Não foi o placar de 6 a 2 que definiu o amistoso de domingo no Maracanã. Foi o primeiro tempo. Durante 45 minutos, a Seleção Brasileira rodou a bola de um lado para o outro contra uma linha de cinco do Panamá — seleção que não tem tradição de marcar pontos contra ninguém — e produziu volume sem ruptura, posse sem perigo, movimentação sem consequência. Aquele primeiro tempo é o mapa do problema que Carlo Ancelotti precisa resolver antes de 13 de junho, quando o Brasil enfrenta o Marrocos em Nova York pela primeira rodada do Grupo C da Copa do Mundo.

O preço invisível de libertar Vinicius Jr

A lógica de Ancelotti está clara no papel: um 4-4-2 clássico e compacto defensivamente, com Vinicius Jr. operando pela esquerda com a mesma liberdade que tem no Real Madrid. O problema é que essa liberdade tem um custo que o placar final não registra. No Bernabéu, quando Vinicius perde a bola, existe um sistema de pressão coletiva treinado há anos que absorve o desequilíbrio. Na Seleção, a conta chega do outro lado do campo sem ninguém para pagá-la.

A solução encontrada pelo técnico italiano foi fazer Vini marcar por dentro, fechando a linha de passe do zagueiro adversário em vez de perseguir o lateral até a bandeirinha de escanteio. É uma sacada inteligente — mantém o atacante engatilhado para o contra-ataque — mas transfere a responsabilidade de cobertura para o meio-campo, que no primeiro tempo estava representado por Casemiro. E Casemiro, excelente nos duelos e na bola longa, não é o jogador que ajusta a pressão posicional em milissegundos quando o bloco defensivo precisa se fechar.

Pense em como um regente de orquestra lida com um solista de gênio: ou você constrói a partitura em torno dele, ou o solista destrói a harmonia do conjunto. Ancelotti ainda está tentando escrever essa partitura com a Copa já na pauta.

A virada de chave que o segundo tempo revelou

A transformação do Brasil na etapa final não foi espontânea. Ancelotti mexeu no meio-campo e a equipe virou outra. A entrada de Fabinho, Danilo e Lucas Paquetá mudou a dinâmica de circulação: diferente de Casemiro, Fabinho faz o time avançar com passes verticais curtos, encontrando espaços por dentro. Com Paquetá e Danilo invertendo posições e pisando na área, o Brasil ganhou a imprevisibilidade que havia faltado por 45 minutos.

Mas o ingrediente decisivo foi a entrada de jogadores com vocação para atacar o espaço nas costas da defesa. Endrick, 19 anos, entrou no segundo tempo e imediatamente mudou o ângulo de ameaça — enquanto Raphinha pedia a bola no pé, o jovem atacante já estava com o corpo virado para o gol antes mesmo do passe do volante. Igor Thiago cumpriu a função de pivô, segurando a bola esticada e dando respiro ao time. O resultado foi a goleada. O problema é que esse segundo time não pode ser o titular na Copa.

Ancelotti tem consciência disso. Os 26 convocados que deixaram o Hotel Hilton nesta segunda-feira (1º) rumo à sede da CBF, na Barra da Tijuca — onde um mural com todos os nomes foi montado especialmente para a ocasião —, representam um grupo em construção, não um time pronto. O embarque para os Estados Unidos estava marcado para as 20h, com o amistoso contra o Egito agendado para sábado (6), último teste antes do Mundial.

O Brasil que Ancelotti precisa encontrar antes de Nova York

Historicamente, o Brasil chegou a Copas com dilemas táticos similares. Em 1982, Telê Santana também tinha um time ofensivamente brilhante — Sócrates, Zico, Falcão, Cerezo — e pagou o preço defensivo na derrota por 3 a 2 para a Itália de Paolo Rossi em Sarriá. Em 2006, Parreira tentou encaixar Ronaldo, Ronaldinho, Adriano e Kaká no mesmo time e produziu um conjunto que nunca encontrou equilíbrio, caindo nas quartas para a França de Zidane por 1 a 0. A história do futebol brasileiro está cheia de talentos que somados não se multiplicaram.

Ancelotti tem até 13 de junho para resolver a equação. O jogo contra o Egito servirá como laboratório — a seleção africana tem características defensivas diferentes do Panamá, com transições mais rápidas, o que vai exigir uma resposta mais precisa do bloco médio brasileiro. Se o primeiro tempo contra o Egito reproduzir o pesadelo tático de domingo, a pressão sobre o italiano vai crescer antes mesmo de a Copa começar.

"Para deixar Vini Jr. solto, com a mesma liberdade e frescor físico que tem no Real Madrid, Ancelotti inverteu a lógica da recomposição. A conta da marcação chega do outro lado. E quem paga esse preço?"

Enquanto isso, fora das quatro linhas, o grupo parece coeso. Endrick aproveitou o dia de folga desta segunda ao lado da esposa Gabriely Miranda, grávida do primeiro filho do casal, em um restaurante na Barra da Tijuca. Neymar, um dos últimos a deixar o hotel da delegação, parou para falar com os torcedores e precisou de segurança para conter a massa que ameaçava derrubar as grades de separação — cenas que mostram a dimensão do que está em jogo para o Brasil neste Mundial.

O Grupo C coloca o Brasil diante de Marrocos (13 de junho, Nova York), Escócia e Haiti. No papel, é um grupo administrável. Na prática, Marrocos provou em 2022 que pode eliminar potências europeias — chegou às semifinais de Qatar eliminando Espanha e Portugal. Ancelotti precisa de um Brasil com equilíbrio tático real antes desse confronto.

O preço invisível de libertar Vinicius Jr Como Vini Jr quebra o 4-4-2 de Ancelot
O preço invisível de libertar Vinicius Jr Como Vini Jr quebra o 4-4-2 de Ancelot

O dilema de Vinicius Jr. não é novo, mas nunca foi tão urgente. O Brasil enfrenta o Egito no sábado (6), às 19h (horário de Brasília), nos Estados Unidos. É o último ensaio antes do palco principal.

Ancelotti tem seis dias para encontrar o encaixe que o Maracanã não viu no primeiro tempo.