Confesso: eu errei sobre Ancelotti em 2024. Achei que um técnico forjado no futebol europeu de clubes — Real Madrid, Milan, Bayern — não teria a paciência nem o instinto para lidar com a pressão específica de uma Seleção nacional. Errei feio. O que estou vendo em Nova Jersey, nesta terça-feira de 2 de junho, é um treinador que entendeu o Brasil antes de muitos brasileiros.
A delegação desembarcou no Aeroporto de Newark às 8h45, depois de quase dez horas de voo. A Copa do Mundo começa em 11 dias, e Carlo Ancelotti foi um dos primeiros a deixar o avião. Na saída, parou, olhou para as câmeras e entregou em poucas palavras o manual da campanha:
"Contente, feliz, motivado e animado. Tentarei fazer o melhor."Sem promessa de título, sem retórica vazia. É a marca do homem.
O elenco completo no Columbia Park Training pela primeira vez
Até a chegada aos Estados Unidos, Ancelotti nunca havia treinado com os 26 convocados no mesmo campo. Marquinhos, Gabriel Magalhães e Martinelli — ausentes durante a preparação na Granja Comary e no amistoso contra o Panamá — se apresentaram na noite de segunda-feira e integram a delegação completa a partir desta terça. O primeiro treino no Columbia Park Training, CT recém-reformado do New York Red Bulls que será a base do Brasil durante a primeira fase, está marcado para as 18h (horário de Brasília) e não terá acesso à imprensa.
Martinelli é o caso mais delicado dos três. O atacante do Arsenal acumula questões de ritmo de jogo — os detalhes sobre sua participação nos treinos dos próximos dias dirão muito sobre o papel que Ancelotti reserva para ele contra Marrocos. Gabriel Magalhães, por sua vez, chega para disputar posição na zaga com quem foi titular nas últimas semanas. Ancelotti não precisará inventar: ele vai observar, comparar e decidir com frieza. Esse é o método dele.
Três dias para testar, sábado para confirmar contra o Egito
O amistoso contra o Egito, marcado para sábado (7 de junho) às 19h em Cleveland, Ohio, não é jogo de preparação qualquer. Ancelotti deixou claro que usará a partida como laboratório de alto risco:
"Hoje trabalhamos e depois temos três dias para nos prepararmos para o jogo contra o Egito, para fazer alguns testes e depois preparar para o primeiro jogo."Traduzindo: a escalação contra os egípcios vai revelar quem está na frente nas disputas em aberto — lateral-direita, meia-armador e o segundo homem no ataque ao lado de Vinicius Jr.
O que para o futebol argentino é uma questão de honra coletiva — o esquema precisa funcionar como bloco, como equipe —, para o futebol português é uma questão de indivíduo dentro do sistema. Ancelotti opera na lógica europeia: ele adapta o esquema ao melhor jogador disponível, não o contrário. No Brasil de 2026, esse melhor jogador chama-se Raphinha, capitão e principal criador, e a estrutura tática vai girar em torno da capacidade dele de aparecer entre linhas.
Marrocos em 13 de junho no MetLife Stadium e o que Ancelotti pensa sobre favoritos
A estreia no Grupo C acontece no dia 13 de junho, no MetLife Stadium, em Nova Jersey — o mesmo estado onde a Seleção desembarcou nesta manhã. Marrocos é adversário de respeito: semifinalista em 2022, time organizado taticamente, com alta intensidade defensiva e transições rápidas. Não é teste, é jogo decisivo.
Ancelotti respondeu sobre favoritismo com a precisão de quem já ganhou quatro Champions League:
"Essa Copa do Mundo não tem um favorito. Equipes muito fortes. Brasil vai competir com todas as outras equipes."A afirmação não é modéstia protocolar. O Mundial de 2026 tem 48 seleções, formato expandido, e ao menos seis equipes com condições reais de chegar à final. França, Argentina, Alemanha, Inglaterra, Espanha e o próprio Brasil estão nessa prateleira. Ancelotti sabe disso melhor do que ninguém.
Após Marrocos, o Brasil enfrenta o Haiti no dia 19 em Filadélfia e a Escócia no dia 24 em Miami. A progressão do Grupo C é teoricamente favorável, mas Ancelotti não vai relaxar o nível de exigência nos treinos: a CBF investiu em aeronave VIP com 96 assentos de primeira classe justamente para que os jogadores cheguem descansados a cada jogo, sem acumular fadiga de deslocamento. O hotel-base fica em Basking Ridge, Nova Jersey, a dois horas de traslado do aeroporto. A logística foi pensada para eliminar variáveis. O que acontece dentro do campo é responsabilidade do treinador — e ele aceita esse peso sem reclamar.










