14 confrontos. Em 14 jogos contra o Japão, o Brasil venceu 11, empatou 2 e perdeu exatamente 1. O problema é que essa única derrota aconteceu há menos de um ano — e foi de virada, em Tóquio, com o estádio explodindo de alegria enquanto a Seleção assistia imóvel ao placar girar de 2 a 0 para 3 a 2. Segunda-feira, 29 de junho, às 14h de Brasília, o NRG Stadium em Houston recebe o reencontro. E desta vez, é mata-mata da Copa do Mundo.
A noite em Tóquio que Carlo Ancelotti não esquece
Outubro de 2025. O calor úmido de Tóquio envolvia o estádio como um cobertor. O Brasil entrou em campo com dois gols de vantagem — Paulo Henrique, lateral do Vasco, abriu o placar, e Gabriel Martinelli ampliou. Parecia uma noite tranquila. Não foi.
No segundo tempo, o Japão engoliu o Brasil vivo. Minamino foi o primeiro a marcar, aproveitando uma falha grotesca de Fabrício Bruno, que tentou sair jogando e entregou a bola nos pés do adversário dentro da área. O segundo gol veio de Nakamura — chute cruzado, Fabrício Bruno tentou o corte e mandou para o próprio gol. O terceiro foi de Ueda, de cabeça, numa cobrança de escanteio: o atacante ganhou no alto e cabeceou por cima do goleiro Hugo Souza, do Corinthians, que espalmou para dentro. A torcida japonesa foi à loucura. O banco brasileiro ficou em silêncio.
A partida ainda serviu de tribunal: Fabrício Bruno e Hugo Souza foram cortados da Copa do Mundo logo depois. O amistoso virou seleção natural — e dolorosa.
O efeito cascata que transformou a escalação brasileira
Aquela derrota em Tóquio teve consequências diretas. Dois jogadores deixaram a lista definitiva. Ancelotti acelerou a busca por uma formação estável — e demorou. Desde que assumiu o comando da Seleção em maio de 2025, o italiano usou 15 formações diferentes em 15 partidas. Quinze. Cada jogo com uma cara diferente, um teste novo, uma dúvida a mais.

Mas algo mudou na fase de grupos desta Copa. Zico, que treinou o Japão e conhece o futebol asiático como poucos brasileiros, observou a evolução com atenção.
"Ainda bem que o Brasil deu uma levantada nesses dois últimos jogos, definiu o time. Aí foi contra o Haiti no segundo jogo e no terceiro jogo não teve muitas mudanças. Em conjunto, fazendo gols e ganhando os jogos, isso dá confiança", disse o Galinho em entrevista ao podcast B.A.R.C.A.S.T. Para ele, o clique aconteceu quando Ancelotti parou de experimentar e apostou numa base — justamente o que faltou naquela noite em Tóquio.
No treino deste sábado, 27, em solo americano, Ancelotti montou a equipe titular com os mesmos jogadores que atuaram contra a Escócia na quarta-feira. Se nada mudar, o Brasil vai a campo com: Alisson; Danilo, Marquinhos, Gabriel Magalhães e Douglas Santos; Casemiro, Bruno Guimarães e Lucas Paquetá; Rayan, Matheus Cunha e Vinicius Jr. Seria a primeira vez em 825 dias que o técnico repete uma escalação à frente da Seleção.
Quem sai perdendo se o Brasil subestimar o adversário
O Japão não perde uma partida desde setembro de 2025, quando caiu por 2 a 0 para os Estados Unidos em amistoso. Desde então, são 10 jogos invictos, incluindo uma vitória por 1 a 0 contra a Inglaterra em pleno Wembley. Na Copa, a seleção japonesa terminou o Grupo F como vice-líder, com dois bons jogos e um empate diante da Suécia — equipe que lutou desesperadamente para não ser eliminada.
Zico fez um alerta específico sobre o estilo japonês:
"É um jogo em que os dois times propõem jogo. O Brasil precisa ter cuidado com a velocidade e a movimentação dos caras, porque eles não param". O ex-jogador lembrou ainda que o Brasil teve dificuldades de posicionamento contra Marrocos na fase de grupos, quando os marroquinos causaram sufoco nos primeiros 20 minutos.
Alcindo, ex-atacante que jogou no futebol japonês entre 1993 e 1997 após aceitar o convite do próprio Zico para o Kashima Antlers, também enxerga perigo.
"Vai ser um jogo difícil para o Brasil, porque a seleção japonesa evoluiu muito nesses anos. O time japonês é muito forte no conjunto. Não tem um destaque individual", disse o ex-jogador, hoje com 58 anos. Mas ele aponta um caminho: a bola aérea. "O Japão sempre teve dificuldade na bola aérea, porque os jogadores sempre foram mais baixos. Esse pode ser o caminho".
O Brasil chega diferente — mas Houston vai exigir prova
A tensão nos bastidores do CT americano é diferente da noite de Tóquio. Sem Raphinha, que se recupera de lesão na coxa esquerda, o Brasil colocou Rayan na equipe — 19 anos, frieza cirúrgica, a novidade que Ancelotti escolheu para ocupar a vaga do atacante do Barcelona. O jovem foi peça importante na vitória sobre a Escócia e entra na segunda-feira como titular confirmado.
O retrospecto histórico favorece amplamente o Brasil — 11 vitórias em 14 jogos — mas o único precedente recente aponta para o lado contrário. O NRG Stadium recebe o duelo às 14h de Brasília, com transmissão ao vivo pela CazéTV. Vale gravar o jogo, porque a escalação inédita de Ancelotti — a 16ª formação em 16 partidas, agora repetindo pela primeira vez — pode ser o maior indicador de que o técnico finalmente encontrou o time que quer levar até o fim da Copa.










