Não, o empresário de futebol não é mais apenas o homem do telefone que aparece em janeiro e julho para negociar cláusulas de rescisão. Essa figura existe desde os anos 1980, quando agentes como João Havelange Filho começaram a sistematizar as transferências do futebol brasileiro para a Europa. O que mudou — e mudou de forma estrutural — é que a geração convocada por Carlo Ancelotti para a Copa do Mundo chega ao torneio tendo sido moldada por estruturas que funcionam, nas palavras do próprio mercado, como microempresas ao redor de cada atleta.

O modelo antigo que o Brasil usou por décadas

Entre 1970 e 2002, o Brasil venceu quatro das cinco Copas que disputou. Mas a gestão de carreira dos jogadores daquelas gerações era quase artesanal. Ronaldo Fenômeno chegou ao Barcelona em 1996 sem falar catalão ou espanhol fluente. Romário teve passagens traumáticas na Holanda em parte por isolamento cultural. Ronaldinho Gaúcho precisou de meses para se adaptar ao PSG em 2001 antes de explodir no Barcelona. O talento era tão acachapante que cobria as lacunas. Mas os clubes europeus já percebiam, naquele período, que atletas mal adaptados culturalmente produziam abaixo do potencial — e começaram a exigir mais das representações.

O modelo antigo que o Brasil usou por décadas Como os empresários '360º' mudaram
O modelo antigo que o Brasil usou por décadas Como os empresários '360º' mudaram

A Copa de 2006, na Alemanha, expôs essa fragilidade de forma dolorosa. O Brasil de Parreira caiu nas quartas para a França de Zidane por 1 a 0. Naquele grupo havia jogadores que somavam, entre si, quase R$ 1 bilhão em valor de mercado. O problema não era técnico. Era de coesão, de ambiente, de gestão de pressão coletiva — exatamente o tipo de variável que o modelo 360° busca controlar hoje.

A Roc Nation e o que Endrick já sabia antes de pisar no Bernabéu

A Endrick é o caso mais documentado dessa transição. Quando o atacante foi vendido pelo Palmeiras ao Real Madrid por valor fixado em cerca de 60 milhões de euros, ele já havia iniciado, sob coordenação da sua equipe de gestão, um processo paralelo de aprendizado de inglês e espanhol. Isso não aconteceu por acaso ou iniciativa pessoal. Foi planejado como parte de um protocolo de adaptação cultural — o mesmo tipo de estrutura que a Roc Nation, empresa cofundada pelo rapper Jay-Z, aplica aos atletas sob sua gestão.

A Roc Nation cuida hoje das carreiras de pelo menos cinco jogadores com chances reais de atuar na Copa do Mundo: o lateral Douglas Santos, o meia Vinícius Júnior, o meia Lucas Paquetá e os atacantes Gabriel Martinelli e o próprio Endrick. O leque de serviços vai muito além das negociações contratuais: inclui suporte psicológico, assessoria contábil e jurídica, gestão de patrocinadores e organização da rotina familiar dos atletas.

"Fomos pioneiros no Brasil. Muito antes da nossa fusão, na percepção de que representar jovens atletas consistia de muito mais do que esperar a hora de os auxiliar com seus contratos. Tínhamos na formação deles, especialmente quando a comparávamos com a de franceses, espanhóis, ingleses e alemães, muito mais lacunas do que temos hoje", afirmou Thiago Freitas, diretor de Operações da Roc Nation, conforme registrado pelo SportNavo.

A comparação com franceses, espanhóis e alemães não é retórica. A França venceu a Copa de 1998 e 2018 com gerações que passaram por academias como as do Lyon e do PSG, estruturas que já incluíam suporte psicológico e gestão de imagem desde a base. A Espanha de 2010 havia sido construída em torno de jogadores formados no sistema catalão e madrilenho, onde o cuidado com o atleta como indivíduo completo já era protocolo. O Brasil chegou a esse modelo com atraso, mas chegou.

O que os números revelam sobre a adesão real dos atletas

O problema da resistência interna

Nem tudo nesse novo modelo funciona como previsto. A própria Roc Nation reconhece que a adesão dos atletas aos serviços complementares é baixa. Após avaliar mais de 100 atletas ao longo de quase uma década, a empresa identificou que menos de 20% deles utiliza os serviços de forma adequada.

"Avaliamos ao longo de quase uma década mais de 100 atletas que, em algum momento, passaram a receber serviços complementares aos dos clubes. Métricas objetivas mostraram que nem 20% deles faz o uso adequado e/ou se beneficia desses serviços. Passam a tratar como uma obrigação da qual precisam se livrar, e não um privilégio, buscando formas de burlar a cobrança associada a eles", detalhou Freitas.

Esse dado é revelador. A mudança de mentalidade que o modelo 360° exige é, em si, um processo de gestão. Os serviços oferecidos são:

  • Suporte psicológico individual e acompanhamento de saúde mental
  • Educação financeira e planejamento patrimonial de longo prazo
  • Assessoria jurídica em contratos, direitos de imagem e fiscalidade internacional
  • Aprendizado de idiomas e adaptação cultural ao país de destino
  • Gestão de patrocinadores e construção de marca pessoal

O problema, como apontam os dados da própria empresa, é que atletas criados num ambiente em que o clube resolve tudo — da chuteira ao apartamento — têm dificuldade de enxergar esses serviços como investimento. Tratam como burocracia. Esse padrão comportamental é o principal obstáculo à consolidação do modelo, não a oferta de serviços.

A Copa do Mundo de 2026, sediada nos Estados Unidos, Canadá e México, será o primeiro torneio em que uma parcela relevante da Seleção Brasileira chega tendo passado por esse processo de gestão integral desde a base. Vinícius Júnior, por exemplo, foi contratado pelo Real Madrid em 2018 por 45 milhões de euros quando tinha 17 anos — e os primeiros anos de adaptação foram marcados por instabilidade dentro e fora de campo. O suporte estruturado veio depois, e os resultados vieram junto: dois títulos da Champions League (2022 e 2024) e a Bola de Ouro de 2024. É o mesmo cenário que Ronaldo Fenômeno viveu em 1996, chegando ao Barcelona sem rede de apoio e enfrentando uma crise de adaptação que antecedeu seus maiores títulos — só que agora a aposta é construir essa rede antes, não depois do colapso.