Quando Roberto Ayala tinha 25 anos, já era titular absoluto do Napoli e estava a um passo de se tornar um dos zagueiros mais respeitados da América do Sul. Eric García chega à mesma idade com um currículo ainda mais denso — Premier League, La Liga, Supercopa — mas numa situação que poucos esperavam: vistando a camisa 24 do Nantes, tentando provar que ainda tem lugar entre os grandes da Europa... e aí vem o problema.
O que ele ainda não resolveu
O ar frio do Loire-Atlantique tem uma forma particular de deixar tudo mais nítido. E o que ficou nítido na Ligue 1 2025/2026 é que García ainda não encontrou seu ritmo no novo endereço. Em apenas uma partida disputada nesta temporada, sem gols e sem assistências, o zagueiro catalão não conseguiu ainda estabelecer a presença que seu histórico prometia. Para um zagueiro que saiu de um Barcelona campeão espanhol em 2024/25 e ainda venceu a Supercopa da Espanha em 2025/26, o salto para a beira do Atlântico tem um custo que os números ainda não absorveram.
O ponto central não é técnico — é de continuidade. García nunca foi o tipo de defensor que resolve jogos com físico avassalador. Seu jogo é lido, posicional, baseado em antecipação e saída de bola. Esse modelo funciona dentro de sistemas que ele conhece de cor. O problema, agora, é que o sistema ao redor dele mudou completamente. A linguagem tática do Nantes, o ritmo da Ligue 1, os companheiros de zaga — tudo é novo. E um único jogo não é tempo suficiente para ajustar nada.
Onde está hoje em relação a esse buraco
Nascido em 9 de janeiro de 2001, em Barcelona, García construiu sua carreira com uma consistência que poucos jogadores da sua geração conseguiram. Saiu das categorias de base do Barcelona ainda jovem, foi para o Manchester City, onde conquistou a Supercopa da Inglaterra em 2019, a Copa da Liga Inglesa em 2020/21 e o Campeonato Inglês em 2020/21 — três títulos em dois anos sob Pep Guardiola, um dos ambientes táticos mais exigentes do planeta.
O retorno ao Barcelona, o clube que o formou, foi mais do que simbólico. Foram dois títulos de Campeonato Espanhol (2022/23 e 2024/25), três Supercopas da Espanha (2022/23, 2024/25 e 2025/26) e uma Copa del Rey (2024/25). Ao longo de toda a carreira, conforme registrado pelo SportNavo com base em dados disponíveis, García acumulou 105 partidas, 10 gols e 6 assistências — números que, para um zagueiro, representam contribuição direta bem acima da média da posição.
Mas o presente está em Nantes. E o presente, por ora, é de adaptação silenciosa — sem a fanfarra dos títulos, sem o conforto da torcida do Camp Nou. Uma partida disputada, o marcador em zero em ambas as colunas ofensivas. Não é fracasso. É, literalmente, o começo… mas falta o resto.
O caminho técnico para tapá-lo
O que García precisa construir em Nantes é algo que ele já construiu antes, só que em contextos mais favoráveis: a confiança de um sistema inteiro depositada nele. No Manchester City de Guardiola, a saída de bola pelo zagueiro não era opcional — era o DNA do jogo. No Barcelona, a mesma lógica. García absorveu esse modelo tão profundamente que hoje é incapaz de jogar de outra forma. Isso é uma força. Mas também pode ser uma fragilidade quando o entorno não compartilha da mesma filosofia.
O trabalho nos próximos meses passa por uma coisa concreta: acumular jogos. Nada de complexo. A Ligue 1 2025/2026 ainda está em andamento, e o calendário oferece tempo para que García estabeleça uma sequência, aprenda os padrões do campeonato francês e — mais importante — construa cumplicidade com a linha defensiva ao seu redor. Sua estreia pela seleção espanhola principal, em setembro de 2020, quando substituiu Sergio Ramos numa vitória por 4 a 0 sobre a Ucrânia, mostrou que ele não se intimida com cenários de pressão. O desafio agora é diferente: não é entrar no lugar de um ídolo. É construir sua própria história num clube que precisa acreditar nele.
A passagem pelas seleções de base também conta. García foi campeão da Eurocopa Sub-19 em 2019 e esteve entre os 18 convocados para os Jogos Olímpicos de Tóquio em 2021. Esses momentos moldaram um jogador acostumado a ambientes de alta cobrança — e essa mentalidade, silenciosa mas presente, é o ativo mais difícil de quantificar e o mais valioso para o que está por vir.
O que isso destrava na carreira
Se García encontrar consistência no Nantes — se a temporada virar e ele acumular partidas, consolidar sua liderança defensiva e mostrar que o modelo de jogo que o tornou relevante na Espanha e na Inglaterra funciona também na França — o efeito cascata é significativo. Aos 25 anos, com um currículo de nove títulos em clubes de primeira linha, ele ainda tem janelas abertas. Uma boa temporada na Ligue 1 recoloca seu nome em circulação nos mercados italiano, alemão e inglês, onde zagueiros com saída de bola qualificada e experiência internacional são disputados a peso de ouro.
O cenário oposto — de estagnação, de uma temporada desperdiçada em fragmentos de minutos — seria o único capaz de comprometer uma trajetória que, até agora, soube navegar com inteligência. García não é um jogador que se impõe pela potência física. Ele se impõe pela consistência, pela leitura, pelo acúmulo. E acúmulo exige tempo em campo.

Quando Roberto Ayala tinha 25 anos, já era titular absoluto do Napoli e estava a um passo de se tornar um dos zagueiros mais respeitados da América do Sul. Eric García chega à mesma idade com um currículo ainda mais denso — Premier League, La Liga, Supercopa — mas numa situação que poucos esperavam: vestindo a camisa 24 do Nantes, tentando provar que ainda tem lugar entre os grandes da Europa... e o lugar está esperando ser tomado.








