Noventa e três votos contra e 60 a favor. Esse foi o placar que derrubou o texto-base da reforma estatutária do Corinthians na noite de quarta-feira (29), no Parque São Jorge. Mas a sessão não terminou sem avanço: em segunda votação, 79 conselheiros aprovaram a continuidade da apreciação dos destaques — e um deles garantiu o direito de voto ao Fiel Torcedor já no pleito desta temporada.
O que foi aprovado e o que ainda precisa mudar
O destaque aprovado estabelece que associados do programa Fiel Torcedor com vínculo ativo nos últimos quatro anos poderão votar na eleição da diretoria sem qualquer cobrança de taxa adicional. A isenção vale até 2026. A partir do pleito de 2030, está prevista a inclusão de uma contribuição equivalente a 1/4 da taxa regular.
As duas alternativas derrotadas eram a manutenção do modelo atual — sem participação do Fiel Torcedor — e a inclusão do voto apenas a partir de 2030, com cobrança imediata da taxa fracionada. A opção aprovada foi, portanto, a de menor custo imediato para o associado e de impacto mais rápido no processo eleitoral.
Apesar da aprovação do destaque, a reforma estatutária como um todo ainda não está concluída. O texto-base segue para a Assembleia de Sócios após a rejeição no Conselho. Os demais itens da proposta foram transferidos para nova reunião marcada para a segunda-feira (4).
A noite de pressão no Parque São Jorge
A tensão começou antes mesmo da primeira votação. Torcidas organizadas se concentraram na sede do clube e lideranças chegaram a se deslocar até a mesa diretora para cobrar explicações ao presidente em exercício do Conselho, Leonardo Pantaleão.
Pantaleão afirmou, durante a sessão, que a reprovação do texto-base inviabilizaria a apreciação dos destaques sugeridos pelo Conselho de Orientação (Cori) — declaração que gerou reação imediata dos presentes e forçou uma consulta adicional sobre a continuidade dos trabalhos.
Houve confronto verbal entre os conselheiros Alexandre Husni e Peterson Ruan, além de discussão acalorada envolvendo Miriam Athiê e Paulo Pedro. O escrutínio chegou a ser suspenso por volta das 21h30 diante do impasse instalado.
A segunda consulta — sobre se os conselheiros aceitariam votar os destaques mesmo com o texto-base rejeitado — terminou com 79 votos favoráveis à continuidade, o que viabilizou a aprovação do item relativo ao Fiel Torcedor.
Democracia corintiana e o peso do voto popular
O programa Fiel Torcedor reúne centenas de milhares de associados pagantes, com mensalidades que variam conforme a categoria. Conforme levantamento do SportNavo, a inclusão desse eleitorado — mesmo restrita aos vínculos dos últimos quatro anos — representa um universo potencialmente superior ao corpo de sócios com direito a voto no modelo atual, historicamente concentrado em cerca de 3 mil a 5 mil associados plenos.
A ampliação do eleitorado tende a diluir o peso político de grupos organizados dentro do Conselho e aumentar a influência da base pagante nas decisões eleitorais. Candidatos que hoje focam campanhas no ambiente de conselheiros terão de investir em mobilização popular, o que altera o custo e a estratégia eleitoral no clube.
Segundo dirigentes favoráveis à medida, a mudança aproxima o Corinthians de um modelo mais participativo, reduzindo a concentração de poder em grupos políticos internos — argumentação repetida ao longo das audiências públicas que discutiram o texto-base.
O texto-base também prevê cláusula que flexibiliza a eventual transformação do Corinthians em Sociedade Anônima do Futebol (SAF). Esse ponto não foi votado na quarta-feira e permanece na pauta da reunião de segunda (4).
Próximos passos até a eleição
A reforma estatutária ainda precisa ser consolidada antes de entrar em vigor. Os itens pendentes serão deliberados na reunião do dia 4. Após isso, o texto revisado segue à Assembleia de Sócios, onde precisará ser ratificado para ter validade legal.
A eleição presidencial do Corinthians está prevista para 2026. Para que o voto do Fiel Torcedor seja operacionalizado no pleito, o clube precisará regulamentar cadastro, prazo de filiação e sistemática de votação — tarefas administrativas que deverão ser detalhadas nos próximos meses. A análise do SportNavo indica que o cronograma é apertado: com a reforma ainda incompleta e itens relevantes pendentes para segunda-feira, o clube tem pouca margem para atrasos sem comprometer a implementação a tempo.








