Uma dívida de R$ 1,7 bilhão. Esse é o número que assombra o Atlético Mineiro neste momento, conforme admitiu o próprio comando financeiro do clube. Para cobrir os compromissos mais urgentes, os principais acionistas da SAF atleticana — a família Menin, controladora do grupo MRV — precisarão injetar R$ 500 milhões de forma emergencial. É a maior crise patrimonial da história do Galo, em qualquer regime jurídico.

O peso das dívidas nos dois lados da rivalidade

O Cruzeiro não está em posição confortável tampouco. O balanço publicado pela SAF celeste revelou um déficit de R$ 114,9 milhões no exercício mais recente, elevando a dívida total da Raposa para a casa de R$ 1,15 bilhão. O contexto mineiro, portanto, é de dois gigantes historicamente vencedores — Atlético e Cruzeiro somam juntos 9 títulos brasileiros — operando no vermelho de forma consistente desde a transição para o modelo de Sociedade Anônima do Futebol.

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O peso das dívidas nos dois lados da rivalidade Como o Atlético-MG chegou a uma
O peso das dívidas nos dois lados da rivalidade Como o Atlético-MG chegou a uma

A comparação histórica ajuda a dimensionar o tamanho do problema. Na década de 1990, quando o Cruzeiro ergueu a Copa Libertadores de 1997 e conquistou dois Brasileirões seguidos (1966 e novamente em 2003), o clube operava sob estrutura associativa, sem a pressão de acionistas privados e demonstrativos contábeis trimestrais. O futebol de alto nível, naquele modelo, escondia déficits crônicos sob a poeira de títulos. A SAF tirou o tapete dessa ilusão.

A goleada que expôs a crise nas arquibancadas

A derrota do Atlético Mineiro por goleada diante do Flamengo neste domingo se transformou em muito mais do que uma simples rodada do Brasileirão. Nas arquibancadas, integrantes da família Menin foram alvo de xingamentos agressivos da torcida atleticana, e a situação escalou ao ponto de seus seguranças precisarem intervir de forma que chamou atenção. A cena remete ao episódio de outubro de 1997, quando torcedores do Flamengo invadiram o campo do Maracanã após eliminação em clássico — emoções à flor da pele que marcam a história do futebol brasileiro como termômetros de crises institucionais profundas.

"Pedrinho e os Menins imaginavam que ganhariam dinheiro e títulos no futebol. Aumentariam seus patrimônios pessoais e teriam uma gratidão e visibilidade que nunca receberiam apenas com seus negócios. Tudo indica que o plano deles não vai dar certo", escreveu o colunista da ESPN Brasil ao analisar o cenário dos dois clubes.

A avaliação é dura, mas tem respaldo nos números. Rubens Menin, fundador da MRV, figura entre os maiores construtores do país, com patrimônio estimado em bilhões de reais. Pedro Lourenço — o Pedrinho —, dono do grupo Supermercados BH, é um dos empresários mais ricos de Minas Gerais. Homens acostumados a rentabilidade entraram em negócios onde o retorno financeiro direto, ao menos no curto prazo, simplesmente não existe.

SAFs e a falácia do rico que salva o clube

A lei das SAFs, aprovada em 2021 sob o governo Bolsonaro com relatoria do senador Rodrigo Pacheco, foi vendida como solução para o endividamento crônico do futebol brasileiro. O caso do Botafogo de John Textor — que culminou no título da Copa Libertadores de 2024 — virou cartaz de propaganda do modelo. Mas o exemplo carioca esconde uma assimetria fundamental: o Botafogo levou anos para equilibrar receitas e despesas, e até hoje enfrenta questionamentos sobre o passivo real da gestão americana, conforme análise exclusiva do SportNavo mostrou em reportagens anteriores sobre o fair play financeiro na Conmebol.

O Atlético Mineiro, por sua vez, apostou pesado em 2024. Conquistou o Campeonato Brasileiro e a Copa do Brasil de forma inédita no mesmo ano — o chamado bicampeonato nacional — gastando um elenco que esteve entre os três mais caros do país. O custo desse projeto agora aparece no balanço com toda a clareza: R$ 1,7 bilhão em dívidas acumuladas, uma equação que nenhum título, por mais glorioso que seja, resolve sozinho.

"Já escrevi aqui que rico geralmente não rasga dinheiro. Mas, no caso dos donos de Atlético-MG e Cruzeiro, começo a achar que isso pode acontecer sim", destacou o mesmo colunista, sintetizando o impasse que os acionistas mineiros enfrentam.

O que vem pela frente para Galo e Raposa

Na prática operacional dos próximos meses, segundo apuração do SportNavo, o Atlético Mineiro terá de estruturar um plano de renegociação com credores enquanto absorve o aporte dos Menin. A família já indicou que os R$ 500 milhões servirão para quitar dívidas de curto prazo, mas a dívida remanescente de mais de R$ 1,2 bilhão seguirá pressionando o caixa por anos. O Cruzeiro, com déficit menor em termos relativos, ainda precisa explicar como reverteu apenas parcialmente o rombo herdado da gestão Ronaldo Fenômeno, que vendeu sua participação no clube em 2024.

Atlético e Cruzeiro voltam a campo pelo Campeonato Brasileiro nesta semana, ambos distantes das primeiras posições da tabela. O Galo recebe o Fortaleza na quarta-feira, no Mineirão, precisando de vitória para se aproximar do pelotão de cima. Para a direção atleticana, um resultado positivo em campo não resolve o balanço — mas ao menos adia o próximo capítulo de xingamentos nas arquibancadas.