Se Raphinha não tivesse saído mancando do confronto contra o Haiti, no dia 19 de junho, a maioria dos torcedores brasileiros provavelmente ainda estaria discutindo se Rayan merecia uma chance na Copa do Mundo. A lesão muscular na parte posterior da coxa direita do camisa 11 do Barcelona resolveu o debate antes que ele começasse — e o garoto de 19 anos respondeu com uma atuação que calou os céticos. Agora, com o Brasil se preparando para enfrentar o Japão na próxima segunda-feira (29), às 14h (horário de Brasília), pela primeira rodada do mata-mata, Ancelotti sinaliza que vai repetir exatamente o time que goleou a Escócia por 3 a 0.

Um precedente que o Brasil conhece bem

A história de um jovem que entra por necessidade e fica por mérito não é nova no futebol brasileiro. Em 2002, quando Ronaldo Fenômeno retornou ao grupo após meses afastado por problemas físicos, ninguém apostava que ele seria artilheiro da Copa. O ponto de comparação aqui não é o nível — Rayan ainda está longe do olimpo — mas a lógica: a lesão de um titular abre uma janela que, se aproveitada, fecha com a trava por dentro. Raphinha, que acumula uma temporada marcada por ausências em jogos decisivos, permanece em Morristown, no estado de Nova Jersey, realizando tratamento intensivo sob supervisão do departamento médico da CBF. A confederação trabalha com a expectativa de que ele possa retornar caso o Brasil avance às próximas fases, mas não há previsão concreta de retorno.

O que diferencia o caso de Rayan de outros substitutos eventuais é a consistência demonstrada no pouco tempo que teve. Segundo a comissão técnica de Ancelotti, o atacante agradou tanto pela participação ofensiva quanto pela recomposição defensiva — um detalhe que pesa muito no modelo de jogo do italiano, que exige que os pontas participem ativamente da pressão quando o time perde a bola.

A trajetória de base que poucos acompanharam

Rayan chegou à Copa do Mundo 2026 com apenas 19 anos e uma trajetória de base construída com consistência rara para sua geração. Revelado nas categorias inferiores, o atacante percorreu o caminho sub-17 e sub-20 com números que chamaram atenção de olheiros europeus antes mesmo de se profissionalizar. Jogadores nessa faixa etária raramente chegam a uma Copa do Mundo como opção real de escalação — geralmente integram o grupo como experiência de formação, ficando restritos a aparições pontuais.

"Quando um jovem entra numa Copa do Mundo e a comissão técnica começa a preservá-lo nos treinos ao lado de Vini Jr. e Douglas Santos, o recado está dado — ele deixou de ser promessa e virou peça", avaliou um coordenador técnico de futebol de base ouvido pela reportagem.

O sinal mais concreto do novo status de Rayan veio justamente no treino de sexta-feira (26). Enquanto oito dos 11 titulares foram preservados das atividades com bola — Alisson, Danilo, Marquinhos, Gabriel Magalhães, Casemiro, Bruno Guimarães, Lucas Paquetá e Matheus Cunha —, apenas Vini Jr., Douglas Santos e o próprio Rayan trabalharam normalmente com o restante do elenco. Três titulares garantidos treinando quando os outros descansam: a hierarquia estava ali, visível para quem quis enxergar.

O treino de sábado e a escalação que Ancelotti confirmou sem palavras

Na manhã deste sábado (27), pela primeira vez desde a classificação ao mata-mata, Ancelotti teve praticamente todo o elenco à disposição desde o início das atividades — a única ausência foi Raphinha, que segue em tratamento. Casemiro foi o primeiro a aparecer no gramado, e a atividade incluiu conversas individuais do técnico italiano com jogadores, entre elas uma conversa reservada com Vinícius Júnior logo no início da sessão. Neymar, que se recuperou de uma lesão anterior e esteve presente no banco contra Marrocos, apareceu sorridente e brincou com Bruno Guimarães antes das atividades coletivas.

A imprensa acompanhou apenas os 15 minutos iniciais do treino, sem entrevistas — a delegação embarcou para Houston ainda neste sábado, às 15h (horário de Brasília). O último treino antes do jogo acontece neste domingo (28), no centro de treinamentos do Houston Dynamo. A provável escalação confirmada pelos movimentos do grupo tem Alisson; Danilo, Marquinhos, Gabriel Magalhães e Douglas Santos; Casemiro, Bruno Guimarães e Lucas Paquetá; Rayan, Matheus Cunha e Vini Jr.

O que Rayan precisa mostrar contra o Japão para consolidar a vaga

O Brasil chega ao mata-mata invicto na fase de grupos: empatou com Marrocos na estreia e depois goleou Haiti e Escócia por 3 a 0 em cada jogo, liderando o Grupo C. Rayan entrou nesse ciclo como alternativa emergencial e terminou como titular confirmado. A pergunta agora é se ele consegue manter o nível quando o peso do jogo aumenta — e o Japão, com seu estilo compacto e transições rápidas, vai exigir exatamente o tipo de recomposição defensiva que o jovem atacante demonstrou saber fazer.

O precedente histórico indica que jogadores nessa posição — jovens que assumem vagas de titulares lesionados em Copas — raramente perdem o lugar de uma rodada para outra quando entregam desempenho coletivo. A diferença entre virar protagonista ou voltar ao banco costuma ser determinada pelo jogo seguinte, não pelo anterior. Segundo o apurado em matéria do SportNavo, a comissão técnica de Ancelotti não vê motivos para mexer na equipe que funcionou, e Raphinha, sem previsão de retorno, não vai disputar essa posição no curto prazo.

O jogo contra o Japão acontece na segunda-feira (29), às 14h (horário de Brasília), com transmissão pela Globo, SporTV, SBT, Nsports, CazéTV e getv. Para quem quer entender se Rayan tem fôlego para ir além dessa fase, vale gravar o jogo e assistir especificamente ao comportamento dele quando o Brasil está sem a bola — é aí que Ancelotti está testando seus limites.