Domingo, 22 de junho de 2026. O sol ainda não havia esquentado Miami quando os uruguaios que lotam os arredores do Hard Rock Stadium começaram a repetir uma frase que soa como aviso: «No podemos fallar de nuevo». Eles sabem que um novo tropeço contra Cabo Verde nesta tarde coloca a Celeste na beira de um abismo que, historicamente, engoliu seleções muito maiores.
O empate por 1 a 1 com a Arábia Saudita na estreia não foi apenas um resultado ruim — foi um sinal de alarme. Quem acompanha a história do futebol mundial lembra que em julho de 2002, a França campeã do mundo entrou no Grupo A da Copa da Coreia/Japão com Zidane lesionado, perdeu para o Senegal na abertura e foi eliminada sem marcar um único gol. O mecanismo é sempre o mesmo: favorito subestima a pressão cumulativa, perde ritmo na estreia e não consegue se recuperar a tempo. O Uruguai, bicampeão mundial em 1930 e 1950, está exatamente nessa encruzilhada.
O peso de 76 anos sobre os ombros da Celeste
Quando se fala em Uruguai e Copa do Mundo, o dado mais citado é aquele título de 1950 no Maracanã — o Maracanazo, conquistado com 173.850 pessoas nas arquibancadas. Mas o dado mais relevante para entender a pressão atual é outro: nos últimos quatro Mundiais em que o Uruguai não passou da fase de grupos (1966, 1974, 2002 e 2014), a derrota ou o empate na segunda rodada foi o gatilho em todos os casos. O padrão se repete com uma regularidade que deveria preocupar o técnico Marcelo Bielsa.
Brian Rodríguez, atacante que atua no América do México e soma 34 partidas e quatro gols pela seleção, foi direto ao ponto depois do treino desta semana:
"Eles são muito bons fisicamente e tecnicamente. Será uma partida muito difícil, mas temos nossos pontos fortes e queremos vencer. Quando descobrimos o grupo, sabíamos que seria difícil, mas esperamos que não haja surpresas e que sejamos nós a sair vitoriosos."
A frase revela mais do que confiança: revela consciência do perigo. O atacante completou que a equipe precisa "entrar em campo com a mentalidade de sermos o time que toma a iniciativa", o que soa como autocrítica velada ao primeiro tempo apagado contra os sauditas. Bielsa ajustou o sistema no intervalo daquela partida e o segundo tempo foi melhor — mas em Copa do Mundo, você não tem sempre a segunda chance de corrigir o rumo.
Vozinha e a arte de fazer o impossível parecer rotina
Do outro lado do campo estará um personagem que a Copa de 2026 já transformou em símbolo. Vozinha — nome de batismo Josimar, homenagem ao ex-atacante da Seleção Brasileira dos anos 80 — tem 40 anos e chegou ao torneio com 50 mil seguidores no Instagram. Menos de uma semana depois, após o 0 a 0 heroico contra a Espanha, o número passou de 15 milhões. Sete defesas cruciais, nenhuma declaração egocêntrica, havaiana no pé nas entrevistas coletivas.
Toni Silva, zagueiro do Sport Club África Show e amigo próximo do goleiro, resume com precisão o que torna Vozinha tão improvável quanto real:

"É um sonho vê-lo na Copa do Mundo. É um cara humilde, veio da pobreza, é uma pessoa muito simples. Joga futebol com as crianças em campo de terra, é divertido, brinca com todo mundo. É simples, havaiana no pé, short, camiseta, não é de ostentar."
Nuno Pires, lateral-direito que foi campeão com Vozinha pelo Mindelense em 2011, acrescenta um detalhe tático importante: o goleiro age naturalmente independentemente do tamanho do jogo. Isso não é apenas carisma — é a principal razão pela qual Cabo Verde não vai simplesmente recuar e esperar o resultado. A tranquilidade do arqueiro contamina o grupo inteiro. O futebol tem um ditado que se aplica perfeitamente aqui: quem não tem cão caça com gato — e os cabo-verdianos caçaram a Espanha com organização, transição veloz e um goleiro que faz o extraordinário parecer ordinário.
O Grupo H e o que cada ponto representa para o futuro das duas seleções
A tabela do Grupo H, após a primeira rodada, apresenta um cenário de equilíbrio perturbador: Espanha e Cabo Verde com um ponto cada, Uruguai e Arábia Saudita também com um ponto cada. Matematicamente, qualquer resultado ainda é possível para qualquer equipe. Mas a lógica do torneio diz que uma vitória uruguaia neste domingo abre caminho para a decisão contra a Espanha no dia 26 — jogo que, com três pontos no bolso, a Celeste pode até encarar com alguma margem de cálculo.
Para Cabo Verde, uma vitória sobre o Uruguai seria o maior resultado da história do arquipélago no futebol, superando a própria estreia heroica contra os espanhóis. O país de 600 mil habitantes, que disputa sua primeira Copa do Mundo, estaria matematicamente classificado antes da última rodada — um feito que nenhuma seleção africana estreante conseguiu desde que o Senegal de El Hadji Diouf chegou às quartas de final em 2002.
O empate, por sua vez, deixaria tudo aberto e provavelmente favoreceria a Espanha, que enfrenta a Arábia Saudita na mesma rodada. Com a qualidade técnica dos espanhóis — campeões da Eurocopa de 2024 com 19 gols marcados na competição —, uma vitória deles reduziria drasticamente as chances de ambos, Uruguai e Cabo Verde, avançarem.
A Celeste tem pelo menos um dado histórico a seu favor: em todas as edições da Copa em que o Uruguai venceu a segunda partida da fase de grupos após um tropeço na estreia, a equipe chegou ao menos às oitavas de final. Aconteceu em 1954, em 1970 e em 2010, quando a seleção foi até as semifinais no Brasil. É o mesmo cenário que a Argentina viveu em 1990 — derrotada pela Camarões na abertura, venceu as duas rodadas seguintes e chegou à final — só que agora a aposta é diferente, porque do outro lado estará Vozinha.








