A sala de audiências do Senado americano, em Washington, não é exatamente um palco esportivo. Mas foi lá, na manhã desta terça-feira, 2 de junho de 2026, que o secretário de Estado Marco Rubio proferiu uma frase que vai muito além do protocolo diplomático: os Estados Unidos não permitirão que iranianos vinculados à Guarda Revolucionária Islâmica integrem a delegação do Copa do Mundo. O nome do Irã só veio depois — mas o alvo estava claro desde a primeira palavra.

"Os EUA não permitirão que iranianos ligados à Guarda Revolucionária se incorporem à delegação do país para participar da Copa do Mundo", declarou Rubio aos parlamentares.

A Guarda Revolucionária Islâmica — conhecida pela sigla IRGC — é classificada pelos Estados Unidos como organização terrorista desde 2019, por designação do governo Trump. Qualquer cidadão iraniano com vínculos documentados ou suspeitos com a instituição pode ter o visto de entrada negado, independentemente do contexto em que viaja. Futebol, nesse enquadramento legal, não é circunstância atenuante.

O histórico que explica por que isso não é novidade

Quem acompanha as Copas do Mundo desde os anos 1970 sabe que política e futebol raramente ficam em quartos separados. Em 1978, a Argentina sediou o torneio sob uma junta militar que usou o título conquistado no Monumental de Núñez — 3 a 1 sobre a Holanda na final — como instrumento de propaganda. Em 1980, os EUA lideraram o boicote aos Jogos Olímpicos de Moscou após a invasão soviética do Afeganistão, e a URSS retribuiu em Los Angeles 1984. Copas, por serem realizadas em país único, concentram ainda mais essa tensão.

O Irã participou de cinco edições do Mundial: 1978, 1998, 2006, 2014 e 2022. Na edição de 1998, na França, o confronto entre Irã e Estados Unidos no Grupo F terminou com vitória iraniana por 2 a 1 — um dos jogos mais carregados politicamente da história da competição. Os atletas iranianos entregaram flores aos americanos antes do apito inicial, num gesto que tentava separar o esporte da geopolítica. Vinte e oito anos depois, os dois países voltam a dividir o mesmo grupo: o Grupo F da Copa do Mundo 2026.

A coincidência de grupos não é irrelevante. Significa que Irã e EUA podem se enfrentar em campo enquanto o governo americano delibera sobre quem da delegação adversária tem permissão de pisar em solo nacional. Não há tragédia nisso — há contabilidade: cada visto negado é um funcionário, um dirigente ou um membro de comissão técnica a menos na estrutura operacional iraniana.

O que a medida de Rubio pode afetar na prática

Uma delegação de Copa do Mundo é muito maior do que os 26 jogadores convocados. Ela inclui dirigentes da federação, membros da comissão técnica, seguranças particulares, assessores de imprensa, médicos e funcionários administrativos. No caso iraniano, a questão que se coloca é: quantos desses profissionais têm vínculos — diretos ou indiretos — com a IRGC, que permeia diversas estruturas institucionais do país?

A Federação Iraniana de Futebol (FFIRI) já havia enfrentado pressão internacional na Copa do Mundo de 2022, no Catar, quando jogadores foram filmados sem cantar o hino nacional em protesto ao regime, em meio às manifestações que sacudiam o país após a morte de Mahsa Amini, em setembro daquele ano. O técnico Carlos Queiroz comandou a equipe naquela edição, com o Irã eliminado na fase de grupos após derrota por 1 a 0 para os Estados Unidos — resultado que, naquele contexto, ganhou dimensões que ultrapassavam em muito os três pontos em jogo.

Agora, em 2026, a situação é estruturalmente diferente. O torneio acontece em território americano — com jogos distribuídos entre EUA, Canadá e México — e a soberania sobre concessão de vistos pertence ao governo anfitrião. A FIFA, em seus acordos de sede, costuma exigir garantias de livre acesso para todas as delegações, mas a classificação da IRGC como organização terrorista cria um conflito jurídico que a entidade suíça dificilmente conseguirá resolver por decreto esportivo.

O histórico que explica por que isso não é novidade Como Rubio pode barrar irani
O histórico que explica por que isso não é novidade Como Rubio pode barrar irani

O Grupo F e o que vem pela frente para o Irã

O Irã foi sorteado no Grupo F ao lado dos Estados Unidos, o que torna o cenário ainda mais intrincado do ponto de vista logístico e diplomático. A delegação iraniana precisará organizar sua base de treinamentos, deslocamentos e hospedagem em um país cujo governo monitora ativamente sua composição. Qualquer membro que tenha passagem pela IRGC — mesmo em funções administrativas ou de segurança, comuns em instituições iranianas — corre risco real de ter o visto bloqueado.

A FIFA já foi comunicada da posição americana, segundo fontes diplomáticas. A entidade tem até o início do torneio para negociar algum tipo de protocolo com Washington — mas o histórico recente não é animador: em 2022, a FIFA suspendeu o Irã temporariamente por interferência governamental na federação, decisão revertida semanas depois. A organização suíça opera com instrumentos esportivos em um conflito que é, fundamentalmente, de natureza política e jurídica.

Para a seleção iraniana em campo, o impacto mais direto seria a ausência de membros da comissão técnica ou da diretoria que normalmente coordenam operações logísticas durante o torneio. Jogadores com passaporte europeu — alguns atletas iranianos atuam em ligas da Alemanha, Holanda e Portugal — tendem a ter situação menos complicada. O problema concentra-se nos funcionários que viajam com passaporte iraniano e histórico institucional vinculado ao Estado.

A estreia do Irã no Grupo F está programada para a segunda semana de junho, em partida que, dependendo dos desdobramentos diplomáticos das próximas semanas, pode ser precedida de uma crise de credenciamento sem paralelo na história recente das Copas — analisada em matéria do SportNavo com base nas declarações oficiais de Rubio ao Congresso americano nesta terça-feira.

O Irã tem delegação, tem convocação e tem adversários definidos — falta saber quem, do lado de fora do gramado, conseguirá cruzar a fronteira.