Todo mundo sabe que o Brasil chega à Copa do Mundo de 2026 sem ser favorito. Como isso pode virar combustível em vez de obstáculo é a parte que quase ninguém está calculando direito.

Edu Gaspar, atual diretor global de futebol do Nottingham Forest, foi coordenador técnico da Seleção Brasileira entre 2016 e 2019, esteve presente no ciclo da Copa da Rússia e conhece por dentro o mecanismo emocional que move esse grupo. Em entrevista ao programa Fala Aí — Especial de Copa, do Canal UOL, ele foi direto ao ponto com uma leitura que desafia o consenso das casas de apostas e dos analistas europeus.

"Eu gosto, respeitosamente falando, quando o Brasil vai com dúvida. O brasileiro, quando fica com algo contra, quando está mais ou menos, é aí que vai. Todas as Copas que nós ganhamos, chegamos um pouco... Não sei o que acontece, mas quando chega com dúvida, dá samba."

O ciclo mais turbulento desde 2014 e o que os números escondem

A Seleção Brasileira chegou a este Mundial carregando um histórico de instabilidade que seria impensável em qualquer outra potência do futebol mundial. Troca de presidente na CBF, dois técnicos descartados no ciclo e a contratação de Carlo Ancelotti — anunciado em março de 2024 e efetivado apenas meses depois — compõem o quadro de uma preparação fragmentada. Das 26 convocações para o torneio que começa este mês nos Estados Unidos, no México e no Canadá, apenas seis jogadores estiveram na Copa da Rússia de 2018: Alisson, Ederson, Danilo, Marquinhos, Casemiro e Neymar. Oito anos de renovação geracional comprimidos numa única lista.

O ciclo mais turbulento desde 2014 e o que os números escondem Como o Brasil já
O ciclo mais turbulento desde 2014 e o que os números escondem Como o Brasil já

Edu Gaspar reconhece a mudança de perfil, mas não a lê como fragilidade. "É uma equipe mais jovem, na nossa estava Willian, Firmino, Coutinho, Fernandinho, Renato Augusto. Teve uma grande mudança, até porque já faz bastante tempo, mas nós vamos chegar bem", afirmou o dirigente ao UOL. A média de idade da convocação de Ancelotti para 2026 é inferior à lista de Tite em 2018, quando o Brasil foi eliminado pela Bélgica nas quartas de final por 2 a 1 — derrota que ainda hoje serve de parâmetro para medir o fracasso.

Quando o Brasil ganhou Copa sem ser favorito absoluto

O argumento de Edu Gaspar tem respaldo histórico concreto. Em 1994, a Seleção chegou aos Estados Unidos sob pressão de 24 anos sem título e com o fantasma de 1982 e 1986 ainda assombrando a memória coletiva. Não era favorita — a Itália de Roberto Baggio e a Alemanha reunificada dividiam esse posto. O Brasil de Romário e Bebeto saiu campeão nos pênaltis. Em 2002, o time de Luiz Felipe Scolari entrou no torneio da Coreia e do Japão depois de uma das classificatórias mais sofridas da história, com Emerson se machucando antes da estreia e Ronaldo voltando de uma crise de saúde que questionava sua participação. Resultado: hexa, cinco vitórias e um empate, artilharia de Ronaldo com oito gols. Quem não tem cão caça com gato — e o Brasil, historicamente, caça melhor quando está sem a confortável alcunha de favorito absoluto.

Quando o Brasil ganhou Copa sem ser favorito absoluto Como o Brasil já ganhou Co
Quando o Brasil ganhou Copa sem ser favorito absoluto Como o Brasil já ganhou Co

O contraste com 2006 e 2010 é revelador. Nessas edições, a Seleção chegou como principal candidata ao título, com elencos considerados superiores aos adversários. Em ambas, caiu nas quartas de final — para a França em 2006 e para a Holanda em 2010. O padrão que Edu Gaspar descreve não é folclore: tem recorrência estatística suficiente para ser levado a sério.

A decisão por Neymar e o peso de uma convocação

O maior termômetro da tensão interna neste ciclo foi a convocação de Neymar, que dividiu torcedores, ex-jogadores e analistas ao longo de meses. O camisa 10 retornou ao Santos em 2025 após passagem pelo Al-Hilal e acumulou atuações irregulares, com lesões que reduziram seu volume de jogo. Ancelotti optou por levá-lo — e trabalhará com o atacante pela primeira vez na Seleção, sem o histórico de convivência que Tite tinha construído ao longo de seis anos.

Edu Gaspar, que viveu dilemas semelhantes ao lado de Tite, contextualizou a complexidade da decisão com precisão cirúrgica: "A decisão de levar um jogador para a Copa do Mundo, sobretudo um do tamanho do Neymar, não é uma coisa simples. É um dos maiores jogadores da história do futebol? Sim, ele é. Mas qual o momento que ele está? Como foram os últimos jogos? Vai ser titular? É uma análise muito individual do cara que está liderando isso, o feeling dele." O dirigente completou lembrando que a não convocação também marca: "Uma convocação para uma Copa do Mundo marca a vida de um cara para sempre, mas uma não convocação também."

A questão tática que emerge daí é real. Ancelotti terá de encaixar Neymar num sistema construído sem ele durante os amistosos de preparação, ao lado de Vinícius Júnior e Rodrygo, num trio ofensivo cujo entrosamento ainda está sendo testado. Conforme registrado pelo SportNavo ao longo da preparação, a goleada sobre o Panamá por 6 a 2 no Maracanã, em 31 de maio, gerou mais perguntas do que respostas sobre o esquema titular.

Os cenários possíveis e o que o Brasil precisa provar nas oitavas

O Brasil está no Grupo D da Copa do Mundo 2026, ao lado de México, Camarões e Arábia Saudita — um grupo acessível que permite ao time de Ancelotti chegar às oitavas de final com ritmo crescente, sem exposição precoce às potências europeias. A fase eliminatória, a partir das oitavas, provavelmente colocará o Brasil frente a seleções do calibre de Portugal, Espanha ou Alemanha — exatamente o tipo de confronto que testará se o argumento de Edu Gaspar se sustenta em campo ou fica só na teoria.

Todo mundo sabe que o Brasil chega à Copa do Mundo de 2026 sem ser favorito. Como isso pode virar hexa em vez de obstáculo é a parte que quase ninguém está calculando direito — ainda.