O vestiário era uma câmara de pressão. Antes do apito inicial contra o Brasil, na Copa de 1974, os jogadores do Zaire sabiam que uma derrota por quatro gols ou mais poderia ter consequências que iam muito além de qualquer eliminação esportiva. O ditador Mobutu Sese Seko havia deixado o recado. Foi nesse contexto de terror institucional que o zagueiro Mwepu Ilunga, numa falta marcada contra o Brasil e com o placar em 3 a 0, disparou a bola para longe antes de qualquer toque adversário — gesto que a imprensa internacional ridicularizou como ignorância, mas que o próprio jogador, anos depois, descreveu como protesto. Aquela Copa terminou com 14 gols sofridos, zero marcados e a seleção africana transformada em peça de propaganda de um regime.

O peso de Kinshasa sobre cada bola parada em 1974

A participação do então Zaire na Copa do Mundo de 1974, na Alemanha Ocidental, foi precedida por um feito legítimo: com nove gols de Mulamba Ndaye, o país venceu a Copa Africana de Nações naquele mesmo ano e garantiu vaga direta ao Mundial, tornando-se o primeiro representante da África Subsaariana na competição. A conquista, porém, foi sequestrada pela narrativa política de Mobutu, que em 1971 havia rebatizado o país de República Democrática do Congo para República do Zaire como parte de sua política de "Autenticidade" — um projeto de apagamento dos símbolos coloniais que, na prática, servia para centralizar poder. A seleção nacional virou vitrine do regime. Quando a vitrine arranhava, havia preço a pagar. Ndaye, artilheiro da CAN, foi expulso na partida contra a Iugoslávia — derrota por 9 a 0, uma das maiores goleadas da história das Copas — e desfalcou o time justamente no jogo mais carregado de ameaças. O resultado contra o Brasil foi 3 a 0, dentro do limite imposto pelo ditador, mas a margem era tênue o suficiente para que cada bola parada virasse uma decisão de sobrevivência.

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Cinquenta e dois anos entre Mobutu e Mbemba — o que a RD Congo reconstruiu

Mobutu caiu em 1997, após três décadas de regime, e o país voltou ao nome República Democrática do Congo. O que se seguiu foram décadas de conflito armado no leste do país, crises humanitárias sucessivas e instabilidade política que tornaram qualquer projeto esportivo de longo prazo uma equação quase impossível. A classificação para a Copa do Mundo de 2026 — registrada pelo SportNavo ao longo do processo eliminatório africano — representa, portanto, algo que transcende o calendário da FIFA. A seleção atual não carrega o estigma de 1974; carrega, ao contrário, a legitimidade de uma geração que construiu carreiras nas principais ligas europeias sem o amparo de uma estrutura federativa robusta. O zagueiro Chancel Mbemba — capitão e referência defensiva — atuou por anos na Premier League e na Ligue 1. O atacante Cédric Bakambu, referência ofensiva do grupo, acumula passagens por clubes espanhóis e chineses. São jogadores que chegam a Houston com bagagem técnica que o Zaire de 1974 jamais teve condições institucionais de desenvolver.

"As seleções africanas evoluíram muito. Conseguem pressionar em bloco médio e contam com atletas que atuam nas principais ligas da Europa. Respeitamos muito a RD Congo como seleção", declarou o técnico de Portugal, Roberto Martínez, às vésperas da partida.

A frase de Martínez não é protocolo diplomático — é leitura técnica. A RD Congo, segundo o próprio treinador espanhol, apresenta características que exigem atenção: pressão em bloco médio, transições rápidas e eficiência em bolas paradas. São exatamente os recursos que seleções com menor posse de bola utilizam para equilibrar confrontos contra adversários tecnicamente superiores. O contexto humanitário do país — que enfrenta uma das piores crises de deslocamento interno do mundo, com mais de 7 milhões de pessoas deslocadas no leste do território, segundo dados do ACNUR — torna ainda mais simbólica a presença da seleção no torneio, ainda que o futebol, por si só, não resolva nenhuma dessas equações.

Portugal em Houston e o peso de uma geração sem título

Do outro lado do gramado do NRG Stadium, em Houston, Portugal chega ao Grupo K como favorita declarada — campeã da Liga das Nações e com um elenco que combina a experiência de Cristiano Ronaldo, os 32 anos do camisa 7 ainda em alto nível, com a criatividade de Bruno Fernandes e a técnica de Vitinha. Martínez — que assumiu o comando português após a Copa de 2022 — construiu uma equipe mais ofensiva e versátil do que a de seus antecessores, capaz de variar esquemas sem perder consistência. A questão que persiste, e que nenhum amistoso de preparação resolve, é se esta geração conseguirá transformar potencial em título mundial, algo que Portugal nunca conquistou em suas participações anteriores.

"O sonho comanda a vida. Como treinador, a minha preocupação é como vamos atingir esse sonho", afirmou Martínez, recusando-se a enquadrar o torneio como uma possível despedida de Ronaldo.

A partida desta quarta-feira, às 14h (horário de Brasília), com transmissão pela CazéTV, coloca frente a frente duas histórias de Copa radicalmente assimétricas — uma seleção que nunca venceu o torneio e outra que retorna a ele após 52 anos carregando a memória de um regime que usou o futebol como instrumento de controle. A RD Congo de Mbemba e Bakambu não é o Zaire de Mobutu: é uma equipe que chegou ao Mundial por mérito próprio, em um processo classificatório competitivo, e que sabe que contra-ataques e eficiência defensiva são seus ativos mais concretos. Se Portugal vencer, como o ranking e o histórico sugerem, o resultado isolado dirá pouco. O que ficará é a imagem de um país que voltou ao palco mais visível do futebol mundial — desta vez, sem ninguém no vestiário fazendo ameaças. A próxima partida da RD Congo no Grupo K está programada para os dias seguintes da fase de grupos, quando os Léopards precisarão somar pontos para manter qualquer esperança de classificação às oitavas de final.