Confesso: em 2022, quando o Brasil foi anunciado como sede da Copa do Mundo Feminina de 2027, minha reação foi de ceticismo contido. Pensei — como tantos no meio esportivo — que seria mais uma vitrine sem continuidade, como tantos megaeventos que passaram por aqui e deixaram pouco além de estádios subutilizados e discursos de impacto. Hoje, quatro anos depois, com a máquina institucional em movimento e dados concretos sobre a mesa, preciso revisar parte dessa leitura. Mas só parte.

O que a Copa Feminina 2027 representa de inédito para a América do Sul

Pela primeira vez na história, a Copa do Mundo Feminina será disputada no Brasil — e, por extensão, na América do Sul e na América Latina. Não é detalhe protocolar. A FIFA realizou sete edições do torneio, todas concentradas na América do Norte, Europa e Ásia-Oceania. A chegada ao continente sul-americano representa uma ruptura geográfica e simbólica que o futebol feminino brasileiro precisa aproveitar com inteligência estratégica, não apenas com euforia.

A secretária extraordinária da Copa do Mundo Feminina, Juliana Agatte, foi direta ao falar sobre o objetivo central do evento durante a Rio2C, em maio de 2026:

"O que a gente quer construir é a cultura do futebol feminino, para que ele seja uma paixão nacional tanto quanto o futebol masculino é."

A frase é bonita e politicamente correta. O problema é que cultura não se decreta em portaria. A Copa Feminina de 2023, na Austrália e Nova Zelândia, bateu recordes históricos: mais de 1,1 bilhão de espectadores acompanharam o torneio globalmente, e a final entre Espanha e Inglaterra reuniu 75.784 pessoas no Stadium Australia, em Sydney. No Brasil, o interesse televisivo foi real, mas a estrutura doméstica do futebol feminino seguiu praticamente intocada nos meses seguintes… e aí vem o problema.

A tese do legado automático e o que os números do futebol feminino desafiam

A narrativa dominante em torno da Copa de 2027 aposta num efeito cascata: o torneio gera audiência, a audiência atrai patrocinadores, os patrocinadores financiam clubes, os clubes formam atletas. Esse ciclo funciona — mas apenas quando há infraestrutura prévia para absorver o impulso. E o futebol feminino brasileiro ainda carrega cicatrizes profundas de uma proibição que durou quase 30 anos, de 1941 a 1979, quando o Conselho Nacional de Desportos vedava a prática às mulheres.

Juliana Agatte reconheceu esse peso histórico sem eufemismos:

"Não podemos perder de vista que foi uma modalidade proibida durante quase 30 anos. É um esporte de resistência."

Os dados atuais confirmam a distância estrutural. No Brasileirão Feminino A1 de 2026, a média de público por jogo ainda não ultrapassa 3.500 torcedores — enquanto o masculino Série A registra médias acima de 28.000. Os contratos de patrocínio para equipes femininas representam, em média, menos de 8% do valor negociado para as categorias masculinas dos mesmos clubes. A formação de base feminina ainda é tratada como complemento, não como prioridade, em mais de 70% dos clubes profissionais do país. Apostar que um torneio de três semanas vai reverter décadas de subinvestimento é, no mínimo, uma aposta arriscada.

O que precisa acontecer antes de julho de 2027 para o legado não virar promessa vazia

A síntese honesta é esta: a Copa de 2027 pode ser um catalisador real, mas só se o Brasil agir agora em três frentes simultâneas — e não depois que a chama olímpica acender os holofotes.

A primeira frente é a escola. Agatte citou diretamente o desafio: "Seria um sucesso ver o futebol feminino mais presente nas escolas e mais acessível para meninas de todo o país." Hoje, menos de 15% das escolas públicas brasileiras oferecem futebol feminino como atividade extracurricular regular, segundo dados do Ministério da Educação de 2025. Sem meninas jogando bola no recreio, não há base para a próxima geração de atletas — e nenhum torneio preenche essa lacuna.

O que a Copa Feminina 2027 representa de inédito para a América do Sul Como o Br
O que a Copa Feminina 2027 representa de inédito para a América do Sul Como o Br

A segunda frente é a representatividade fora de campo. O governo anunciou que quer mulheres nos estádios, como comentaristas e como dirigentes. Mas o Conselho Deliberativo dos 20 maiores clubes do Brasil ainda é composto por menos de 9% de mulheres. Sem poder decisório feminino nas estruturas de gestão, as prioridades orçamentárias continuarão sendo definidas por quem historicamente ignorou a modalidade.

A tese do legado automático e o que os números do futebol feminino desafiam Como
A tese do legado automático e o que os números do futebol feminino desafiam Como

A terceira frente — e a mais urgente — é o calendário e a cobertura televisiva. A Copa Feminina de 2027 começa em julho daquele ano. Os contratos de transmissão do Brasileirão Feminino precisam ser renegociados antes disso, com janelas de horário nobre e não apenas em plataformas de streaming de nicho. A Copa Feminina de 2023 mostrou que audiência existe quando há acesso: o Brasil registrou pico de 12 milhões de espectadores simultâneos em jogos da Seleção naquele torneio. Esse número precisa ser construído domesticamente, não importado de um evento externo.

A Copa do Mundo Feminina de 2027 é o ingrediente certo na hora certa. Mas uma receita não se completa com um único elemento de qualidade — ela exige tempo de preparo, fogo controlado e atenção constante ao processo. Jogar tudo numa panela e esperar o calor do torneio fazer o trabalho sozinho é o caminho mais curto para um prato que cheira bem e não sustenta ninguém.