Diz-se que a melhor preparação para uma Copa do Mundo passa, obrigatoriamente, pelos amistosos pré-torneio. Na verdade, não passa — e a história de 1994 prova isso. Mas há uma diferença fundamental entre não jogar amistosos por escolha estratégica e não jogar por ausência de planejamento. O que Carlo Ancelotti fez em maio no CT da CBF pertence à primeira categoria, ainda que a torcida brasileira, legitimamente ansiosa, não consiga distinguir uma coisa da outra.
O fato concreto é este: o Brasil disputou seu último jogo oficial antes da Copa do Mundo em 26 de março, uma derrota por 2 a 1 para a França em amistoso da Data Fifa. Desde então, nenhuma partida. A estreia contra a Sérvia está marcada para 24 de novembro, e a comissão técnica já sinalizou que não haverá mais jogos até lá — ao contrário de Argentina, Espanha, Alemanha, Inglaterra e Portugal, que programaram amistosos entre 30 de maio e 10 de junho para afinar o time.
O que aconteceu nos treinos fechados de maio
Em maio, Ancelotti reuniu o grupo no CT da CBF durante dez dias de trabalho com portões fechados. A comissão técnica não divulgou escalações nem resultados de jogos-treino, mas fontes ligadas à CBF indicam que o foco esteve em duas frentes: a organização defensiva com linha de quatro — testada em variações com Militão e Léo Pereira — e a movimentação ofensiva com Vinicius Jr. e Rodrygo atuando em lados trocados, algo que Ancelotti já havia experimentado no Real Madrid. A integração do grupo foi o argumento central da comissão técnica para justificar a ausência de amistosos.
Integração do grupo. A frase soa bem, mas exige contexto para ser avaliada com seriedade.
Quando se fala em integração no futebol de seleções, o desafio não é apenas social — é tático. Jogadores que se veem duas ou três vezes por ano precisam de tempo em campo para internalizar movimentos coletivos que, nos clubes, são repetidos diariamente. Os treinos fechados podem construir parte disso, mas não substituem o estresse competitivo de um jogo real, com árbitro, torcida e adversário que reage.
O que as outras seleções estão testando em público
A comparação com os rivais diretos é inevitável — e não favorece a estratégia brasileira em termos de transparência. A Argentina de Lionel Scaloni enfrenta Honduras em 6 de junho, último teste antes da Copa. A Espanha joga contra o Iraque em 4 de junho. A Alemanha mede forças com os Estados Unidos também em 6 de junho. A Inglaterra disputa dois amistosos: contra Nova Zelândia (6 de junho) e Costa Rica (10 de junho). Portugal enfrenta Chile (6 de junho) e Nigéria (10 de junho).

Esses jogos servem para algo muito específico: testar a resposta física e tática dos titulares após uma temporada europeia longa, identificar quem chegou em melhor forma e dar minutagem a atletas que podem ser decisivos como substitutos. No caso da Espanha, Lamine Yamal e Pedri precisam de ritmo de jogo após uma temporada 2025/2026 desgastante no Barcelona. No caso da Alemanha, Florian Wirtz acumula mais de 50 jogos na temporada pelo Bayer Leverkusen — e um amistoso serve para calibrar o volume de carga antes do torneio.
O Brasil abre mão de tudo isso. A aposta é que o grupo convocado por Ancelotti já chegará entrosado pelo trabalho nos clubes e que os treinos de maio foram suficientes para estabelecer os automatismos necessários.

A lógica por trás da estratégia e seus riscos reais
Há uma cena em Moneyball, o filme de 2011 sobre Billy Beane e os Oakland Athletics, em que o gerente-geral diz que a única coisa que importa é o que acontece no campo, não o que os especialistas acham que vai acontecer. Ancelotti pensa de forma parecida: para ele, o risco de lesão em um amistoso supera o benefício de ajuste tático. Com Vinicius Jr., Rodrygo, Raphinha e outros atletas chegando ao fim de temporadas europeias intensas, o raciocínio tem lógica do ponto de vista físico.
Mas os riscos da ausência de amistosos são concretos. O primeiro é o ritmo competitivo: a estreia contra a Sérvia, em 24 de novembro, será o primeiro jogo oficial do Brasil desde 26 de março — oito meses sem partida de verdade. O segundo risco é a falta de informação pública sobre o estado de forma dos atletas, o que dificulta até mesmo a análise da imprensa e a expectativa calibrada da torcida. O terceiro risco, menos óbvio mas igualmente relevante, é o de que eventuais problemas táticos — que um amistoso poderia revelar e corrigir — só apareçam na fase de grupos, quando o custo de um tropeço é alto.
Em matéria do SportNavo publicada em maio, o levantamento sobre o calendário da Data Fifa mostrou que, das 42 seleções classificadas para o Mundial, apenas o Brasil e a França optaram por não fazer amistosos após março. A diferença é que a França tem um grupo consolidado sob Didier Deschamps, com Mbappé, Griezmann e Camavinga rodando juntos há anos. O Brasil de Ancelotti ainda está construindo identidade coletiva.
O que a torcida brasileira tem direito de cobrar
A preocupação de parte da torcida não é irracional — é proporcional à falta de informação. Treinos fechados são legítimos como ferramenta de preparação, mas criam um vácuo de transparência que alimenta especulação. Sem jogos para avaliar, sem escalações divulgadas, sem coletivas detalhadas sobre o que foi testado em maio, o torcedor brasileiro chega à Copa do Mundo operando no escuro.
Ancelotti tem credencial técnica para defender essa escolha — seis títulos da Champions League como treinador falam por si. Mas credencial não é garantia. A estratégia de integração fechada funcionou para ele no Real Madrid porque tinha 365 dias por ano para trabalhar o grupo. Com a seleção, o tempo é outro. A estreia contra a Sérvia, em 24 de novembro, será a primeira resposta concreta a tudo que foi construído nos treinos de portões fechados — e, nesse ponto, não há mais margem para ajustes.












