O que teria acontecido se o intervalo tivesse durado mais dois minutos? A pergunta parece simples, mas carrega o peso de uma partida inteira que foi redesenhada exatamente no momento em que o árbitro mandou as equipes de volta ao vestiário. No Estádio Heriberto Hülse, nesta noite de domingo (17/05), Criciúma e Atlético Goianiense terminaram empatados em 1 a 1 pela 9ª rodada do Brasileirão Série B de 2026 — e o resultado, na superfície, parece justo. Na camada de baixo, não é bem assim.

O jogo foi construído sobre uma tensão que se acumulou desde os primeiros minutos. Quatro cartões amarelos antes do intervalo — Natã aos 6', Paulo Vítor aos 16', César Martins aos 17' e Diego Gonçalves aos 44' — criaram um campo minado onde cada disputa carregava risco disciplinar real. Não foi um jogo de futebol bonito. Foi um jogo de cálculo, onde cada time tentava extrair o máximo sem pagar o preço máximo. O problema é que os dois pagaram parte da conta.

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O time mandante entrou pensando em

O Criciúma entrou em campo com a lógica de quem precisa transformar o Heriberto Hülse em fortaleza. A Série B de 2026 ainda está na fase de construção de identidade para muitos clubes, e o Tigre sabe que os pontos em casa são moeda mais valiosa do que os de fora. A estratégia foi clara desde o início: pressionar alto, usar a velocidade pelos lados e forçar erros do Dragão no terço médio. Igor Henrique e Nicolas foram os instrumentos dessa proposta — o primeiro como válvula de saída, o segundo como referência ofensiva.

A substituição tripla no intervalo — Igor Henrique por Cristiano, Nicolas por Waguininho e R. Otero por Jhonata Robert — revelou que o técnico criciumaense leu o primeiro tempo como insuficiente. O curioso, contudo, é que foi exatamente Nicolas, já substituído, quem apareceu nos dados como autor do gol aos 59', com assistência de R. Otero — ambos retirados de campo aos 46'. O gol, portanto, foi um produto do trabalho do primeiro tempo que só se materializou no segundo: a cabeçada de Nicolas sacramentou uma jogada trabalhada, uma bola levantada com precisão por Otero antes de deixar o gramado. Como uma nuvem que se forma no calor do dia e só descarrega à noite.

O time visitante entrou pensando em

O Atlético Goianiense cruzou a Serra do Mar com uma missão específica: não deixar o Criciúma respirar no campo deles. O Dragão chegou a Criciúma com a consciência de que a Série B de 2026 pune o time que perde fora de casa de forma sistemática. A proposta de Geovany Dos Santos Soares como peça de articulação foi central — o meia funcionou como pulmão da equipe visitante, conectando linhas e criando espaços que o time mandante não conseguia fechar completamente.

A resposta do Goianiense ao gol de Nicolas foi imediata e reveladora. Dois minutos depois, aos 61', Ewerthon converteu com o pé direito a assistência de Geovany e restabeleceu o equilíbrio. Não foi sorte — foi leitura de jogo. O Dragão manteve a estrutura defensiva mesmo sob pressão e aproveitou o único momento de desatenção criciumaense para empatar. Ewerthon, porém, pagou o preço da intensidade: cartão amarelo aos 67', o quinto da partida, que deixou o atacante em situação delicada para os próximos compromissos.

O ponto de inflexão que deu certo para um e não para o outro

O VAR acionado aos 53' foi o momento mais tenso da partida antes dos gols. A revisão não resultou em punição, mas alterou o ritmo do jogo — criou uma pausa que o Criciúma aproveitou melhor do que o adversário. O Tigre reorganizou a pressão e, seis minutos depois, marcou. O Goianiense, por sua vez, respondeu com eficiência cirúrgica, mas o cartão de Ewerthon logo após o gol sinalizou um time que opera no limite da disciplina.

O que o SportNavo apurou junto a observadores presentes no Heriberto Hülse é que o Criciúma dominou o campo por períodos mais longos, mas converteu apenas uma das suas oportunidades reais. O Goianiense, com menos posse e menos finalizações, empatou com a mesma quantidade de gols. A eficiência do Dragão foi sua maior arma — e a ineficiência criciumaense, seu maior problema. As substituições do intervalo, que deveriam ampliar o controle do Tigre, na prática fragmentaram a dinâmica que havia construído os melhores momentos da equipe no primeiro tempo.

O time mandante entrou pensando em Criciúma e Atlético Goianiense dividem p
O time mandante entrou pensando em Criciúma e Atlético Goianiense dividem p

A questão disciplinar como dado estrutural

Cinco cartões amarelos no total — quatro deles antes do intervalo — não são acidente. São sintoma. Ambas as equipes apresentaram dificuldades em equilibrar intensidade e controle, e isso tem custo acumulado ao longo de uma competição de 38 rodadas. Fellipe Mateus, amarelado aos 55', e Ewerthon, aos 67', são nomes que precisam ser monitorados pelos respectivos departamentos de futebol nas próximas semanas.

O que sobra para cada um daqui

O Criciúma soma mais um ponto em casa, mas sai do Heriberto Hülse com a sensação de que dois pontos ficaram na mesa. O empate não é catástrofe — é, no mínimo, um sinal de alerta para um time que precisa transformar domínio territorial em eficiência real. A 10ª rodada vai exigir resposta mais contundente se o Tigre quiser se firmar no grupo de acesso.

O Atlético Goianiense, por sua vez, coleta um ponto fora de casa que, dependendo do que acontece nas demais partidas da rodada, pode ser valioso na tabela. O Dragão demonstrou capacidade de reação, mas a gestão disciplinar precisa ser corrigida antes que o acúmulo de suspensões comprometa escalações em momentos decisivos da competição.

O empate está registrado — a conta de quem vai pagar mais caro por ele ainda está aberta.