Não é a idade o que mais assusta nos adversários da Argentina. O que os técnicos rivais analisam em vídeo, noite após noite, é outra coisa — é a forma como Lionel Messi ainda encontra espaços que simplesmente não existem, ainda dobra a defesa adversária com um único olhar para o lado errado. Ele completará 39 anos durante a Copa do Mundo 2026, e a pergunta certa não é se ele aguenta. É se alguém consegue pará-lo.
O homem que pousou em Kansas City com um histórico impossível
A noite de domingo tinha aquele calor úmido do Missouri que gruda na pele e não pede licença. No Aeroporto Charles B. Wheeler Downtown, uma câmera da emissora KMBC 9 News registrou o momento em que Messi desembarcou — ao lado de Rodrigo De Paul, companheiro de trincheira tanto no Inter Miami quanto na seleção argentina. Sem fanfarra, sem protocolo. Apenas dois jogadores chegando para uma missão que já começou antes mesmo de a bola rolar.
A delegação argentina já estava em Kansas City quando Messi pousou horas depois. A base de treinamento será o complexo do Sporting Kansas City, e a estreia no Grupo J está marcada para 16 de junho, contra a Argélia. Áustria e Jordânia completam o grupo. Antes disso, dois amistosos preparatórios — Honduras no dia 6 e Islândia no dia 9 — servem de termômetro, embora a presença de Messi nessas partidas ainda não esteja confirmada. Ele sentiu uma fadiga muscular em sua última atuação pelo Inter Miami, e a comissão técnica de Lionel Scaloni monitora o camisa 10 com cautela cirúrgica.
Mais de 80 gols e um nível que desafia qualquer narrativa de declínio
Enquanto o debate sobre sua longevidade se arrasta em mesas de bar e programas de TV, os números do Inter Miami falam com uma frieza que desconforta os céticos. Nas últimas temporadas, Messi acumula mais de 80 gols com a camisa rósea de Fort Lauderdale — uma produção que lhe rendeu o prêmio de melhor jogador da MLS por dois anos consecutivos. Em março de 2026, marcou o gol de número 900 pela carreira somando clube e seleção, num duelo da CONCACAF Champions Cup contra o Nashville SC. Em dezembro de 2025, levantou o troféu da MLS Cup depois de uma vitória por 3 a 1 sobre o Vancouver Whitecaps, sendo eleito o MVP da final.
Esses não são números de um jogador administrando o fim da carreira. São números de um atleta que ainda decide partidas. O jornalista argentino Ezequiel Fernández Moores, do La Nación, analisou o peso simbólico desse momento para uma publicação da CNN Brasil:
"Messi vai ser o rosto quase principal do Mundial, porque joga nos Estados Unidos, porque foi campeão ali. É uma figura de peso já dentro do esporte nos Estados Unidos. Então isso vai colocá-lo em um centro inevitável das atenções."
Fernández Moores, no entanto, apontou a variável que nenhum dado estatístico consegue resolver:
"Teremos que ver como ele lida com a pressão da aposentadoria, porque é seu último Mundial. Algo que nunca é simples para as grandes estrelas do futebol."
O que a Argentina tem que a Argentina de 2022 não tinha
Há algo diferente neste grupo. Em 2022, no Catar, a Argentina entrou no torneio com o peso de uma geração que carregava décadas de frustrações — e sentiu isso logo na derrota de abertura para a Arábia Saudita, por 2 a 1. A reação posterior virou lenda. Agora, a Albiceleste chega como campeã, e Messi chega sem aquele nó de quem ainda precisa provar. O título no Catar encerrou a conta. O que está em jogo agora é algo diferente — e mais raro: o bicampeonato consecutivo, feito que a seleção argentina nunca conquistou e que, no futebol moderno do pós-anos 1990, pertence a um clube seleto de impossibilidades.
Com 13 gols em Copas do Mundo, Messi persegue ainda outro fantasma: Miroslav Klose detém o recorde histórico de artilharia com 16 tentos. Três gols separam o argentino da marca do alemão — uma margem que, considerando a fase ofensiva de Messi no Inter Miami, parece administrável se ele chegar ao mata-mata em condições físicas plenas. Em matéria do SportNavo publicada anteriormente, o histórico de Messi em jogos eliminatórios chamou atenção: dos seus 26 jogos em Mundiais — mais do que qualquer outro jogador da história, superando o alemão Lothar Matthäus — uma fatia expressiva veio nos momentos de maior pressão.
O Grupo J e o caminho mais curto para a segunda estrela consecutiva
O sorteio colocou a Argentina em uma chave administrável, mas não vazia de armadilhas. A Argélia, adversária da estreia em 16 de junho em Kansas City, chega ao torneio com uma geração moldada em grande parte no futebol europeu — jogadores formados em academias francesas que optaram pela camisa argelina. Não é um rival para ser subestimado. Áustria e Jordânia completam o quadro, e a tendência é que a Argentina avance para o mata-mata com folga — o que preserva energia e, principalmente, preserva Messi para os duelos que realmente vão definir tudo.
O cenário mais difícil começa nas oitavas, quando as seleções de peso entram no caminho. França, Espanha, Brasil e Alemanha são os nomes que os analistas colocam como principais ameaças ao bicampeonato argentino. Para qualquer um deles, Scaloni precisará de um Messi inteiro — não administrado, não poupado. Inteiro. Por isso a fadiga muscular que ele sentiu no Inter Miami antes de viajar para Kansas City é acompanhada com tanta atenção. Um Messi a 90% ainda é diferenciado. A 100%, é outro torneio.
Há uma imagem que ficou do Catar: Messi, levemente curvado, beijando o troféu dourado como quem acredita que vai acordar. Agora ele está de volta ao mesmo país onde construiu sua vida nos últimos anos, desta vez com a faixa de capitão, 39 anos chegando, e um grupo que sabe exatamente o que faz. A estreia contra a Argélia acontece em 16 de junho, em Kansas City, sob aquele calor do Missouri que já recebeu o craque na noite de domingo. O estádio vai estar cheio. O mundo vai estar assistindo.












