O apartamento parecia uma empresa de verdade. Havia recepção, formulários, um ambiente decorado para transmitir credibilidade. Jovens entre 16 e 24 anos entravam acreditando que seriam modelos. Só depois descobriam que o destino era uma mansão cercada de seguranças, onde Saul Klein, empresário de 68 anos e filho do fundador das Casas Bahia, esperava por elas. A Polícia Civil de São Paulo indiciou Klein nesta quinta-feira (28) por organização criminosa, tráfico de pessoas, redução à condição análoga à escravidão, estupro, estupro de vulnerável, manutenção de casa de prostituição e favorecimento à exploração sexual de adolescentes.

A arquitetura do aliciamento

O esquema descrito pelas 14 vítimas que aceitaram testemunhar no inquérito seguia uma lógica industrial. Mulheres eram abordadas na rua ou por redes sociais e encaminhadas a um apartamento preparado para simular uma agência de modelos. O perfil buscado era sempre o mesmo: muito jovens, altas, magras e, em sua maioria, de baixo poder aquisitivo — vulnerabilidade que facilitava o aliciamento. Motoristas transportavam as jovens até o local dos eventos. Médicos — ginecologistas, segundo o Ministério Público do Trabalho — atendiam o grupo durante as festas, o que, na prática, institucionalizava a exploração dentro de uma estrutura com aparência de cuidado.

Antes de chegar à mansão, algumas vítimas eram instruídas a decorar um roteiro de identidade falsa. Uma delas relatou ao Fantástico que deveria dizer que sua mãe era dona de uma empresa de roupas e que seu pai era empresário. Outra contou que tinha de adotar uma persona específica — alguém que dançava balé, por exemplo. A lógica era criar um personagem que agradasse Klein, transformando a vítima em um produto customizado antes mesmo de ela cruzar o portão da propriedade.

O que acontecia dentro da mansão

Os depoimentos descrevem uma atmosfera de controle total.

"A gente tinha que falar com voz fina, vozinha de criança. Tinha menina que tinha que andar de boneca pela casa. As novatas ficavam bem chocadas, não podiam ir embora, a casa era cercada de seguranças e muros."
O relato, dado por uma das vítimas ao Fantástico em 2020, ilustra o nível de coerção psicológica documentado pela investigação. As mulheres permaneciam por dias no local, sem liberdade de sair, submetidas a relações sexuais forçadas sob vigilância armada. O Ministério Público do Trabalho, ao concluir sua própria investigação, registrou que as vítimas também foram contaminadas por doenças sexualmente transmissíveis — fato atestado pelos próprios médicos que as atendiam durante os eventos.

Em julho de 2023, a Justiça do Trabalho condenou Klein ao pagamento de R$ 30 milhões por tráfico de pessoas para fins de trabalho escravo sexual — a maior condenação do país nessa categoria e a segunda maior por dano moral coletivo em casos de trabalho escravo. A sentença foi obtida pelo Ministério Público do Trabalho após ação movida pelos procuradores Gustavo Accioly, Tatiana Leal Bivar Simonetti e Christiane Vieira Nogueira.

O indiciamento e os próximos passos legais

O inquérito tramitou por mais de 15 meses sob responsabilidade da delegada Priscila Camargo, que destacou em seu relatório que ainda há um "rol extenso de pessoas a serem indiciadas". Outras nove pessoas suspeitas de envolvimento foram indiciadas junto com Klein. O caso agora segue para análise do Ministério Público, que decidirá se oferece denúncia formal — passo que tornaria o processo uma ação penal com julgamento pelo Judiciário. Klein já foi tornado réu pela 2ª Vara Criminal de Barueri em ação que tramita em segredo de Justiça.

A defesa de Klein, representada pelo advogado André Boiani e Azevedo, sustenta que as relações eram consensuais.

"Saul e sua defesa técnica respeitam o posicionamento da Polícia Civil, mas entendem que a análise atenta e isenta dos elementos do inquérito levará o Ministério Público e o Judiciário a concluírem por sua inocência."
Do outro lado, a advogada Priscila Pamela dos Santos, que representa as 14 vítimas ao lado de Maíra Recchia, afirmou que o indiciamento "traz a devida confiabilidade à palavra das vítimas, uníssonas a respeito dos crimes a que foram submetidas". As advogadas alertam que o número real de vítimas pode ser muito maior — muitas mulheres, segundo elas, estariam tão fragilizadas que sequer conseguiriam sustentar um processo.

A dimensão do esquema e o que ainda pode surgir

O caso foi tema do documentário Saul Klein e o Império do Abuso, produzido por Universa e MOV.doc, cujo conteúdo chegou a ser citado diretamente no documento policial da delegada Camargo — sinal de que a investigação absorveu material jornalístico como evidência complementar. O SportNavo acompanhou a evolução do caso desde as primeiras denúncias públicas em 2020 e registra que, em cinco anos, o processo avançou da fase de reportagem televisiva para indiciamento criminal com pedido de prisão preventiva — uma trajetória que expõe tanto a persistência das vítimas quanto a lentidão estrutural do sistema.

Com o inquérito agora nas mãos do Ministério Público de São Paulo, a pergunta que define os próximos capítulos deste processo é objetiva e urgente: quantas das outras pessoas citadas pela delegada como parte do "rol extenso" ainda sem indiciamento serão formalmente acusadas antes que a denúncia seja apresentada ao Judiciário?