Falhou. Não em espetáculo — o MetLife Stadium estava cheio, o Brasil usou camisa amarela e o gol de Vinicius Júnior arrancou suspiros —, mas na arquitetura ofensiva que uma Copa do Mundo exige de uma seleção com pretensões ao título. O empate por 1 a 1 com Marrocos, no sábado (13), deixou à vista o que a ausência de Neymar ainda não resolveu: o Brasil não tem, neste momento, um jogador que conecte os lados do campo pelo meio.
A panturrilha que mudou o plano de Ancelotti para a Copa
A lesão muscular de grau 2 na panturrilha direita, sofrida em 17 de maio durante a partida do Santos contra o Coritiba pelo Brasileirão, tirou Neymar dos dois amistosos preparatórios — contra Panamá e Egito — e da estreia no Mundial. O médico da Seleção, Rodrigo Lasmar, havia estimado duas a três semanas de recuperação, prazo que, passado um mês, ainda não se traduz em data concreta de retorno ao campo. O comentarista Paulo Vinícius Coelho, o PVC, foi direto ao avaliar o cenário no Canal UOL:
"Ele vai completar um mês sem jogar no dia 17, que é quarta-feira. Ele vai voltar para se recondicionar física e tecnicamente. Então não tem razão para jogar na sexta nem para jogar na semana que vem."
A leitura de PVC aponta para o mata-mata como o horizonte mais realista de reaparição. O ortopedista João Manoel Fonseca, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, reforçou que lesões de grau 2 — que comprometem aproximadamente 50% das fibras musculares — raramente permitem retorno a partidas completas de imediato. "Vai ser algo gradual, vão dosar carga, vão dosar tempo de jogo", explicou o especialista à CNN Brasil. Há um precedente histórico que ajuda a calibrar expectativas: em 2014, Neymar foi perdido na Copa justamente por subestimar o tempo de recuperação de uma lesão vertebral. A cautela de Ancelotti, agora, parece aprendizado coletivo.
Os números que expõem o desequilíbrio do ataque brasileiro contra Marrocos
Reparemos no detalhe que as estatísticas da FIFA revelam, porque ele conta mais do que qualquer análise subjetiva: o jogador com mais toques na bola pelo Brasil nos 90 minutos foi o zagueiro Gabriel Magalhães, com 84. Não um meia, não um atacante — um zagueiro. Isso, por si só, resume a dificuldade de circulação ofensiva da equipe.
O flanco esquerdo foi o corredor dominante do Brasil: 27 penetrações por ali, contra apenas 18 pelo lado direito. A explicação é estrutural. Ancelotti iniciou a partida com Ibañez improvisado na lateral direita, desequilíbrio corrigido apenas no segundo tempo com a entrada de Danilo. O lateral Douglas Santos, do Zenit, foi o brasileiro com mais tentativas de penetração: 22, das quais 18 bem-sucedidas. Mas atacar apenas por um lado é como um temporal sem trovão — tem intensidade, mas perde metade do efeito.
Raphinha, camisa 11 do Barcelona, foi o que mais correu: 11,65 km, ficando apenas 30 metros atrás do marroquino Ayyoub Bouaddi (11,68 km), o atleta mais ativo da partida. O mesmo Bouaddi, de apenas 18 anos, distribuiu 67 passes — mais do que qualquer jogador brasileiro em campo. Raphinha foi acionado 17 vezes na intermediária ofensiva e gerou seis cruzamentos, mas também cometeu cinco erros forçados. A comentarista Ana Paula Oliveira sintetizou o que muitos sentiram ao assistir:
"O fortalecimento muscular é a base para que você vá trabalhar o condicionamento cardiorrespiratório. Esse trabalho é funcional. É o suficiente? Não, porque a gente está falando de uma Copa do Mundo em que você precisa do seu atleta."
Vinícius Júnior foi o autor do gol de empate e o mais participativo entre os brasileiros: 61 pedidos de bola, número superado no jogo apenas pelo próprio Bouaddi. Eleito o melhor da partida, Vini mostrou que pode ser o detonador ofensivo desta Seleção — mas um detonador precisa de quem arme o mecanismo. Neymar, historicamente, era esse mecanismo. Em três Copas do Mundo — 2014, 2018 e 2022 — o camisa 10 acumulou 8 gols e 6 assistências em fases de grupos, números que nenhum outro brasileiro contemporâneo se aproxima de replicar.
O que Ancelotti precisa decidir antes de encarar Haiti e Escócia
A mesa de decisão de Ancelotti tem opções, mas nenhuma delas é Neymar. O técnico italiano, que completou 67 anos durante os treinos em Morristown, Nova Jersey, precisa escolher entre pelo menos três configurações táticas para os próximos jogos. A primeira, mantida na estreia, usa Raphinha aberto pela direita e Vini pela esquerda, com o meio-campo sobrecarregado na construção. A segunda deslocaria Raphinha para uma posição mais central, liberando as laterais para os alas. A terceira, mais ousada, daria minutos a Endrick — jovem que acumula 600 mil seguidores novos nas redes sociais sem ter entrado em campo na Copa — como centroavante referência.
O ex-meia Zinho, campeão do mundo em 1994 nos Estados Unidos e hoje comentarista da ESPN, foi um dos que acompanhou os treinos em Morristown e manteve o otimismo: "O Brasil não é o grande favorito, mas tem bons jogadores que podem se unir para formar uma boa equipe. Acho que tem suas chances." A avaliação, registrada pela Agência Brasil e replicada por SportNavo, reflete o estado de espírito de uma delegação que ainda acredita no hexa — mas sabe que o caminho ficou mais estreito.
O próximo compromisso do Brasil é na sexta-feira (19), às 21h30, no Lincoln Financial Field, na Filadélfia, contra o Haiti, pela segunda rodada do Grupo C. A Escócia lidera a chave após vencer os haitianos por 1 a 0. Um novo tropeço coloca o Brasil em situação delicada antes do confronto decisivo com os escoceses, no dia 24. Com ou sem Neymar em campo, Ancelotti precisa de respostas táticas — e precisa delas antes de sexta.












