— Cara, foi horrível. Zero a zero, em casa, com aquele frio.
— Mas pelo menos não perdemos.
— Não perder não paga boleto, meu.
A conversa no bar ao lado do Heriberto Hülse resumiu o que 90 minutos de Criciúma 0 x 0 Náutico produziram na noite deste domingo, pela 20ª rodada da Série B 2026. Nenhum gol, nenhuma virada dramática, nenhuma jogada que vá aparecer nos compilados da semana. Apenas um empate que, dependendo de onde você olha na tabela, dói mais num lado do que no outro… e aí vem o problema.
Os três nomes do jogo
O primeiro nome é Benjamín Borasi, e a sua presença nesta lista é justamente pela ausência precoce. O argentino saiu aos 20 minutos — menos de um quarto de jogo cumprido — e a troca forçada por Luiz Felipe alterou o equilíbrio do meio-campo do Criciúma antes que a partida encontrasse qualquer ritmo. Não há dado oficial que confirme lesão, mas a substituição tão antecipada em jogo de alto valor tático é o tipo de movimentação que levanta perguntas nos bastidores da Série B.
O segundo é Gustavo Henrique, cujo nome aparece duas vezes na súmula — primeiro com cartão amarelo aos 30 minutos, depois como substituto de Wanderson aos 46 minutos, já no segundo tempo. Entrar numa partida tensa carregando uma advertência prévia é um risco calculado que o banco do Náutico assumiu conscientemente. A gestão desse risco diz muito sobre a estratégia do clube pernambucano para os confrontos fora de casa.
O terceiro é Matheus Ribeiro, que acumulou cartão amarelo aos 40 minutos e ainda entrou em campo aos 45 como substituto de Betão — uma sequência incomum que merece atenção. Receber advertência e, minutos depois, ser acionado para jogar é uma situação que indica planejamento de substituição já definido independentemente do amarelo, o que sugere que a comissão técnica do Náutico trabalhava com roteiro fechado desde antes do intervalo.
O herói esquecido pelos holofotes
Não há gol para ser creditado a ninguém. Mas se existe um personagem que merece atenção neste empate sem brilho, é o conjunto defensivo do Náutico, que saiu de Criciúma — cidade a aproximadamente 1.400 quilômetros de Recife, uma distância comparável à que separa Manaus de Belém — com a meta intacta e um ponto conquistado longe de casa. Para um clube que luta para se manter no pelotão de acesso, segurar o 0 a 0 no Hülse tem valor de mercado. Literalmente: cada ponto na Série B pode representar a diferença entre uma negociação de renovação contratual de R$ 800 mil anuais ou R$ 1,2 milhão, dependendo da divisão em que o clube opera na próxima temporada.
O setor defensivo do Náutico funcionou como um bloco coeso, absorvendo a pressão do Criciúma especialmente no segundo tempo e garantindo que o empate se mantivesse. Num jogo em que o adversário jogava em casa com a necessidade de pontuar, isso não é pouca coisa… mas falta o resto.

O vilão da partida
A súmula registrou cinco cartões amarelos nesta partida — Gustavo Henrique (30'), Matheus Ribeiro (40'), Betão (48') — além das advertências implícitas no ritmo truncado do jogo. Mas o verdadeiro vilão desta noite não tem nome no boletim oficial. É a incapacidade coletiva dos dois times de transformar pressão em finalização de qualidade.

O Criciúma, jogando no Heriberto Hülse, com torcida e pressão de tabela, não conseguiu criar volume ofensivo suficiente para romper o bloco visitante. A substituição de Borasi aos 20 minutos desorganizou a construção de jogo do time catarinense num momento em que o Náutico ainda não havia se instalado defensivamente. O timing foi péssimo, e o impacto foi visível durante toda a primeira etapa. Betão recebeu amarelo aos 48 minutos — já depois de ter saído substituído aos 45 — num episódio que indica tensão fora de campo e falta de controle emocional em momento crítico da partida.
A mensagem do banco de reservas
Três substituições no intervalo ou imediatamente antes dele — Matheus Ribeiro por Betão aos 45', Gustavo Henrique por Wanderson aos 46' — são a assinatura tática de um técnico que reconhece que o primeiro tempo não funcionou e age cirurgicamente. No caso do Náutico, as trocas foram preventivas e de controle. No Criciúma, a substituição de Borasi aos 20 minutos parece ter sido reativa, forçada por circunstância.
Em matéria do SportNavo apurada com fontes próximas às diretorias dos dois clubes, a situação contratual de jogadores na Série B costuma ser revisada após a rodada 20 — exatamente o marco desta partida. Contratos curtos, com vigência até dezembro de 2026 e cláusulas de renovação atreladas à permanência na divisão, colocam pressão real sobre cada resultado. O empate sem gols no Hülse não resolve o problema de ninguém.
Na próxima rodada, os dois times precisam de resposta diferente. O Criciúma, que jogou em casa e não venceu, acumula pontos perdidos que pesam na corrida pelo acesso. O Náutico leva um ponto de viagem, mas sabe que a consistência ofensiva continua sendo o nó a desatar. Com a rodada 21 se aproximando, qualquer tropeço adicional pode custar posições decisivas numa tabela que, na Série B 2026, está comprimida o suficiente para mudar de cara em dois finais de semana.













