Atrasou. O Aeroporto Internacional Benito Juárez, principal porta de entrada da Cidade do México, iniciou em 2025 uma reforma de US$ 400 milhões para receber os torcedores da Copa do Mundo de 2026. Até março deste ano, segundo o próprio gerente-geral responsável pelo projeto, apenas metade das intervenções havia sido concluída — e ele confirmou publicamente que as obras não estarão prontas antes do início do torneio, em 11 de junho.
A cena é emblemática de uma tensão que atravessa toda a preparação mexicana: a de um país que quer aproveitar o maior evento esportivo do planeta para reposicionar sua imagem no turismo internacional, mas que chega ao prazo com canteiros de obra abertos e sistemas de transporte subdimensionados. Diego Alejandro, motorista de aplicativo entrevistado pela imprensa local, resumiu o sentimento popular com uma frase que viralizou:
"Vai ficar pronto para a Copa? Claro que não. Afinal, estamos no México."
Quatro décadas de espera e um aeroporto pela metade
O México não sediava partidas da Copa do Mundo desde 1986 — edição que, ironicamente, o país assumiu de última hora após o terremoto devastador de 1985 obrigar a FIFA a buscar um substituto para a Colômbia. Agora, em 2026, o país divide a organização com Estados Unidos e Canadá, recebendo jogos em cidades como Cidade do México, Guadalajara e Monterrey. O estádio que receberá a cerimônia de abertura concluiu sua reforma em março e já foi reaberto para um amistoso internacional, mas obras complementares — como o estacionamento e a linha de trem leve adjacente, que opera com composições de apenas dois vagões — dificilmente estarão prontas a tempo.
O Benito Juárez passou por melhorias visíveis em pistas, terminais, esteiras de bagagem e pontos de controle de segurança, após anos de deterioração acumulada. O problema é que parte das intervenções foi simplesmente adiada para depois do torneio. Um episódio durante as obras ilustra o nível do planejamento operacional: na reforma dos banheiros do Terminal 2, todos os sanitários das duas alas foram fechados simultaneamente, forçando passageiros a enfrentar longas filas em um único banheiro situado entre as duas alas. É o tipo de falha que, em escala ampliada, pode comprometer a experiência de milhões de visitantes.
O peso econômico de um evento que o México não pode desperdiçar
A agência de avaliação de risco Moody's projeta que a Copa adicionará 0,15% ao PIB mexicano em 2026, o equivalente a cerca de US$ 2,75 bilhões. O número pode parecer modesto, mas ganha dimensão quando se considera que a própria Moody's revisou a projeção de crescimento do país de 1,4% para 1,5% em abril, citando parcialmente o impacto do torneio. Em uma economia de US$ 1,83 trilhão — conforme dados do FMI referentes a 2025 — 13 pontos-base adicionais representam um alívio real em um ano de incertezas fiscais.
O relatório da Moody's aponta ainda que as reformas dos estádios mexicanos foram financiadas quase inteiramente pelo setor privado, o que reduz o risco clássico de grandes eventos: o de que o país-sede termine no prejuízo após anos de investimento público. A lógica é diferente da que presidiu as Copas de 1970 e 1986, quando o México legou à população melhorias estruturais duradouras — especialmente no metrô da Cidade do México. Desta vez, os investimentos são mais cirúrgicos e, por isso, mais seguros do ponto de vista fiscal, mas também menos transformadores para a infraestrutura urbana permanente.
Globalmente, o Bank of America projeta que o torneio injetará US$ 41 bilhões na economia mundial, com geração de 824 mil postos de trabalho e público estimado de 6,5 milhões de pessoas nos estádios. Os Estados Unidos concentrarão a maior fatia — US$ 17,2 bilhões ao PIB e 185 mil empregos —, mas o impacto relativo sobre o México será proporcionalmente mais significativo, dada a menor escala da economia mexicana e os maiores efeitos indiretos do gasto turístico sobre cadeias locais de serviços.
Legado real ou vitrine temporária para o turismo mexicano
A pergunta que sociólogos e economistas do esporte fazem há décadas sobre grandes eventos retorna com força: o que fica depois que as câmeras se vão? Para o México de 2026, a resposta depende menos das obras físicas — muitas das quais chegarão incompletas — e mais da capacidade de converter a exposição global em fluxo turístico sustentado nos anos seguintes.
Estudos da Data Appeal e Mabrian, em parceria com a PredictHQ, estimam que os gastos turísticos globais relacionados à Copa chegarão a US$ 4,3 bilhões, com o setor de hospitalidade respondendo por mais de US$ 3,6 bilhões desse total. A analogia mais precisa para o que o México enfrenta é a de um músico que estreia num festival internacional com o instrumento afinado pela metade: a plateia está lá, a oportunidade é real, mas a performance depende de improvisar bem nos momentos em que o roteiro falhar.
O mercado publicitário global, segundo a WARC Media, deve crescer US$ 10,5 bilhões no trimestre da Copa — ganho incremental de 1,1% em relação ao Qatar-2022. Para o México especificamente, a previsão de crescimento do investimento publicitário é de cerca de 4%, considerada positiva mas não excepcional. A fragmentação das audiências em múltiplas plataformas digitais dilui o impacto que eventos desse porte tinham sobre o mercado de mídia tradicional.
"Embora haja muito menos jogos disputados no México do que nos EUA, o tamanho menor da economia e os maiores efeitos indiretos dos gastos de turistas e cidadãos mexicanos resultarão em um impulso mais significativo para o crescimento", afirma o relatório da Moody's.
O que a Copa de 2026 revelará sobre o México não é apenas a capacidade de sediar partidas de futebol, mas a maturidade institucional de um país para transformar janelas de visibilidade em políticas de turismo de longo prazo. Obras inacabadas no aeroporto são um sintoma de planejamento fragmentado — o mesmo planejamento que, se não for corrigido após o torneio, desperdiçará o capital de imagem acumulado durante as semanas em que o mundo estará de olho nas cidades mexicanas. A estreia do México contra a África do Sul, marcada para 11 de junho de 2026, será o primeiro teste real: até lá, saberemos se o improviso foi suficiente para esconder as lacunas — e, em dezembro de 2026, os números do turismo dirão se o legado foi real ou apenas uma vitrine bem iluminada.











