O gramado do MetLife Stadium, em East Rutherford, ainda estava sendo preparado quando a memória de 31 de maio de 2002 começou a circular nos corredores da imprensa senegalesa. Naquele dia, em Seul, Papá Bouba Diop ergueu a camisa e fez o mundo parar. A França de Zidane e Thierry Henry, campeã mundial há quatro anos, saiu de campo com a cabeça baixa depois de um 1 a 0 que ninguém esperava. Hoje, 16 de junho de 2026, às 16h (horário de Brasília), a história quer se repetir — e Senegal tem argumentos para tanto.
O que 2002 deixou como legado nos Leões de Teranga
Aquela geração de 2002 não era apenas talentosa. Era coesa, raivosa e tinha fome de provar algo ao mundo. El-Hadji Diouf irritava os adversários, Diop cabeceava tudo que aparecia, e o técnico Bruno Metsu havia montado uma equipe que defendia em bloco e atacava em transição rápida. O resultado foi uma campanha que chegou até as quartas de final, eliminando a Suécia nas oitavas. A França, por sua vez, foi eliminada na fase de grupos sem marcar um único gol — empate de 0 a 0 com o Uruguai e derrota de 2 a 0 para a Dinamarca completaram o vexame.
Quando faz comparações entre aquela seleção e a atual, o que salta aos olhos é a profundidade do elenco. Quando faz a mesma análise pelo lado técnico, a diferença é ainda mais favorável ao Senegal de 2026. O goleiro Édouard Mendy, que passou pelo Chelsea e hoje defende o Al-Hilal, representa uma segurança que Diop Sylva não tinha. Na frente, Sadio Mané, lenda do Liverpool e hoje no Al-Nassr, acumula experiência em Copas do Mundo, finais de Champions League e uma Copa Africana de Nações conquistada em 2021. Ao lado dele, Nicolas Jackson, que defende o Bayern de Munique na temporada 2025/2026, representa a nova geração — explosiva, técnica e com faro de gol.
O técnico Pape Thiaw herdou um grupo que, apesar das turbulências recentes, chega a Nova Jersey com moral. Os senegaleses foram os melhores do continente africano na Copa das Nações de 2025, derrotando Marrocos por 1 a 0 na final. O título, porém, foi entregue aos marroquinos após uma polêmica: Senegal abandonou o campo por conta de um pênalti controverso nos acréscimos. Mendy chegou a defender a cobrança de Brahim Díaz, Pape Gueye marcou na prorrogação, mas a CAF decidiu conceder a taça ao Marrocos. O caso ainda corre no Tribunal Arbitral do Esporte. Essa bronca, nas palavras do ambiente senegalês, virou combustível.
"Senegal defende bem e joga futebol capaz em todas as fases. Mané ainda é a liderança espiritual e emocional desse grupo", avaliou a análise do portal Last Word on Sports antes da partida.
A França favorita mas com cicatrizes recentes
Do outro lado do campo, Didier Deschamps chega ao quarto Mundial consecutivo no comando da seleção francesa, e anunciou que esta será sua última Copa — ele cede o posto a Zinedine Zidane ao final do torneio. A pressão por uma despedida gloriosa é enorme. A Copa do Mundo de 2018 foi conquistada com uma geração mais jovem; a de 2022 terminou com a derrota nos pênaltis para a Argentina na final do Catar. Agora, com 14 vitórias no Mundial e a chance de superar o recorde de 16 do alemão Helmut Schon, Deschamps sabe que cada tropeço tem peso histórico.
O elenco francês é, provavelmente, o mais talentoso do torneio. Kylian Mbappé, aos 27 anos, tem 12 gols em Copas do Mundo e persegue o recorde de 16 de Miroslav Klose. Ao redor dele, Michael Olise — que marcou hat-trick no amistoso contra a Irlanda do Norte em 8 de junho — Ousmane Dembélé, Désiré Doué e Rayan Cherki formam um ataque que é inveja de qualquer seleção do planeta. A escalação provável aponta para: Maignan; Koundé, Saliba, Upamecano, T. Hernandez; Tchouameni, Rabiot; Olise, Dembélé, Doué; Mbappé.
Os alertas, porém, existem. A derrota de 2 a 1 para a Costa do Marfim em 4 de junho gerou ruído. O meio-campo, com Rabiot e Tchouameni, pode ser explorado por uma equipe que pressione bem a saída de bola — e Senegal tem exatamente esse perfil. A última vez que a França estreou contra o Senegal numa Copa, saiu derrotada e nunca se recuperou.
"France têm os talentos ofensivos, mas podem ser vulneráveis na defesa. Senegal não deve ser subestimado e tem condições de balançar a rede", apontou análise do Racing Post antes do confronto no MetLife Stadium.
Mané, Jackson e a pressão sobre Mbappé no MetLife
O calor de Nova Jersey em junho é úmido e pesado — diferente do seco de Seul em 2002, mas igualmente capaz de drenar energias no segundo tempo. Senegal entra em campo com uma escalação que deve ter Mendy no gol, Koulibaly na zaga e Mané como referência ofensiva. Jackson, pela velocidade e capacidade de pressionar a linha defensiva francesa, pode ser o elemento surpresa que Pape Thiaw guarda para explorar os espaços que Upamecano e Saliba deixam quando a França sobe para atacar.
Os senegaleses chegaram ao jogo com resultados mistos na preparação: derrota para os Estados Unidos e empate com a Arábia Saudita nos amistosos. Mas a Copa é diferente. Em 2002, Senegal também não era favorito — e isso é exatamente o ponto que a torcida dos Leões de Teranga repete como mantra desde que o sorteio colocou os dois países no Grupo I, junto de Noruega e Iraque.
A França, por sua vez, passou pela fase de qualificação europeia com apenas dois pontos perdidos em seis jogos, o que reforça o status de favorita. Mbappé tem ainda a chance de se tornar o jogador com mais participações em finais de Copa do Mundo, igualando os três de Cafu, e de marcar seu segundo hat-trick na competição, empatando com Gabriel Batistuta. O histórico joga a favor dos franceses — mas o MetLife Stadium está prestes a receber um confronto que, em 2002, já provou que história não é garantia de resultado.
O que esperar desta estreia no Grupo I
O Grupo I, batizado por alguns analistas como o mais equilibrado do torneio, tem Noruega de Erling Haaland como terceira força real. Isso significa que uma derrota na estreia pode ser fatal para qualquer das duas seleções. A França sabe disso. Senegal também.
Nas projeções de analistas consultados antes do jogo, o cenário mais provável é um duelo truncado no primeiro tempo, com a França abrindo espaço no segundo — mas com Senegal capaz de responder. A linha defensiva francesa mostrou rachaduras recentes, e Mané, mesmo aos 34 anos, ainda tem a capacidade de criar situações de perigo com seu drible curto e visão de jogo. Jackson, pelo corredor direito, pode ser a parede de ferro que a França vai precisar contornar para manter a vantagem caso abra o placar.
O jogo acontece nesta terça-feira, 16 de junho, às 16h (horário de Brasília), no MetLife Stadium, em East Rutherford, Nova Jersey. A transmissão fica por conta de TV Globo e SBT na TV aberta, Sportv na TV fechada e CazeTV no YouTube. Quem avançar em melhor posição no Grupo I enfrenta, nas oitavas de final, o segundo colocado do Grupo J — que inclui Brasil, Alemanha, Japão e Bélgica. O peso da estreia nunca foi tão alto para os dois lados.










