Quinta-feira, 26 de junho de 2026. O apito final no estádio soou com a Espanha vencendo por 1 a 0, e a Copa do Mundo engoliu o Uruguai pela segunda vez consecutiva ainda na fase de grupos. Nas arquibancadas, a torcida celeste ficou em silêncio — aquele silêncio pesado, de quem sabe que não há mais jogo amanhã. Mas o que vai ficar na memória desta eliminação não é só o placar. É a lista.
Nove jogadores uruguaios encerraram o Mundial com zero minutos disputados. Nem um. Nem uma entrada de última hora, nem um segundo de bola nos pés. Entre eles estavam Giorgian de Arrascaeta, meia do Flamengo considerado o principal criativo da seleção, e Joaquín Piquerez, lateral do Palmeiras que chegou ao torneio entre os convocados de confiança de Marcelo Bielsa. Dois jogadores formados no futebol brasileiro, visíveis toda semana nos campos nacionais — invisíveis no maior palco do mundo.
O banco que virou vitrine de decisões sem explicação
Arrascaeta chegou ao Mundial com uma lesão na panturrilha contraída durante a preparação da seleção. A panturrilha cicatrizou a tempo — segundo informações da comissão técnica, o meia estava à disposição para a última rodada contra a Espanha. Bielsa optou por não utilizá-lo. Com a equipe precisando vencer para avançar, o técnico argentino preferiu manter o esquema e deixar seu jogador mais técnico assistindo do banco. A decisão ainda ecoa.
Piquerez teve um caminho diferente, mas o destino foi o mesmo. O lateral do Palmeiras perdeu espaço para Juan Sanabria ao longo da campanha — uma escolha técnica, não uma lesão. Ficou os três jogos na reserva, de colete, sem ser acionado. O goleiro Emiliano Martínez completou o trio de brasileiros sem minutos: foi a terceira opção para o gol, atrás de Fernando Muslera e Sergio Rochet.
A lista completa dos que não entraram em campo inclui ainda Facundo Pellistri, José Giménez, Ronald Araújo, Rodrigo Zalazar, Santiago Bueno e Santiago Mele. Araújo, zagueiro do Barcelona, repetiu exatamente o que viveu na Copa do Mundo de 2022 — convocado, presente, mas fora por problemas físicos. Duas Copas seguidas na arquibancada… e aí vem o problema.
A derrota que começou antes do apito inicial
O Uruguai terminou o Grupo H na terceira colocação, com dois pontos — dois empates e uma derrota. Nem os oito melhores terceiros colocados, que avançam no novo formato do torneio, foram suficientes para salvar a Celeste. A vaga ficou com Cabo Verde, estreante no Mundial, que fez três empates e terminou na vice-liderança do grupo.
A derrota para a Espanha, que selou a eliminação, teve um símbolo involuntário: o goleiro Fernando Muslera. Ele falhou no gol sofrido, foi substituído no intervalo — e, segundo Bielsa, foi o próprio arqueiro quem pediu para sair. Depois da partida, Muslera expôs o estado interno da delegação com uma frase que sintetizou tudo:
"Nunca imaginei que sofreria tanto por este esporte, especialmente com todo o trabalho que fiz, com a forma como me preparei", disse o goleiro após a eliminação.
Nas redes sociais, a reação dos torcedores foi imediata. O streamer uruguaio Fabri Uruguayo viralizou com um desabafo filmado ao vivo durante o gol espanhol:
"Olha o gol que o Muslera tomou. Muslera! Sai daí, irmão! Não temos um goleiro, irmão!", gritou Fabri, em vídeo que circulou por toda a América do Sul.
A raiva do streamer era a raiva de um país inteiro. Mas a falha de Muslera foi apenas o estopim visível de uma eliminação construída ao longo de três rodadas sem vitória.
O que sobra para Arrascaeta, Piquerez e a geração celeste
Para os clubes brasileiros, a eliminação precoce tem um lado prático imediato: Arrascaeta e Piquerez voltam mais cedo. O meia do Flamengo, que não desgastou o corpo em nenhuma partida do Mundial, retorna ao clube em condições físicas preservadas — a panturrilha recuperada, os minutos poupados. Para o Brasileirão 2026, ainda em curso, isso pode ser um trunfo.
Já para a seleção uruguaia, a conta é mais dura de fechar. Duas eliminações consecutivas na fase de grupos, uma geração de jogadores experientes que talvez não alcance mais uma Copa do Mundo — Ronald Araújo, Arrascaeta, Muslera — e um técnico cujas escolhas vão ser debatidas por muito tempo. Nicolás de la Cruz, também do Flamengo, foi utilizado por Bielsa ao longo da campanha, mas não participou diretamente de nenhum dos três gols uruguaios no torneio. Guillermo Varela foi titular nas três partidas. O futebol jogado foi funcional, mas nunca explosivo.
Uma Copa do Mundo inteira e nove jogadores que vestiram a camisa, viajaram até os Estados Unidos, treinaram, aqueceram — e não tocaram na bola em nenhum jogo oficial. É como uma orquestra que chega ao Carnegie Hall, afina os instrumentos, senta no palco e vai embora sem tocar uma nota.










