A última vez que o futebol mundial adotou uma mudança de arbitragem tão estrutural em véspera de Copa do Mundo foi em 2018, quando a FIFA introduziu o VAR no torneio pela primeira vez, na Rússia. Oito anos depois, em 2026, a federação vai além: pela primeira vez na história do Mundial, o árbitro de vídeo poderá corrigir escanteios e tiros de meta marcados incorretamente — e a Seleção Brasileira chegou a esse debate com uma palestra formal na Granja Comary, em Teresópolis, conduzida pelo presidente da Comissão de Arbitragem da CBF, Rodrigo Cintra, na última sexta-feira, 29 de maio.

O que mudou na regra e por que isso não existia antes

Até hoje, o VAR era explicitamente proibido de interferir nas decisões de escanteio ou tiro de meta. O árbitro de campo tinha autonomia total sobre esses lances — e os erros, muitos deles capturados pela transmissão televisiva em ângulos cristalinos, ficavam sem correção mesmo quando o equívoco era óbvio. A nova resolução da IFAB, que entra em vigor oficialmente no dia 1º de junho, muda esse protocolo: o árbitro de vídeo poderá alertar o árbitro principal sobre o erro, desde que a intervenção ocorra antes do reinício do jogo. A janela é pequena, mas suficiente para eliminar o tipo de injustiça que, em jogos eliminatórios, pode custar uma Copa.

A tecnologia também passa a atuar em duas frentes inéditas além das correções de bola parada. Sobre ritmo de jogo, as novas regras estabelecem um limite de cinco segundos para recolocar a bola em jogo em tiros de meta e laterais. Nas substituições, o atleta que sai deve deixar o gramado pelo ponto mais próximo em até dez segundos — se ultrapassar esse tempo, o substituto precisará aguardar um minuto após o reinício para entrar. Segundo Rodrigo Cintra, o objetivo central das alterações é otimizar o tempo de bola rolando e garantir mais justiça às partidas.

"Percebi um interesse imenso dos atletas em entender a fundo os detalhes dessas mudanças e os impactos que podem ter nas partidas", afirmou Rodrigo Cintra após a palestra com o elenco brasileiro.

O Brasil de 2026 diante de um cenário diferente do que viveu em 2018

Quando o VAR estreou na Copa de 2018, o Brasil foi uma das seleções que mais sentiu o impacto da tecnologia — para o bem e para o mal. A vitória por 2 a 0 sobre a Costa Rica, por exemplo, dependeu de dois pênaltis revisados na reta final. Agora, o contexto é outro: com um elenco tecnicamente mais curto nas pontas mas mais experiente coletivamente, a Seleção sob comando de Carlo Ancelotti tende a jogar em blocos compactos e transições rápidas — um estilo que sofre desproporcionalmente com lances de bola parada mal marcados, que interrompem o fluxo ofensivo e retiram pressão territorial acumulada.

A diferença de impacto entre ter ou não a correção de VAR em escanteios e tiros de meta pode parecer pequena em termos absolutos, mas é do tamanho da distância entre Recife e Fortaleza — 800 quilômetros que num mapa parecem pouco e numa Copa do Mundo representam a diferença entre uma semifinal e uma eliminação nas oitavas. Em torneios eliminatórios, onde uma jogada parada decide o placar, a precisão no diagnóstico do lance é um ativo estratégico, não apenas uma questão de justiça esportiva.

O atendimento médico também entra no novo protocolo

A palestra na Granja Comary abordou ainda mudanças no protocolo de atendimento médico dentro de campo. Jogadores de linha que precisarem de assistência deverão ser tratados fora do gramado e só poderão retornar após um minuto de bola rolando, com autorização expressa da arbitragem. Há exceções para situações graves: lesões de goleiros, concussões e choques entre atletas do mesmo time seguem protocolos distintos. A medida visa eliminar a simulação de lesões como ferramenta para quebrar o ritmo adversário — uma prática que, estatisticamente, prejudica mais as seleções que preferem o jogo em velocidade, como o Brasil historicamente constrói.

"O objetivo central das alterações é otimizar o tempo de bola rolando e garantir mais justiça às partidas", disse Rodrigo Cintra durante a apresentação ao elenco da Seleção.

O teste prático começa no domingo no Maracanã

A Seleção não terá de esperar junho para testar as novas regras em campo. O amistoso contra o Panamá, marcado para este domingo, 31 de maio, no Maracanã, já será disputado com o novo protocolo em vigor — um laboratório real para que jogadores e comissão técnica calibrem comportamento em situações de bola parada, ritmo de substituição e atendimento médico. A Copa do Mundo de 2026, sediada nos Estados Unidos, Canadá e México, será o primeiro torneio mundial a aplicar todas essas resoluções simultaneamente. A Granja Comary ouviu o regulamento; o Maracanã, no domingo, vai testar se o elenco assimilou o que foi explicado.

Rodrigo Cintra saiu da sessão com a impressão de que o grupo brasileiro entendeu a dimensão das mudanças. Agora, cabe ao árbitro que apitar Brasil e Panamá — e, em seguida, aos juízes designados pela FIFA para a Copa — mostrar que a tecnologia, desta vez, chegou para ficar. Em matéria do SportNavo, o foco sempre foi cobrar que as ferramentas sirvam ao jogo. Neste caso, pela primeira vez em décadas, o regulamento parece andar na mesma direção.

O árbitro levanta o braço, a tela de revisão acende no estádio, e o escanteio que nunca deveria ter sido marcado simplesmente deixa de existir. Quarenta anos de erros sem correção condensados num gesto de cinco segundos.