Diz-se que a narrativa de uma Copa começa com os resultados dos amistosos preparatórios. Na verdade, não começa — e a cena desta tarde no hotel Hilton, na Barra da Tijuca, prova o contrário. Quando a delegação brasileira desembarcou no Rio de Janeiro por volta das 16h deste sábado, 30 de maio, foram dezenas de torcedores que esperavam do lado de fora. O jogador que arrancou os gritos mais altos não vai a campo amanhã. Neymar, em recuperação de lesão na panturrilha direita, foi o nome mais chamado pela torcida — e esse detalhe, aparentemente protocolar, carrega o peso de uma despedida que o Brasil ainda não sabe como processar.

A chegada ao Rio e o que a torcida revelou sobre o que o Brasil sente

A Seleção Brasileira deixou a Granja Comary, em Teresópolis, no fim da tarde de sábado, rumo ao Hilton, onde ficará concentrada até o amistoso contra o Panamá neste domingo, 31 de maio, às 18h30 (de Brasília), no Maracanã. O penúltimo compromisso antes da Copa do Mundo — o Brasil estreia no dia 13 de junho diante do Marrocos, às 19h, no MetLife Stadium, em Nova Jersey — atraiu atenção nacional. Mas o que a chegada ao hotel expôs não foi entusiasmo pela equipe de Carlo Ancelotti. Foi algo mais antigo e mais complicado: a dificuldade do torcedor brasileiro de dissociar a Seleção da figura de Neymar.

BRASIL 4 X 0 PANAMÁ | AMISTOSO DA SELEÇÃO 2014 | MELHORES MOMENTOS | ge tv

Seria hipérbole chamar esses 12 anos de reinado absoluto — mas é um reinado em escala de geração inteira. Desde 2014, nenhuma Copa passou sem que a pergunta central fosse: o que Neymar vai fazer? Amanhã, pela primeira vez, a pergunta vai ser outra. E a torcida que gritou o nome dele na Barra da Tijuca parece ainda não ter se acostumado com esse novo roteiro.

Neymar fora de campo e o que Ancelotti escala sem ele

A escalação confirmada por Ancelotti em entrevista coletiva na manhã deste sábado, na Granja Comary, não deixa dúvida sobre o momento do grupo. O técnico italiano anunciou: Alisson; Wesley, Bremer, Léo Pereira e Alex Sandro; Casemiro e Bruno Guimarães; Matheus Cunha, Raphinha, Vinicius Jr. e Luiz Henrique. Neymar fica fora, assim como Gabriel Magalhães, Gabriel Martinelli e Marquinhos — estes três por terem disputado a final da Champions League neste sábado.

"A escalação será: Alisson; Wesley, Bremer, Léo Pereira e Alex Sandro; Casemiro e Bruno Guimarães; Matheus Cunha, Raphinha, Vinicius Jr. e Luiz Henrique. No segundo tempo haverá trocas", disse Ancelotti durante a coletiva na Granja Comary.

O que o técnico italiano está fazendo, ao escalar esse time, é mais do que testar alternativas. Está, na prática, respondendo a uma pergunta que o Brasil evitou por anos: como esse grupo funciona sem o camisa 10? Neymar já soma episódios de recuperação física desde a lesão no joelho em outubro de 2023, e esta Copa do Mundo, a de 2026, pode ser a última janela real para que ele apareça em um torneio dessa magnitude. Mas o amistoso de amanhã não contará com ele — e o Brasil precisa mostrar que sabe jogar mesmo assim, especialmente diante de um adversário como o Panamá, que não é dos mais exigentes tecnicamente.

O simbolismo de uma despedida que ainda não terminou

Na cobertura do SportNavo ao longo desta semana de concentração em Teresópolis, ficou evidente que o clima ao redor de Neymar na Granja Comary foi diferente do habitual. Segundo relatos da delegação, o craque protagonizou momentos emocionantes durante o período de preparação — o que alimenta a leitura de que ele próprio enxerga este ciclo com outro peso. Aos 34 anos, com histórico recente de lesões severas e uma passagem pelo Santos que ainda não gerou os números que justificariam sozinhos uma convocação, Neymar foi incluído por Ancelotti com ciência da situação física — o técnico italiano confirmou que sabia da lesão antes de fechar a lista e manteve a decisão.

A chegada ao Rio e o que a torcida revelou sobre o que o Brasil sente Como Neyma
A chegada ao Rio e o que a torcida revelou sobre o que o Brasil sente Como Neyma

Os números que cercam esse debate são conhecidos: 79 gols em 128 jogos pela Seleção Brasileira, artilheiro histórico absoluto do país, acima de Pelé. Mas os últimos 24 meses foram marcados por mais ausências do que atuações. O Brasil que vai ao Maracanã amanhã carrega essa ambiguidade — e o torcedor que gritou o nome dele na chegada ao hotel não estava pedindo que ele jogasse. Estava, talvez, se despedindo de uma era antes que ela termine oficialmente.

O amistoso contra o Panamá neste domingo, às 18h30, no Maracanã, é o penúltimo teste antes da Copa do Mundo. Depois dele, o Brasil ainda enfrenta o Egito antes de embarcar para os Estados Unidos. A estreia no Mundial acontece em 13 de junho, contra o Marrocos, em Nova Jersey — e Neymar terá, no máximo, 14 dias para recuperar a panturrilha e entrar em campo pela última vez com a camisa da Seleção. Como um prato que leva horas para cozinhar e segundos para ser servido, o legado de um jogador não se mede no tempo de preparo — mas no sabor que fica depois que o prato é retirado da mesa.