O ônibus já havia partido para o aeroporto. A delegação da Suíça seguia para os Estados Unidos, e um dos seus atacantes titulares ficou para trás — não por lesão, não por suspensão, mas por um formulário eletrônico que não saiu do status de "análise mais detalhada". Breel Embolo, 29 anos, nascido em Camarões e naturalizado suíço, não embarcou nesta terça-feira, 3 de junho, com o restante da seleção para a Copa do Mundo de 2026 porque o seu ESTA — Sistema Eletrônico para Autorização de Viagem — não foi aprovado a tempo.

A Associação Suíça de Futebol confirmou que a notificação da "análise mais detalhada" chegou na manhã do embarque. O impasse tem origem documentada: em 2018, em Basileia, Embolo foi multado por proferir múltiplas ameaças. A condenação veio cinco anos depois, em 2023, com sentença de nove meses. Esse histórico judicial é exatamente o tipo de registro que aciona alertas automáticos no sistema americano de autorização de viagem.

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O que é o ESTA e por que ele pode travar um atleta de alto nível

O ESTA não é um visto. É uma autorização eletrônica exigida pelo Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos para cidadãos de países participantes do Visa Waiver Program — o programa de isenção de visto, que inclui nações como Suíça, França, Alemanha, Espanha, Portugal, Japão e Austrália, entre outros. A solicitação é feita online, custa US$ 21 e, na maioria dos casos, é aprovada em minutos. O problema aparece quando o sistema identifica registros que merecem verificação adicional — e aí o prazo pode se estender por horas ou dias.

O formulário do ESTA contém uma seção específica sobre antecedentes criminais, incluindo condenações, multas por infrações que envolvam violência ou ameaça, e até prisões sem condenação. Embolo se enquadra nesse filtro por conta da sentença de 2023 referente ao episódio de 2018. A federação suíça trabalha para regularizar a situação e espera que o atacante consiga embarcar ainda nesta quarta-feira, 4 de junho, para se reintegrar ao grupo antes da estreia no dia 13 de junho contra o Catar, em jogo válido pelo Grupo B.

"Considerando a importância do amistoso da seleção iraniana de futebol contra o Mali, e em consonância com os objetivos táticos do técnico da seleção iraniana, a partida contra o Mali será realizada com portões fechados e sem a presença da imprensa", escreveu a Federação Iraniana de Futebol (FFIRI) em nota.

A nota iraniana, embora trate de outro assunto, ilustra como diferentes federações estão gerenciando pressões externas — burocráticas, políticas ou táticas — nos dias que antecedem o torneio. O Irã, por exemplo, mudou sua base de treinamento do Arizona para Tijuana, no México, justamente por questões de visto e tensões políticas com Washington. A seleção iraniana disputará seu último amistoso preparatório nesta quinta-feira, 4 de junho, contra Mali, em Antalya, na Turquia, antes de seguir para o México.

Quais seleções correm risco semelhante ao da Suíça

O caso de Embolo não é um acidente isolado — é um sinal de alerta para federações de países do Visa Waiver Program que ainda não concluíram a triagem burocrática de seus atletas. Seleções europeias como França, Alemanha, Bélgica, Espanha e Portugal enviam jogadores que, em tese, não precisam de visto americano, mas precisam do ESTA aprovado. Qualquer antecedente criminal — mesmo uma multa transformada em condenação anos depois — pode acionar a revisão manual do sistema.

O que é o ESTA e por que ele pode travar um atleta de alto nível Como um anteced
O que é o ESTA e por que ele pode travar um atleta de alto nível Como um anteced

A Bélgica, por exemplo, chega à Copa com Romelu Lukaku como referência ofensiva. O atacante do Napoli marcou seu terceiro gol na temporada 2025/26 na vitória sobre a Croácia nesta semana — um número que reflete uma temporada marcada por lesões no futebol italiano. Lukaku nasceu na Bélgica, mas seus pais são congoleses, e o Congo não faz parte do Visa Waiver Program. Neste caso específico, o jogador precisaria de visto convencional, não de ESTA — o que, paradoxalmente, torna o processo mais previsível e controlável pela federação, já que vistos são solicitados com antecedência maior.

O risco real está em atletas com dupla nacionalidade ou com histórico judicial em países do programa de isenção. Um jogador francês com condenação por infração de trânsito com violência, um alemão com registro de briga em boate, um suíço com ameaça documentada — todos esses perfis podem ter o ESTA retido. Seria exagero chamar isso de crise diplomática — mas para uma federação que embarca às 6h da manhã e descobre às 5h30 que um atleta está impedido, é uma crise em escala totalmente real.

O que as federações podem fazer para evitar o problema

A resposta mais direta é a triagem antecipada. Federações com recursos e estrutura jurídica adequada deveriam ter solicitado o ESTA de todos os convocados com pelo menos 30 dias de antecedência — tempo suficiente para identificar casos de revisão manual e acionar advogados especializados em direito de imigração americano antes do embarque.

A Associação Suíça de Futebol afirmou estar em contato permanente com as autoridades responsáveis para garantir que Embolo seja reintegrado ao grupo até quarta-feira. O atacante, que soma 86 partidas e 24 gols pela seleção principal, disputa seu terceiro Mundial consecutivo — e não deve ser cortado da lista definitiva enquanto houver expectativa de regularização. O prazo é apertado: a estreia suíça acontece em 13 de junho, em jogo contra o Catar.

No cenário mais amplo da Copa, a situação de Embolo se soma a outras variáveis que estão testando a capacidade de gestão das federações. Giorgian De Arrascaeta, do Uruguai, foi diagnosticado com lesão muscular na panturrilha após exames realizados na noite de terça-feira, 2 de junho — problema semelhante ao de Neymar, que também ainda não voltou a trabalhar com bola e está descartado do amistoso do Brasil contra o Egito neste sábado, 6 de junho, em Cleveland. Christian Pulisic, camisa 10 dos Estados Unidos e figura central da campanha americana, admitiu em entrevista que a pressão de ser o "Capitão América" é real — mas que filtra "cerca de 99%" das críticas externas. O capitão oficial da USMNT para o torneio, nomeado pelo técnico Mauricio Pochettino, é o zagueiro Tim Ream, 38 anos, com 80 jogos pela seleção.

Enquanto as delegações resolvem seus impasses — burocráticos, físicos ou emocionais —, a Copa do Mundo começa em 11 de junho. Embolo precisa estar em território americano antes de 13 de junho para ter alguma chance de ser relacionado para a estreia suíça contra o Catar. A federação helvática aguarda uma resposta das autoridades americanas ainda nesta quarta-feira.