É um relógio suíço com pavio curto.

Neymar chegou aos Estados Unidos carregando esse paradoxo no tornozelo esquerdo — não, desta vez na panturrilha direita. Um atleta de precisão milimétrica, cuja mecânica de jogo exige o corpo inteiro funcionando como uma orquestra afinada, se prepara para a Copa do Mundo em trabalho individualizado, separado dos 25 companheiros que já correm no gramado. Na terça-feira, 2 de junho, Carlo Ancelotti comandou o primeiro treino da Seleção em solo norte-americano, com Marquinhos, Gabriel Magalhães e Gabriel Martinelli integrados ao grupo após a final da Champions League entre PSG e Arsenal. O camisa 10, não. A panturrilha ainda dita o ritmo.

A cronologia de uma lesão que nunca parece ter fim

Quem acompanha a carreira de Neymar desde os tempos de Santos sabe que o corpo do jogador virou uma espécie de arquivo médico de luxo. A ruptura do ligamento cruzado anterior do joelho direito, em outubro de 2023, custou-lhe toda a temporada 2023/2024 pelo Al-Hilal. Quando voltou, em 2025, a sequência foi novamente interrompida por outras intercorrências musculares. O último jogo registrado aconteceu em maio de 2026 — uma aparição breve que serviu mais para atestar que o jogador ainda existe em campo do que para construir ritmo competitivo real.

A lesão atual na panturrilha, classificada como grau moderado segundo fontes próximas ao departamento médico da CBF, o manteve ausente dos treinos coletivos desde a apresentação da Seleção, em 27 de maio. O Brasil goleou o Panamá por 6 a 2 no Maracanã no domingo, 31 de maio, sem que Neymar pisasse no gramado por um segundo sequer. Enquanto Endrick almoçava com a esposa Gabriely Miranda na véspera do embarque e Paquetá postava fotos da despedida familiar, o atacante do Al-Hilal apareceu em cena inusitada com enfermeiras e torcedores na sede da CBF — imagem que resumiu bem sua condição: presente no espírito, ausente na chuteira.

A cronologia de uma lesão que nunca parece ter fim Como Neymar treina separado d
A cronologia de uma lesão que nunca parece ter fim Como Neymar treina separado d

Por que Ancelotti mantém Neymar entre os 26 convocados

A decisão de Carlo Ancelotti de preservar Neymar na lista final não é ato de fé cega. É cálculo. O técnico italiano, que ao longo de sua carreira administrou lesionados de peso — de Kaká no Milan ao Benzema no Real Madrid — entende que um jogador como Neymar vale mais como ameaça potencial do que qualquer substituto em plenitude física. A estreia contra a Sérvia está marcada para 14 de junho. São doze dias a partir da chegada ao país-sede. Nesse intervalo, o Brasil ainda tem o amistoso contra o Egito no sábado, 6 de junho, e mais três dias de treino — quarta, quinta e sexta — antes do confronto.

O próprio Cafu, capitão do pentacampeonato de 2002, reconheceu ao UOL que a Seleção ainda busca entrosamento:

"Vi vontade, disposição, o time com pouco treinamento mostrou uma cara de seleção brasileira, tanto o primeiro time que jogou quanto o segundo. Faz com que o Ancelotti tenha confiança nos jogadores. Falta entrosamento para a seleção brasileira."
A frase do ex-lateral é um mapa honesto da situação: há talento, há confiança técnica, mas a cadência coletiva ainda está sendo costurada. Neymar fora dos treinos grupais é um buraco nesse tecido.

Há um precedente histórico que Ancelotti conhece bem. Em 2002, Ronaldo chegou ao Japão e à Coreia do Sul saindo de quase dois anos de inatividade grave — duas convulsões em 1998, reconstrução lenta, temporadas irregulares. Luiz Felipe Scolari o manteve, apostou, e Ronaldo marcou oito gols, incluindo os dois da final contra a Alemanha. O paralelo não é perfeito — Ronaldo tinha 25 anos, Neymar tem 34 — mas ilustra por que técnicos experientes raramente abrem mão de gênios mesmo quando os gênios chegam no limite.

O risco concreto de Neymar estrear sem ritmo

A história, no entanto, guarda exemplos do outro lado da moeda. Na Copa de 2014, no Brasil, Neymar foi interrompido por uma joelhada de Juan Zúñiga na coluna vertebral, na vitória por 2 a 1 sobre a Colômbia nas quartas de final. O que veio depois — 7 a 1 contra a Alemanha na semifinal — não pode ser atribuído exclusivamente à ausência dele, mas a equação ficou desequilibrada de forma visível. Em 2018, na Rússia, voltou de fratura no metatarso e foi cercado por desconfiança sobre sua forma física. Caiu nas quartas para a Bélgica, 2 a 1.

Um jogador que atua como Neymar — mudanças de direção abruptas como uma corrente de ar quente que dobra a chama de uma vela sem aviso — depende da panturrilha como nenhuma outra estrutura muscular. O grupo posterior da perna é o freio e o acelerador simultâneos do seu estilo. Sem essa musculatura em plena resposta, o risco de relesão numa arrancada ou num corte brusco é matematicamente maior do que seria para um jogador de movimentação mais linear.

O colunista José Trajano, ao comentar pelo Canal UOL a situação do goleiro Alisson — outro que chegou à Copa em processo de recuperação de ritmo — usou uma formulação que se aplica com precisão cirúrgica ao caso de Neymar: um atleta que atuou pouco nos meses anteriores pode ter a fama intacta e o timing comprometido ao mesmo tempo.

"Ele estava meio sem tempo de bola, saltando meio atrasado"
, disse Rodrigo Mattos sobre Alisson diante do Panamá. Substitua o nome e a posição: o diagnóstico é o mesmo.

O plano B que Ancelotti tem na manga caso Neymar não esteja pronto para a Sérvia

O Brasil que goleou o Panamá por 6 a 2 sem Neymar em campo mostrou a Ancelotti que há vida no ataque sem o camisa 10. Raphinha, Rodrygo e Endrick compuseram combinações fluidas o suficiente para que a goleada não soasse como acidente. A questão não é se o Brasil pode funcionar sem Neymar — pode. A questão é se Ancelotti vai optar pela segurança do entrosamento já estabelecido ou pelo risco calculado de inserir um jogador lesionado numa estreia de Copa do Mundo contra a Sérvia, equipe que no Mundial de 2022 levou 6 a 2 do Brasil em Lusail, com Neymar em campo por apenas 18 minutos antes de sair mancando.

O grupo da Seleção, por sua vez, entrou em modo de concentração severa. Desde a apresentação em 27 de maio, os jogadores evitam expor detalhes dos treinos nas redes sociais. Casemiro foi o mais direto:

"Seria muito importante se pudesse diminuir a rede social das nossas vidas. O ser humano não está preparado para receber tanta informação."
O silêncio digital é, nesse contexto, um sinal de seriedade coletiva — e também de consciência de que a pressão externa sobre Neymar pode desestabilizar o ambiente se alimentada por cada postagem.

  • 14 de junho — estreia do Brasil contra a Sérvia, jogo que definirá se Neymar está apto ou ficará no banco
  • 6 de junho — amistoso contra o Egito, último teste antes da Copa, possivelmente sem Neymar em campo
  • Último jogo de Neymar — maio de 2026, menos de um mês de ritmo competitivo real antes da estreia

A decisão final sobre Neymar contra a Sérvia será tomada nos próximos dez dias, à medida que o departamento médico avalia a resposta da panturrilha aos treinos individuais em Nova Jersey. Se evoluir sem intercorrências até o amistoso contra o Egito, Ancelotti terá elementos concretos para decidir. Se a panturrilha impuser limites, o Brasil estreia na Copa do Mundo 2026 com Raphinha, Rodrygo e Endrick na linha ofensiva — e Neymar como trunfo para uma segunda fase que começa a ser disputada a partir de 19 de junho.