Três números, antes de qualquer análise: 6, 3 e 2018. Seis gols marcados pelo Neymar contra o Japão em confrontos anteriores. Três Copas do Mundo nas quais o camisa 10 foi decisivo em fases eliminatórias. E 2018 — o único torneio em que ele entrou como alvo de provocações públicas e, mesmo assim, conduziu o Brasil até as quartas de final antes da eliminação diante da Bélgica. Esses três elementos formam o contexto no qual as palavras de Kento Shiogai precisam ser lidas.
O que Shiogai disse e por que isso importa
O atacante japonês Kento Shiogai, de 21 anos, que defende o Wolfsburg na Bundesliga, falou com jornalistas após um treino da seleção do Japão e foi direto ao ponto quando questionado sobre o retrospecto de Neymar contra os nipônicos. A resposta, registrada por veículos como Football Channel, Gekisaka, Soccer Digest e Kyodo News, não deixou margem para interpretação:
"Não é mais o Neymar de antigamente. Acho que agora estamos bem."
Shiogai foi além. Quando perguntado qual seleção lhe vinha à mente como a mais forte do torneio, o jovem atacante — que entrou por apenas seis minutos na estreia japonesa contra a Holanda e ficou no banco nas partidas seguintes contra Tunísia e Suécia — deixou o Brasil em segundo plano com uma clareza desconcertante:
"Acho que é um adversário que podemos vencer. Antigamente era forte, mas e agora? Tenho a imagem de que a França é forte. A Argentina também. Sobre o Brasil, não tenho ouvido muito ultimamente."
A declaração foi dada por um reserva que acumula menos de dez minutos na Copa do Mundo. Isso não diminui o peso simbólico da fala — ao contrário, amplifica o que ela representa: a percepção internacional de que o Brasil de 2026 ainda não convenceu o mundo da mesma forma que as gerações de 1994, 2002 ou mesmo o time de 2006.
O padrão Neymar diante da dúvida alheia
Quem acompanha a trajetória do camisa 10 desde 2010 reconhece um padrão que se repete com regularidade quase matemática: quando questionado publicamente, Neymar tende a elevar o nível de entrega em campo. Na Copa de 2014, realizada no Brasil, ele foi artilheiro da seleção com quatro gols antes de se machucar nas quartas de final contra a Colômbia — e isso num ambiente de pressão interna e externa que poucos atletas brasileiros suportaram com a mesma exposição. Em 2022, no Qatar, foi isolado como principal responsável pelo desempenho da equipe, respondeu com dois gols e uma assistência até a eliminação nas quartas diante da Croácia.
O histórico específico contra o Japão reforça esse argumento. Em amistosos e confrontos anteriores, Neymar acumulou seis gols contra os japoneses — média superior à que registra contra qualquer outra seleção asiática. O jogo de 2014, em Singapura, terminou 4 a 0 para o Brasil, com dois gols do então camisa 10 do Barcelona. Em 2012, num amistoso em Sapporo, Neymar também balançou as redes num triunfo por 4 a 0. Shiogai tinha, à época, sete anos de idade.
Não se trata de mitificar um atleta que chegou a esta Copa do Mundo carregando dúvidas legítimas sobre sua forma física após um período de lesões que se estendeu entre 2023 e 2025. A questão é outra: a provocação de um reserva de 21 anos, com menos de dez minutos disputados no torneio, raramente funciona como estratégia psicológica contra alguém que já jogou sob a pressão de 200 mil torcedores no Maracanã, foi vaiado em Fortaleza e ainda assim marcou e decidiu.
O que o Brasil precisa de Neymar contra o Japão
O jogo de segunda fase entre Brasil e Japão, marcado para segunda-feira às 14h no horário de Brasília, coloca em perspectiva uma equipe que ainda busca consolidar seu jogo coletivo sob o comando de Carlo Ancelotti. A seleção japonesa, orientada por um estilo intenso e de pressão alta, tem na velocidade de Shiogai e na organização defensiva seus principais trunfos. Não por acaso, o Japão chegou à segunda fase com uma campanha que incluiu a vitória sobre a Holanda na fase de grupos.
O que a seleção brasileira precisa de Neymar não é necessariamente o jogador de 2014 — ágil, desequilibrante, capaz de driblar três adversários seguidos em linha reta. O Brasil de 2026 tem em Vinícius Júnior e Rodrygo atores suficientes para o desequilíbrio individual. O que o camisa 10 oferece, quando está em ritmo, é algo diferente: a capacidade de tomar decisões em espaços comprimidos, de atrair marcação dupla e liberar os companheiros, e de converter penaltis e cobranças de falta com precisão acima de 80% ao longo da carreira.
Ancelotti já sinalizou que Neymar terá espaço nesta fase eliminatória, depois de uma estreia contra a Escócia — goleada por 3 a 0 no Hard Rock Stadium — em que o camisa 10 entrou no segundo tempo. A pergunta que Shiogai tentou responder por antecipação — se Neymar ainda é o mesmo — será respondida em campo, como sempre foi.
A história dos confrontos Brasil x Japão em Copas do Mundo é curta: os dois países nunca se enfrentaram numa fase eliminatória antes desta segunda-feira. Quando esse dado se soma à declaração de Shiogai e ao temperamento competitivo documentado em 25 anos de futebol de alto nível, o cenário que se desenha é o de um Neymar que chega ao jogo com motivação extra — e com seis gols de histórico contra esse adversário específico para embasar a confiança. A provocação foi feita por quem mal pisou em campo neste torneio — a resposta virá de quem carrega o número 10 do Brasil há mais de uma década.










