A última vez que uma seleção estreante no Grupo da Morte de uma Copa do Mundo conseguiu avançar à fase eliminatória foi a Coreia do Sul em 2002 — e aquele feito exigiu uma combinação rara de organização defensiva, aproveitamento máximo nos duelos diretos e um coeficiente de expected goals (xG) consistentemente acima da média para equipes consideradas azarões. O Panamá, que nesta segunda-feira anunciou sua lista de convocados para a Copa do Mundo, vai precisar de algo parecido — e os números do elenco permitem uma leitura mais otimista do que a narrativa popular sugere.
O Grupo L e a matemática cruel que o Panamá enfrenta
O Grupo L reúne Inglaterra, Croácia e Gana — três seleções com histórico consolidado em fases eliminatórias de Copas. A Inglaterra chegou à semifinal em 2018 e à final da Eurocopa em 2020 e 2024. A Croácia foi vice-campeã em 2018 e terceira colocada em 2022. Gana, por sua vez, atingiu as quartas de final em 2010 e traz uma geração jovem liderada por jogadores formados em academias europeias. Para o Panamá, que disputou sua primeira Copa apenas em 2018 — quando perdeu os três jogos da fase de grupos, marcou um gol e sofreu onze — o desafio é estrutural.
A estreia panamenha no Mundial acontece em 17 de junho contra Gana, às 20h (horário de Brasília). Esse jogo é, objetivamente, o mais acessível dos três. Gana não tem um elenco coeso desde a saída de figuras como André Ayew da liderança técnica, e a janela de xG (gols esperados) por partida da seleção africana nas eliminatórias ficou abaixo de 1,4 — métrica que mede a qualidade das chances criadas e indica que Gana não é uma equipe que domina territorialmente os adversários. Para um leigo: um xG de 1,4 significa que, em média, aquela equipe cria oportunidades suficientes para marcar pouco mais de um gol por jogo. O Panamá, se conseguir equilibrar a posse e explorar as transições rápidas, tem condições reais de sair com um resultado positivo nessa abertura.

"Um time que entra numa Copa do Mundo pela segunda vez já aprendeu algo que a maioria ignora: o peso psicológico da estreia. A diferença entre 2018 e agora é que esses jogadores já sabem como o Mundial soa, como ele cheira, como ele pressiona. Isso não aparece em nenhuma estatística, mas decide jogos", afirmou um comentarista especializado em futebol centro-americano durante cobertura das eliminatórias da Concacaf.
O elenco convocado e os nomes que podem fazer diferença
O técnico panamenho chamou 26 jogadores, distribuídos entre três goleiros, nove defensores, nove meio-campistas e quatro atacantes. Na meta, Luis Mejía, que atua no futebol europeu, é o nome com maior regularidade em alto nível. Na defesa, Amir Murillo e Fidel Escobar são os pilares — Murillo acumula experiência na MLS e Escobar tem passagens por ligas sul-americanas com bom índice de duelos aéreos ganhos.
No meio-campo, Aníbal Godoy é o veterano que ancora a estrutura defensiva. Com 35 anos, ele já disputou a Copa de 2018 e é o jogador com mais minutos acumulados em Copas do Mundo na história da seleção panamenha. Ao lado dele, Adalberto Carrasquilla é o nome mais técnico do setor — o meia de 27 anos atua nos Estados Unidos e tem capacidade de construção de jogo que o diferencia dos demais convocados. Alberto Quintero, com 36 anos, entra como referência de experiência e leitura de jogo nas saídas de bola.
No ataque, o nome mais aguardado é Ismael Díaz, de 24 anos, que atua pelo Al-Qadsiah na Arábia Saudita após passagem pelo futebol belga. Díaz marcou 6 gols em 14 jogos pelas eliminatórias da Concacaf, tornando-se o artilheiro do ciclo para a seleção. Cecilio Waterman, com 29 anos, é o segundo atacante de referência — veloz e com bom aproveitamento em contra-ataques, característica que pode ser explorada diante de equipes que avançam suas linhas defensivas.
A preparação e o que os amistosos vão revelar
Antes da estreia, o Panamá tem três compromissos de preparação que funcionam como termômetro real do nível do elenco. O primeiro é contra o Brasil, no dia 31 de maio — um teste de alto nível que vai expor as fragilidades defensivas e a capacidade de pressão do time panamenho contra adversários de elite. Na sequência, o confronto contra a República Dominicana em 3 de junho serve para ajustes táticos com menor pressão. O terceiro amistoso, contra a Bósnia e Herzegovina em 6 de junho, é talvez o mais estratégico: a Bósnia tem um perfil físico e de organização defensiva parecido com o da Croácia, o que torna esse jogo um ensaio direto para o encerramento da fase de grupos, em 28 de junho.
A janela de seis dias entre os amistosos e a estreia é curta para ajustes profundos, mas suficiente para consolidar o esquema. O Panamá utilizou majoritariamente um 4-4-2 compacto nas eliminatórias, com linhas baixas e transições rápidas — um modelo que, contra a Inglaterra em 23 de junho, pode limitar o espaço para jogadores como Bellingham e Saka, mas que exige disciplina coletiva absoluta por 90 minutos. Contra a Croácia, que também prefere construção lenta e posse de bola, esse modelo tende a ser ainda mais eficiente.

O cenário mais realista para o Panamá é vencer Gana, segurar um empate contra Croácia e aceitar a derrota para a Inglaterra. Essa combinação matemática — 4 pontos — foi suficiente para classificar segundos colocados em grupos semelhantes em edições anteriores. O time entra em campo pela primeira vez no dia 17 de junho, às 20h, com a missão de transformar o improvável em cálculo.








