Não, Bradley Barcola não foi o protagonista da noite em Filadélfia. Nem Michael Olise, que chegou ao torneio como o nome mais quente do Bayern de Munique. A pergunta que Didier Deschamps precisava responder antes mesmo da bola rolar era outra, mais antiga e mais incômoda: quem ocupa o espaço que Olivier Giroud deixou vazio desde que se aposentou da seleção após a eliminação francesa na Euro 2024? A resposta, pelo menos nesta segunda-feira, veio com dois gols e um número na camisa — a 10 de Kylian Mbappé jogando de centroavante.
O vácuo que Giroud deixou e ninguém conseguiu preencher
O ex-atacante do LAFC encerrou sua trajetória com a seleção francesa como maior artilheiro de todos os tempos dos Bleus. Depois dele, Deschamps testou Marcus Thuram, da Inter de Milão, como titular na posição — e o resultado foi insuficiente. Randal Kolo Muani, contratado pelo PSG por cifras astronômicas, também não convenceu, especialmente após uma temporada irregular no clube parisiense. A lacuna no setor era real, documentada em treinos e partidas, e nenhum nome emergiu com autoridade para ocupá-la.

A solução começou a ganhar forma ainda em Clairefontaine, centro de treinamento da seleção francesa, durante a preparação para a Liga das Nações. Segundo o L'Équipe, Deschamps testou Mbappé como camisa 9 em sessões fechadas, com Barcola pelo lado esquerdo e Olise pela direita. A ideia era transformar o capitão em referência de área — função diferente da que ele exerceu durante anos no PSG e no Real Madrid, onde operava mais em profundidade pelas beiradas.
Dois gols que não foram perfeitos, mas foram suficientes
O calor de Filadélfia pesou sobre o Lincoln Financial Field desde o aquecimento. A França entrou em campo tensa, e os números do primeiro tempo foram constrangedores: apenas um chute ao gol, 0.02 de Expected Goals e meros três toques na área adversária — o pior desempenho ofensivo dos Bleus em uma fase de grupos de Copa do Mundo desde que a Opta começou a analisar o torneio em 1966. Mbappé desperdiçou dois passes em profundidade que o colocariam cara a cara com o goleiro senegalês.
O segundo tempo foi outro jogo. Mbappé abriu o placar depois de uma decisão polêmica do VAR — Sadio Mané o derrubou na área, a revisão foi para o monitor, e o árbitro Faghani, para espanto geral, não marcou pênalti antes de o próprio francês resolver na sequência. Barcola ampliou com um chip delicioso. O jovem Ibrahim Mbaye, de apenas 18 anos e 143 dias, descontou para Senegal em uma finalização histórica — tornou-se o mais jovem africano a marcar em Copas do Mundo, segundo a Opta. Mbappé respondeu na mesma hora, com uma pancada seca que fechou o placar em 3 a 1.
"Mbappé não estava no seu melhor hoje, desperdiçou dois passes decisivos no primeiro tempo, mas dois momentos de brilho mais do que compensaram" — análise publicada pelo New York Times após a partida.
Olise, Barcola e a engrenagem que Deschamps montou ao redor de Mbappé
O sistema 4-2-3-1 com Mbappé como ponta de lança exige que os jogadores ao redor funcionem como pulmão criativo da equipe — e foi exatamente o que Olise e Barcola tentaram ser. O ex-jogador do PSG foi o mais efetivo, com o gol de chip que mostrou confiança e técnica fora do comum. Olise, por sua vez, chegou ao torneio cercado de expectativa depois de conquistar a dobradinha Bundesliga e Copa da Alemanha com o Bayern na temporada 2025/2026, mas ainda busca o ritmo dentro do esquema francês.
Nos bastidores do centro de treinamento, a relação entre os três já mostrava leveza. Um vídeo publicado pela própria seleção francesa no Instagram revelou Thuram imitando o hábito peculiar de Olise de inspecionar o gramado com o boné puxado para a frente antes dos jogos. Mbappé caiu na risada. Olise apenas balançou a cabeça com um sorriso cansado — reação típica de quem já está acostumado a ser a piada do grupo. A descontração é real, mas o trabalho tático exigido por Deschamps não tem nada de brincadeira.
"Quando Thuram imita Olise. Espere para ver a reação de Michael no final" — legenda do vídeo publicado pela Federação Francesa de Futebol no Instagram.
O que os próximos jogos vão exigir de Mbappé no papel de 9
Uma vitória por 3 a 1 sobre Senegal responde a pergunta de curto prazo. Mas a Copa do Mundo tem rodadas seguintes, adversários mais organizados e defesas que vão estudar exatamente o que Mbappé fez nesta estreia. Contra o Iraque, próximo jogo do Grupo I marcado para esta segunda-feira à noite em Filadélfia, Deschamps deve escalar Manu Koné no meio-campo no lugar de Aurélien Tchouaméni, que ficou de fora do treino de véspera por precaução, fazendo trabalho de bicicleta e fisioterapia. Barcola e Lucas Digne devem entrar no time, com Olise permanecendo como o criador próximo de Mbappé.
Mbappé vai precisar mostrar que os dois gols contra Senegal não foram acidente. A França já sabe que não, o camisa 10 não é o centroavante mais previsível do torneio — mas pode ser o mais perigoso.








