Confesso: eu subestimei, em 2024, a capacidade de a Copa do Mundo de 2026 se tornar um campo de batalha diplomático antes mesmo de uma bola rolar. Imaginei que o futebol, com toda sua força simbólica, criaria um armistício tácito entre Washington e Teerã. Estava errada — e o que vimos ao longo das últimas semanas explica, com precisão sociológica, por que estava errada.
O que a eliminação iraniana revela sobre o peso da política no esporte
A Copa do Mundo de 2026 encerrou, no sábado (27), a participação do Irã na fase de grupos. A seleção persa deixou o torneio denunciando publicamente o que classificou como conduta "injusta e antidesportiva" dos Estados Unidos como país anfitrião. Não se trata de retórica vazia: os relatos acumulados ao longo da competição descrevem um padrão sistemático de obstáculos que afetaram a preparação, a logística e o estado emocional do grupo iraniano.
Entre os episódios documentados estão dificuldades na concessão de vistos para membros da delegação, rotas de viagem excessivamente longas impostas antes e depois das partidas, e uma recepção que, segundo fontes ligadas à federação iraniana, ficou aquém do protocolo aplicado a outras seleções. A delegação chegou a enviar cartas formais — tanto de agradecimento a entidades que facilitaram o processo quanto de crítica às autoridades americanas que o dificultaram.
Nas palavras do porta-voz da federação iraniana, divulgadas após a eliminação, o tratamento recebido "não condizia com os princípios olímpicos de neutralidade que deveriam reger um evento desta magnitude". A declaração ecoa um sentimento que atravessou toda a participação persa no torneio.
Uma rivalidade de décadas que o gramado não conseguiu apagar
Para compreender a dimensão do que ocorreu, é necessário recuar ao contexto estrutural. Irã e Estados Unidos não mantêm relações diplomáticas formais desde 1980, quando a Revolução Islâmica e a crise dos reféns na embaixada americana em Teerã romperam definitivamente os laços bilaterais. Quarenta e seis anos de ausência diplomática criam uma burocracia hostil que nenhuma boa vontade esportiva desfaz por decreto.
O precedente mais próximo foi a Copa do Mundo de 1998, na França, quando Irã e EUA se enfrentaram em Lyon num jogo carregado de simbolismo. Naquela ocasião, os jogadores iranianos entregaram flores aos americanos antes do apito inicial — um gesto amplamente celebrado como diplomacia esportiva. O Irã venceu por 2 a 1. Mas o que diferencia 1998 de 2026 é crucial: em 1998, a França era anfitriã neutra. Em 2026, o adversário histórico é o dono da casa.
Essa assimetria de poder — que qualquer cientista social reconheceria como estruturalmente problemática — criou condições para que cada burocracia se tornasse uma arma passiva. Vistos que demoram dias a mais, conexões aéreas que exigem escalas em países terceiros, credenciamentos que chegam com atraso: individualmente, cada episódio parece acidente administrativo. Em conjunto, formam um padrão.
"Jogamos em condições que nenhuma outra seleção enfrentou neste torneio", declarou um membro da comissão técnica iraniana, segundo relato publicado pela Folha de S.Paulo após a eliminação no sábado.
O custo real para a imagem da Copa e para a Fifa
A questão que permanece em aberto — e que a Copa do Mundo de 2026 ainda precisará responder — é o que a Fifa fará com esse precedente. A entidade tem histórico de silêncio calculado diante de tensões geopolíticas entre países anfitriões e seleções participantes. Em matéria do SportNavo publicada durante o torneio, já havia sido documentado como a federação iraniana tentou negociar condições mínimas de operação sem obter garantias formais.
Do ponto de vista econômico, o caso iraniano expõe uma contradição estrutural do modelo de Copa expandida para 48 seleções: ao ampliar o número de participantes, a Fifa inevitavelmente incluiu países em conflito diplomático com os anfitriões. A receita projetada para o torneio supera os 11 bilhões de dólares — o maior da história — mas nenhuma cláusula contratual obriga os países-sede a garantir tratamento isonômico a delegações de nações adversárias.
A Fifa arrecadou, na Copa de 2022 no Catar, aproximadamente 7,5 bilhões de dólares. O crescimento de receita para 2026 é expressivo, mas não veio acompanhado de mecanismos de governança que protejam delegações em situação de vulnerabilidade política. Essa lacuna não é acidente institucional — é escolha.
"O esporte não pode ser usado como instrumento de pressão política", afirmou o chefe da delegação iraniana em carta entregue à Fifa antes da última rodada da fase de grupos, conforme relatado pela imprensa internacional.
O desempenho em campo do Irã — eliminado sem avançar da fase de grupos — não pode ser dissociado desse contexto. Atletas que viajam rotas mais longas, dormem em hotéis trocados de última hora e carregam o peso de uma disputa diplomática nas costas não chegam ao gramado nas mesmas condições que rivais poupados desses obstáculos. A sociologia do esporte de alta performance é clara nesse ponto: o ambiente externo ao jogo é parte constitutiva do resultado dentro dele.
O que ainda falta resolver é se a Fifa abrirá uma investigação formal sobre o tratamento recebido pela delegação iraniana ou se o caso será arquivado junto com a eliminação da seleção. A federação iraniana anunciou que formalizará uma queixa oficial junto à entidade nas próximas semanas. A resposta da Fifa — ou sua ausência — definirá se este episódio entra para a história como anomalia ou como modelo do que se tornará cada vez mais comum em Copas realizadas em países politicamente engajados.
Confesso: eu subestimei, em 2024, a capacidade de a Copa do Mundo de 2026 se tornar um campo de batalha diplomático antes mesmo de uma bola rolar. Agora sei que não estava subestimando o futebol — estava superestimando a neutralidade dos anfitriões.










