Quantas vezes, nos últimos vinte anos, o Brasil precisou imaginar uma Copa do Mundo sem Neymar — e quantas vezes essa imaginação se tornou realidade da pior forma, com o craque saindo de maca ou apontando para a panturrilha? A lesão de grau 2 confirmada pelo médico Rodrigo Lasmar na quinta-feira, com previsão de afastamento entre duas e três semanas, reacende uma pergunta que a torcida brasileira conhece de cor: o time consegue funcionar sem ele, ou apenas sobrevive?
Não há resposta simples, e Carlo Ancelotti sabe disso melhor do que qualquer um. O técnico italiano chegou à Granja Comary esperando dois amistosos — contra Panamá e Egito — para calibrar justamente os ajustes táticos que a presença de Neymar exigiria. A ideia era utilizá-lo como um centroavante atípico, o jogador mais próximo da área num sistema com dois pontas abertos, com mínima exigência defensiva. Sem poder treinar uma única sessão ao lado do grupo nesses dezesseis dias de preparação, Neymar chegaria à estreia contra Marrocos, no dia 13 de junho, como um estranho ao mecanismo que Ancelotti construiu.
Reparemos no detalhe que torna esse cenário mais delicado do que parece: o problema não é apenas a ausência do jogador, mas o tempo perdido para ensaiar com ele. Num sistema que redistribui funções defensivas conforme quem está em campo, cada hora de treino tem peso específico. E essas horas, agora, serão gastas sem o camisa 10 do Santos.
A narrativa da irreversibilidade e o que ela esconde
A interpretação mais imediata — e a mais difundida nos corredores da Granja Comary — é a de que Neymar é insubstituível e que sua ausência condena o Brasil a jogar um futebol menor. Há fundamento histórico nessa leitura: nas Copas de 2014 e 2018, o selecionado mostrou dependência aguda do camisa 10. Em 2014, a semifinal contra a Alemanha, com Neymar fora por lesão, terminou em 7 a 1 — o pior resultado da história da Seleção em Copas do Mundo. Em 2018, com ele em campo mas longe do ápice físico, o Brasil caiu diante da Bélgica nas quartas de final por 2 a 1, com atuação apagada do atacante.
"Com sua capacidade de atrair todas as atenções para si, o camisa 10 do Santos virou o grande assunto — às vezes, o único assunto — no que deveria ser a preparação de 26 jogadores e comissão técnica para uma Copa do Mundo", registrou análise publicada pelo SportNavo nos primeiros dias de concentração.
Mas existe uma contra-leitura que merece espaço. A Seleção que Ancelotti montou ao longo de 2025 e início de 2026 não foi construída em torno de Neymar — ao contrário, foi erguida apesar da incerteza sobre ele. Raphinha, capitão do Barcelona nesta temporada europeia, assumiu a liderança técnica do grupo em momentos em que Neymar estava ausente. Matheus Cunha, revelação do Atletico de Madrid, consolidou-se como o atacante de maior comprometimento defensivo no sistema de Ancelotti, recompondo pelo lado esquerdo com consistência que poucos esperavam de um jogador do seu perfil ofensivo.
O que muda para Vinicius quando Neymar não está
Veja-se isto: a lógica de funcionamento do Brasil com Neymar em campo exigia que Endrick e Vinicius Júnior absorvessem mais trabalho sem a bola, compensando a menor recomposição do camisa 10. Vini, que hoje é o atacante com menos obrigações defensivas no esquema de Ancelotti, passaria a ser o responsável por um esforço maior na marcação — o que reduziria sua disponibilidade como primeiro gatilho nos contra-ataques, exatamente a situação em que o atacante do Real Madrid é mais devastador.
Sem Neymar, esse mecanismo se desfaz — e Vini recupera sua função original. Cunha mantém a recomposição pela esquerda. Raphinha, pela direita, continua como o jogador de maior volume de jogo no terço final. O Brasil perde o elemento de imprevisibilidade que só Neymar oferece na área, mas ganha coerência num sistema que já tem quase um ano de repetição.
"Não se trata apenas de colocar Neymar em campo, como aconteceu em outros momentos da carreira na seleção. Hoje, o Brasil pensa um funcionamento diferente para encaixá-lo na equipe. E isso exige treino, repetição e entendimento coletivo", apontou a análise técnica da comissão de Ancelotti vazada aos jornalistas credenciados na Granja Comary.
Endrick, aos 19 anos, aparece como a opção mais aguardada para os minutos finais contra o Panamá — possivelmente pela direita, num papel de impacto que o jovem atacante do Real Madrid já demonstrou capacidade de cumprir mesmo com pouco tempo de jogo. Em 2025, Endrick marcou 9 gols em 27 partidas pelo clube espanhol, muitos deles saindo do banco.
Ancelotti diante de uma guerra de narrativas que não pediu
A situação de Ancelotti é a mais delicada desde que assumiu a Seleção. O técnico de 66 anos, único treinador com cinco títulos da Champions League e campeão em todas as grandes ligas europeias — Premier League, La Liga, Serie A, Bundesliga e Ligue 1 — é descrito por seus comandados como um gestor de temperatura baixa, alguém que raramente perde o controle da narrativa dentro do vestiário.
Agora, porém, ele enfrenta uma disputa de versões entre CBF, Santos e estafe de Neymar sobre o real estado de saúde do jogador no momento da convocação. O Santos enviou laudo à CBF no dia 18 de maio, horas antes da lista ser divulgada. Fontes da entidade afirmam que Ancelotti convocou Neymar sem conhecer o verdadeiro quadro clínico; o clube santista rebate e diz ter compartilhado todas as informações disponíveis. Enquanto esse ruído persiste, o técnico precisa conduzir 25 outros jogadores sem que o décimo primeiro da lista monopolize o oxigênio da preparação.

A história registra que grandes selecionadores foram medidos justamente nesses momentos de crise pré-torneio. Felipão, em 2002, perdeu Ronaldo para uma convulsão dias antes da Copa e precisou manter o grupo coeso enquanto o país inteiro debatia se o centroavante deveria jogar. O Brasil foi campeão, e Ronaldo marcou oito gols, incluindo os dois da final contra a Alemanha. A comparação não é automática — mas mostra que crises de vestiário, quando gerenciadas com frieza, raramente determinam o resultado de um torneio.
O amistoso contra o Panamá, com expectativa de público próxima a 70 mil torcedores, será o primeiro termômetro real. Ancelotti terá de responder perguntas práticas que até dois dias atrás pareciam secundárias: Alisson, de volta ao Liverpool após período de lesão, está em condições de ser titular? Wesley ou um zagueiro improvisado na lateral-direita? Casemiro, que assume a braçadeira na ausência de Marquinhos, consegue dar ao time a estabilidade que a falta de Neymar vai exigir na parte defensiva? O jogo acontece no sábado, e as respostas chegam com ele.












