Terça-feira, 20 de maio de 2026. Quando Neymar apareceu na lista de Carlo Ancelotti, o debate que explodiu na imprensa britânica não foi sobre nostalgia — foi sobre método. O The Guardian, em artigo assinado pelo jornalista Jonathan Wilson, tratou a convocação como uma "tentativa desesperada" de replicar a narrativa que a Argentina construiu com Lionel Messi no Qatar, em 2022. O problema é que as semelhanças entre os dois casos terminam na faixa etária: Messi tinha 35 anos naquela Copa, Neymar tem 34 agora.
O que aconteceu nos bastidores da convocação que Ancelotti não explicou
Na coletiva de imprensa em que divulgou a lista para a Copa do Mundo de 2026, Ancelotti foi confrontado diretamente sobre a presença do atacante. O italiano, o técnico com mais títulos da história da Liga dos Campeões, não apresentou dados de desempenho — apresentou convicção. E convicção, como o próprio Wilson apontou, não é o mesmo que lógica esportiva.
"A escolha de Neymar é ou um grande ato de fé por parte de Ancelotti, ou uma aceitação, por parte do italiano, de que existem exigências políticas sobre o técnico da seleção brasileira das quais nem mesmo o treinador mais vitorioso da história da Liga dos Campeões consegue escapar."
A frase do jornalista inglês é dura, mas encontra respaldo nos números da temporada de Neymar no Santos: 15 partidas disputadas em 2026, interrompidas por uma lesão na panturrilha que tirou o atacante de campo nas semanas que antecederam a convocação. Para efeito de comparação, Messi havia disputado 30 jogos pelo PSG na temporada 2021/2022 antes de embarcar para o Qatar — e marcou 11 gols naquele período. A diferença de volume e consistência entre os dois casos é objetiva.
Nos bastidores da CBF, segundo apuração do SportNavo, há quem defenda que a presença de Neymar tem valor simbólico para o elenco — especialmente para jogadores mais jovens que cresceram assistindo ao camisa 10. Mas símbolo e titular são funções que raramente coexistem em Copa do Mundo sem custo tático.
Por que Messi em 2022 não serve de modelo para Neymar em 2026
A Argentina chegou ao Qatar com um projeto coletivo consolidado sob o comando de Lionel Scaloni, que havia conquistado a Copa América de 2021 — o primeiro título do país em 28 anos — e a Finalíssima de 2022, contra a Itália, por 3 a 0. Messi era o ponto mais alto de uma estrutura que funcionava sem ele: Julián Álvarez marcou 4 gols no torneio, Enzo Fernández ganhou o prêmio de melhor jovem, e a defesa sofreu apenas 8 gols em 7 jogos.
O Brasil de 2026 chega em posição diferente. A Seleção encerrou as Eliminatórias com sequência de resultados irregulares, incluindo a derrota constrangedora por 1 a 0 para a Bolívia em El Alto, a 4.100 metros de altitude, em setembro de 2025. O time ainda não encontrou um sistema fixo nem uma dupla de ataque que produza com regularidade sem depender de um único jogador para criar. Essa dependência estrutural é exatamente o que o The Guardian diagnosticou como "cultura" — não como falha pontual.
"Desde o início, a sensação era de que o Brasil precisava de um Messi para chamar de seu, e isso criou uma cultura de dependência que não beneficiava ninguém", escreveu Wilson no jornal inglês.
Há um dado que a comparação etária costuma ocultar: Messi chegou ao Qatar com três lesões musculares ao longo de 2022, todas de baixo grau e recuperadas dentro do prazo. Neymar acumula, desde 2018, duas cirurgias no tornozelo direito, uma lesão no tornozelo esquerdo que o tirou da Copa de 2018 contra a Bélgica nas quartas de final, ruptura do ligamento cruzado anterior em outubro de 2023 — que o manteve fora por 11 meses — e agora a contusão na panturrilha. São históricos biomecânicos completamente distintos.
O peso do hexa e a armadilha de apostar em um único jogador
A Argentina buscava o tricampeonato em 2022 e o conquistou. O Brasil busca o hexacampeonato em 2026 — e o faz carregando 24 anos de espera desde o pentacampeonato no Japão e na Coreia. Esse peso histórico tem produzido, Copa após Copa, a mesma distorção: a necessidade de concentrar a narrativa em um único nome capaz de "resolver" o torneio.
Ronaldo foi esse nome em 1994 e 2002. Ronaldinho foi em 2006, com resultado desastroso. Kaká tentou em 2010. Neymar foi em 2014 — e saiu de maca na quartas de final contra a Colômbia, antes do 7 a 1 contra a Alemanha. Em 2018, voltou com o tornozelo comprometido e saiu nas quartas novamente. Em 2022, saiu lesionado na fase de grupos e o Brasil foi eliminado nos pênaltis pela Croácia. A linha do tempo é extensa e os dados são consistentes: a dependência de um único jogador não produziu título desde 2002.
Neymar disputará sua quarta Copa do Mundo em 2026, igualando o número de participações de Messi no torneio. O argentino, que buscará o bicampeonato no torneio sediado nos Estados Unidos, no Canadá e no México, chega em condição física distinta: aos 38 anos, disputou 27 jogos pelo Inter Miami na temporada 2025/2026, marcando 14 gols. A diferença de ritmo de jogo entre os dois veteranos é de quase o dobro em volume de partidas.
Ancelotti, que completou 66 anos em junho de 2025 e construiu sua reputação exatamente por saber gerir elencos com estrelas de alto ego, terá pela frente o desafio mais delicado de sua carreira: transformar Neymar em recurso tático sem transformá-lo em âncora narrativa. Se conseguir, a convocação terá sido intuição apurada. Se não conseguir, o artigo de Jonathan Wilson no The Guardian vai envelhecer muito bem — e o Brasil vai entrar para 2030 ainda procurando o seu Messi.
A estreia do Brasil na Copa do Mundo de 2026 está prevista para 13 de junho, no estádio SoFi, em Los Angeles, contra uma adversária a ser definida pelo sorteio marcado para 27 de maio em Miami. Neymar tem menos de três semanas para provar que está fisicamente disponível — e esse prazo, desta vez, não é negociável.









