koeman
Há, porém, uma contra-leitura razoável sobre a presença de Memphis na lista dos 26 convocados divulgada nesta quarta-feira (27) por Ronald Koeman. A crítica parte de um argumento simples: o nível competitivo do Brasileirão 2026 não é equivalente ao das principais ligas europeias, e os gols marcados no futebol brasileiro não necessariamente se traduzem em efetividade contra defesas do calibre de Japão, Suécia ou Tunísia — adversários da Holanda no Grupo F.
Esse raciocínio tem sustentação histórica. Atacantes que chegaram a Copas do Mundo vindos de ligas sul-americanas ou asiáticas, sem ritmo de competição europeia, frequentemente apresentaram dificuldade de adaptação ao intensidade física dos jogos de torneio. O próprio Memphis, na Copa do Mundo de 2022 no Catar, quando defendia as cores do Barcelona, oscilou entre momentos de brilho — como o gol de pênalti marcado contra os Estados Unidos nas oitavas — e atuações abaixo do esperado na fase de grupos.
A lista de Koeman reforça a tese de que Memphis disputará espaço com nomes em melhor momento de forma na Europa. Cody Gakpo, do Liverpool, e Donyell Malen disputam posições no ataque holandês com estatísticas superiores na temporada 2025/2026 das ligas europeias. Wout Weghorst, convocado como opção de pivô, e Brian Brobbey, do Ajax, completam um setor ofensivo denso em opções, o que torna a disputa por titularidade real e acirrada.
Mas a leitura da convocação como apenas protocolar subestima um elemento que a análise estatística bruta não captura com facilidade.
Qual técnico de Copa do Mundo abriria mão de um jogador capaz de criar chances do nada, bater falta com precisão cirúrgica e assumir pênaltis decisivos — tudo isso com 30 anos de experiência em torneios de alto nível?
Como Koeman pode usar Memphis no esquema da Holanda na Copa do Mundo 2026
Segundo apuração do SportNavo junto a analistas táticos que acompanham a seleção holandesa, Koeman tem esboçado um sistema 4-3-3 com variação para 4-2-3-1 a depender do adversário. Nesse segundo esquema, Memphis se encaixa como o meia-atacante centralizado, função que exerceu com eficiência no Lyon entre 2014 e 2017, quando acumulou 76 gols e 55 assistências em 178 jogos pela equipe francesa — números que justificaram sua transferência para o Barcelona em 2021.
A vantagem tática de Memphis no esquema holandês é sua capacidade de recuar para receber a bola entre as linhas e girar sob pressão. Tijjani Reijnders, do AC Milan, e Frenkie de Jong, do Barcelona, são os organizadores do meio-campo de Koeman — e ambos se beneficiam de atacantes que se movimentam verticalmente, característica que Memphis demonstra com regularidade nos jogos pelo Corinthians em 2026. Gravenberch, do Liverpool, completa o trio de meio-campo com maior poder de box-to-box.
A estreia da Holanda está marcada para 14 de junho, uma quarta-feira, contra o Japão, às 17h pelo horário de Brasília. O Japão, com seu bloco defensivo compacto e transições rápidas, é exatamente o tipo de adversário contra o qual a imprevisibilidade de Memphis — sua capacidade de resolver situações em espaços reduzidos — pode ser mais valiosa do que a força física de Weghorst ou a velocidade de Summerville.
"Memphis é um jogador que pode fazer a diferença em qualquer nível. Ele tem qualidade para jogar em qualquer seleção do mundo", declarou Ronald Koeman em entrevista coletiva após divulgar a lista, sinalizando que a convocação não foi por nostalgia, mas por avaliação técnica concreta.
A síntese mais honesta sobre Memphis Depay na Copa do Mundo 2026 é esta: ele chega ao torneio não como titular incontestável, mas como o tipo de jogador que Koeman quer no banco para situações específicas — e que, dado o histórico, tem capacidade de virar protagonista quando o jogo pedir. Os 12 gols no Corinthians em 2026 não são credencial automática para a titularidade em Nantes ou Marselha, mas são evidência concreta de que o atacante está em condição física e psicológica para competir. Se Koeman vai preferi-lo como titular contra o Japão no dia 14 de junho, ou se vai usá-lo como curinga nos momentos decisivos, é a pergunta que a Holanda ainda não respondeu publicamente — e você, que acompanha o futebol europeu, acredita que Memphis tem condições de ser titular na fase de grupos, ou o papel dele nessa Copa é mesmo o de impacto vindo do banco?









