É um palimpsesto com as mesmas manchas. Aquele manuscrito medieval em que o monge apaga o texto anterior para escrever um novo, mas as marcas antigas resistem sob a superfície, visíveis para quem olha com atenção. Fernando Muslera tentou escrever uma nova história a cada Copa do Mundo, e em cada tentativa as manchas de 2010 voltavam à tona, mais escuras do que antes.
A eliminação do Uruguai na fase de grupos da Copa do Mundo de 2026, selada pela derrota por 1 a 0 para a Espanha em Guadalajara nesta sexta-feira (26), teve um epicentro técnico preciso: um chute fraco de Álex Baena de fora da área, uma bola que quicou antes de chegar ao goleiro, e mãos que não seguraram o que deveriam segurar. O gol foi lento. Quase contemplativo. E por isso mesmo cruel — deu tempo para todo mundo entender o que estava acontecendo antes que acontecesse.
O herói de Joanesburgo e o peso de 16 anos carregados nas costas
Quem acompanhou a Copa de 2010 na África do Sul guarda na memória aquela tarde de 2 de julho em Joanesburgo. Muslera, então com 24 anos e carregando a camiseta do Galatasaray turco, defendeu dois pênaltis de Gana nas quartas de final — Adiyiah e Mensah chutaram, ele voou, e o Uruguai avançou de forma que ainda divide opiniões éticas pelo episódio envolvendo Luis Suárez na linha do gol. Naquela Copa, a Celeste chegou às semifinais pela primeira vez desde 1970, e Muslera foi parte essencial daquele feito.
Só que a mesma Copa de 2010 já trazia o embrião da contradição. Na disputa pelo terceiro lugar contra a Alemanha, Muslera espalmou um chute de Schweinsteiger direto para os pés de Thomas Müller — gol alemão. Minutos depois, saiu mal em cruzamento e permitiu uma cabeçada de Marcell Jansen com o gol vazio. A Alemanha venceu por 3 a 2, mesmo com Cavani e Forlán virando a partida pelo meio. Aquele jogo já dizia algo sobre o goleiro que a euforia das quartas de final tinha obscurecido.
A Copa de 2014 no Brasil passou em branco para Muslera — sem falhas graves, sem momentos decisivos. A Colômbia eliminou o Uruguai nas oitavas com eficiência, mas o goleiro não estava entre os culpados. Esse intervalo de relativa tranquilidade talvez tenha consolidado uma proteção institucional ao redor dele que se tornaria difícil de questionar depois.
O padrão que ninguém quis ver em 2018 e 2022
Na Rússia, em 2018, o fantasma voltou de forma inequívoca. Nas quartas de final contra a França, Antoine Griezmann arriscou de média distância e Muslera espalmou a bola direto para dentro do próprio gol. Os franceses venceram por 2 a 0 e seguiram para a semifinal — caminho que percorreriam até o título. Aquela falha, num torneio de alto nível técnico, deveria ter reaberto o debate sobre a titularidade do goleiro. Não reabriu com a intensidade necessária.
Em 2022, no Qatar, o Uruguai foi eliminado também na fase de grupos — caiu para Gana e Portugal, numa ironia histórica que fechava um ciclo com o país africano que tinha sido vítima de Muslera doze anos antes. A Celeste não marcou gol suficiente, mas o goleiro também não esteve acima de críticas naquela campanha.
Agora, em 2026, o padrão se completou com uma crueza que impressiona até quem já esperava algo parecido. Antes da derrota para a Espanha, Muslera havia falhado no empate de 1 a 1 com a Arábia Saudita, quando Kanno cabeceou em cobrança de escanteio e o goleiro não conseguiu interceptar. Também esteve abaixo nas duas falhas que resultaram nos gols de Cabo Verde no empate por 2 a 2. Três jogos, três atuações questionáveis. A consistência da inconsistência.
O técnico Marcelo Bielsa — um treinador que, como se sabe do seu histórico no Athletic Bilbao entre 2011 e 2013 e no Leeds United antes da ascensão à Premier League em 2020, raramente abre mão de convicções táticas por pressão externa — tomou uma decisão incomum no intervalo da partida contra a Espanha: tirou Muslera e colocou Sergio Rochet, do Internacional. A substituição foi a primeira de um goleiro em Copa do Mundo sem motivação de lesão desde 2014, quando Louis van Gaal retirou Jasper Cillessen para colocar Tim Krul, pensando na disputa de pênaltis contra a Costa Rica. Bielsa, ao contrário de Van Gaal, não estava pensando em pênaltis. Estava cortando o sangramento.
Quarenta anos, cinco Copas e o peso da posição mais solitária do futebol
Existe um paralelo histórico que merece ser lembrado aqui. Peter Shilton disputou a Copa de 1990 na Itália com 40 anos, exatamente a mesma idade de Muslera agora, e também carregava o peso de um momento controverso — a mão de Deus de Maradona em 1986, gol que ele não conseguiu evitar e que ficou colado à sua imagem para sempre. Shilton jogou bem na Itália, mas a sombra de Cidade do México o acompanhou. Há algo nessa posição, a de goleiro veterano numa Copa, que amplifica qualquer erro até proporções que um atacante ou meio-campista raramente experimenta.
Muslera entendeu isso ao falar com a imprensa após o apito final em Guadalajara, num gesto de dignidade que não apaga os erros mas os contextualiza com honestidade rara no futebol moderno.
"Obviamente que nunca fui de me esconder, sempre fui de dar a cara (...) Nunca imaginei estar sofrendo tanto por este esporte, mais com todo o trabalho que fiz, por como me preparei", disse o goleiro, visivelmente emocionado.
No vestiário, antes de falar com a imprensa, ele já havia pedido desculpas aos companheiros. Depois repetiu o gesto publicamente, com uma lucidez que dói mais do que um discurso de autodefesa.
"Como lhes disse aos rapazes no vestiário, quando já estavam um pouco mais tranquilos, hoje me tocou não ter feito uma boa Copa do Mundo. Pedi desculpas a eles e a todo o povo uruguaio, embora isso não seja suficiente."
Essa frase — embora isso não seja suficiente — carrega toda a tragédia da situação. Ele sabe. E saber não muda nada no placar.
O Uruguai sem Muslera e a renovação que demorou uma Copa a mais
Há uma comparação europeia que ilumina o problema estrutural do futebol uruguaio neste ciclo. Quando Gianluigi Buffon disputou sua última Copa, em 2006, a Itália já havia preparado o caminho para Gianluigi Donnarumma — que estreou pela Azzurra aos 17 anos em 2016 e assumiu a titularidade com naturalidade. O Uruguai não fez o mesmo planejamento. Sergio Rochet, que assumiu o gol em Guadalajara depois da substituição de Muslera, tem 29 anos e joga no Internacional desde 2021 — experiência mais do que suficiente para ser o titular há pelo menos dois anos.
Esse tipo de transição adiada é como o trânsito da Avenida Paulista às 18h de uma sexta-feira: todo mundo sabe que vai travar, ninguém muda de rota a tempo, e quando o engarrafamento chega ele paralisa tudo de uma vez. O Uruguai sabia que Muslera envelheceria. Escolheu esperar demais para enfrentar essa realidade.
Com a eliminação na fase de grupos, o ciclo de Bielsa à frente da Celeste chega ao fim de forma melancólica. O treinador argentino, que construiu reputações sólidas no Athletic Bilbao e no Leeds, encerra sua passagem pela seleção uruguaia sem atingir o mata-mata do Mundial. A pressão que existia antes do torneio — incluindo uma reunião dos próprios jogadores para questionar as escolhas do técnico antes do jogo contra a Espanha, conforme apurado e publicado em matéria do SportNavo — se transforma agora em diagnóstico definitivo.
O legado de Muslera com a Celeste não será apagado por estas três semanas em 2026. Ele foi o goleiro de uma geração que chegou às semifinais de 2010, que eliminou Portugal em 2018, que jogou seis Copas consecutivas com consistência suficiente para manter a titularidade. Mas o futebol tem essa característica implacável de testar o legado nas últimas páginas, e as últimas páginas de Muslera foram escritas com letras que ele mesmo lamentou não poder apagar.
Agora o Uruguai volta para Montevidéu sem mata-mata, sem Bielsa e, provavelmente, sem Muslera na próxima convocação. Rochet herda o gol e uma seleção que precisa reconstruir não apenas o sistema defensivo, mas a confiança de uma torcida que viu o goleiro que salvou o time em Joanesburgo não conseguir segurar uma bola quicada em Guadalajara. A pergunta que fica é concreta: Rochet, titular improvisado numa fase de grupos já perdida, terá condições de virar a principal referência da meta uruguaia a tempo para as eliminatórias do próximo ciclo — ou o Uruguai repetirá o erro de construir a transição tarde demais?










