— Cara, você viu que o Covington se aposentou?
— Aposentou ou fugiu de luta?
— Não, sério. Ele disse que está mais feliz na luta livre.
Essa conversa aconteceu em pelo menos metade dos bares que transmitem MMA no Brasil neste fim de semana. E a resposta, ao contrário do que parece, não é simples. Colby Covington — o lutador que construiu uma carreira inteira sobre provocação, barulho e rivalidades pessoais — comunicou ao UFC no início de maio que estava se aposentando do MMA. O destino: as esteiras da Real America Freestyle, a liga de wrestling que vem atraindo nomes do octógono para competir na modalidade que os formou.
Por que Covington trocou o octógono pelo tatame da luta livre
Covington foi campeão interino dos meio-médios em 2018, disputou o cinturão oficial quatro vezes ao longo da carreira e esteve em pelo menos oito ou nove cards principais do UFC — números que poucos lutadores da história da promoção conseguiram acumular. Aos 37 anos, porém, o americano de Clovis, Califórnia, chegou a um ponto de inflexão depois de sua última luta, em dezembro de 2024 no Amalie Arena, em Tampa, Flórida.
"Tive muito tempo para refletir depois daquela luta: ainda quero fazer isso? Minha cabeça ainda está nesse jogo? Já alcancei tudo. Já lutei pelo cinturão quatro vezes diferentes. Já lutei em sete, oito, nove main events diferentes."
A declaração foi dada a Mike Heck, do MMA Fighting, e resume bem o estado mental de Covington. Mas há uma camada prática por trás da decisão: o UFC proíbe seus atletas contratados de competirem contra outros atletas da promoção fora do octógono. A RAF, que vem montando cards com lutadores do MMA, esbarrava exatamente nessa restrição quando o assunto era montar os duelos mais atrativos para Covington.
"O que eu precisei fazer para abrir todos esses grandes matchups com Arman [Tsarukyan], com Marty [Kamaru Usman], potencialmente [Belal Muhammad] — foi essa aposentadoria burocrática. Mas na minha cabeça eu não me sinto aposentado, porque ainda aceitaria uma luta. Ainda treino todo dia, ainda estou em boa forma e boa saúde."
A lógica é direta: ao se desligar formalmente do UFC, Covington passa a ser um atleta livre para enfrentar quem quiser na luta livre — inclusive adversários que, dentro do contrato com a promoção, seriam rivais intocáveis fora do octógono. Tsarukyan, Usman e Muhammad são nomes que ele citou explicitamente como alvos na RAF.
O que a saída de Covington revela sobre o momento do MMA
A movimentação de Covington não existe no vácuo. O UFC tem convivido com uma tensão crescente entre a rigidez dos seus contratos e a expansão de formatos alternativos de combate — da boxing crossover à luta livre estilizada da RAF. Ao mesmo tempo, outros atletas da promoção circulam pelo mesmo caminho: conforme registrado pelo SportNavo, Sean Strickland e Jon Jones foram vistos realizando tratamentos juntos na clínica Ways2Well, em Tampa, por recomendação de Joe Rogan, o que indica que o universo de atletas do UFC cada vez mais compartilha espaços e referências fora da promoção.
No peso-leve, Carlos Prates deixou claro que só voltará a lutar se receber um shot pelo cinturão — mas admitiu que, se forçado a escolher um adversário antes disso, Michael Morales seria o nome. Já Merab Dvalishvili, ao ser perguntado sobre uma possível revanche com Umar Nurmagomedov, descartou a ideia com uma frase curta: ele está focado em Petr Yan e não quer ouvir falar no rival.
O cenário geral é de atletas que, cada vez mais, tomam as rédeas das suas trajetórias — seja pela aposentadoria estratégica de Covington, seja pela postura de Prates em recusar lutas que não interessam, seja pela frieza de Dvalishvili em fechar portas para matchups que não o favorecem.
Mas o que sobra de Covington para o MMA depois que ele fecha a porta do octógono?
Deiveson finalizado em Macau enquanto o Brasil busca respostas na divisão dos galos
Enquanto a notícia da saída de Covington ainda repercutia, o UFC realizou neste sábado, 30 de maio, o evento em Macau, com Deiveson Figueiredo como atração principal. O paraense, que construiu um legado de dois reinados no peso-mosca antes de subir para os galos, encarou Song Yadong em solo chinês — e o resultado foi uma guilhotina no segundo round que encerrou a luta de forma abrupta.
O primeiro round foi de estudo mútuo: Song controlava distância enquanto Deiveson tentava pressionar com combinações de chute e soco, chegando a ficar por cima depois que o chinês escorregou ao tentar um chute alto nos segundos finais. O segundo round começou no mesmo ritmo, mas Song foi se soltando ofensivamente — e quando a luta foi para o chão, o chinês aproveitou a posição para encaixar a guilhotina que Deiveson não conseguiu defender. A derrota é a segunda consecutiva do brasileiro na divisão dos galos e complica qualquer conversa sobre disputa de cinturão no curto prazo.
O Brasil teve outros quatro representantes no card de Macau. Tallison Teixeira durou apenas 39 segundos diante de Sergey Pavlovich, nocauteado por uma sequência de dois diretos de direita seguidos de ground and pound. Em contrapartida, Luís Felipe Dias fez uma estreia sólida: o paulista derrubou o coreano Yi Sak Lee com um cruzado de direita e finalizou com ground and pound certeiro. José Souza também estreou na noite, contra o chinês Meng Ding, em uma luta que teve um primeiro round equilibrado.
Covington, enquanto isso, assiste a tudo isso de fora. Ele passou de um dos lutadores mais comentados do planeta — construindo rivalidades com Usman, Jorge Masvidal e uma lista enorme de adversários — para alguém que prefere as esteiras de wrestling a qualquer outra coisa. Diz que está mais feliz. Diz que o wrestling foi o esporte que lhe deu educação, faculdade e carreira. E que o UFC foi a consequência, não o destino.
Deiveson, por sua vez, tem uma decisão a tomar: continuar nos galos e reconstruir ou buscar o retorno ao peso-mosca, onde foi campeão duas vezes. O próximo adversário ainda não foi anunciado pelo UFC.










