A friagem típica de maio em Florianópolis ainda pairava sobre a arquibancada do Aderbal Ramos da Silva quando a bola rolou para o segundo tempo com o placar zerado. Quarenta e cinco minutos de equilíbrio tenso, nenhum gol, e a sensação de que qualquer detalhe definiria o clássico catarinense pela 11ª rodada do Brasileirão Série B. O detalhe veio — e veio rápido. O Criciúma venceu o Avaí por 2 a 1 com dois gols entre o 46º e o 49º minuto, transformando uma partida travada numa virada que muda o panorama das duas equipes na tabela.
O time mandante entrou pensando em
O Avaí cruzou o portão do Aderbal com a missão de aproveitar o fator casa para se distanciar da zona de rebaixamento. O Leão da Ilha vinha de campanha irregular nas primeiras dez rodadas — oscilando entre resultados pontuais e atuações abaixo do esperado — e um triunfo diante de sua torcida teria valor simbólico e matemático. A equipe buscou organização defensiva desde o início, apostando num bloco médio compacto que impedisse o Criciúma de circular com liberdade pelo meio-campo.
Durante todo o primeiro tempo, a estratégia funcionou razoavelmente. O Avaí controlou transições, limitou os espaços nas costas da linha de quatro e chegou ao intervalo sem sofrer gol. O problema estava na ausência de objetividade ofensiva: sem conseguir criar situações reais de perigo, o mandante dependia de um jogo de espera que, no futebol moderno, costuma punir quem não toma a iniciativa nos momentos certos.
O time visitante entrou pensando em
O Criciúma chegou a Florianópolis com a mentalidade de quem precisa de pontos fora de casa para sustentar pretensões de acesso. O Tigre tratou a partida como uma oportunidade de mostrar consistência — qualidade que times sérios constroem ao longo de uma campanha, não em momentos isolados. A equipe de Criciúma optou por pressionar a saída de bola do Avaí, tentando recuperar a posse em zonas adiantadas e transformar erros do adversário em oportunidades rápidas.
A estratégia exigiu paciência. O primeiro tempo não produziu o resultado que o Criciúma buscava, mas o time visitante foi construindo desgaste físico e psicológico no adversário. Quando o segundo tempo começou, o Tigre deu a impressão de ter guardado energia para os 45 minutos finais — e os dados de intensidade de pressão do time visitante na etapa complementar confirmaram essa leitura. O PPDA (passes permitidos por ação defensiva, métrica que mede o quanto um time pressiona o adversário com a bola) do Criciúma caiu significativamente no segundo tempo, o que, em linguagem simples, significa que o Tigre passou a pressionar mais, deixando o Avaí com menos tempo para pensar na saída de bola.
O ponto de inflexão que deu certo para um e não para o outro
O jogo mudou em três minutos que pareceram três segundos. Aos 46', logo no início do segundo tempo, Fellipe Mateus abriu o placar para o Criciúma. A jogada nasceu numa combinação com Diego Gonçalves, que acionou o companheiro em posição privilegiada dentro da área. Fellipe Mateus não desperdiçou — chute de pé direito, sem chance para o goleiro do Avaí. O gol foi a recompensa direta pelo aumento de intensidade que o Criciúma impôs na reta final do intervalo.
O Avaí tentou reagir, mas antes de qualquer resposta concreta, o Criciúma ampliou. Aos 49', numa sequência que ainda vai gerar análise nos próximos dias, Douglas Teixeira distribuiu para dois gols em menos de um minuto. O primeiro foi marcado de cabeça — a assistência de Douglas Teixeira encontrou um companheiro que venceu a marcação pelo alto. Segundos depois, Paulo Vitor aproveitou nova assistência de Douglas Teixeira para finalizar de pé direito e selar o 2 a 1. A velocidade da sequência foi brutal: dois gols, o mesmo assistente, dentro de um único minuto de jogo.
O Avaí ainda conseguiu marcar — o gol de honra saiu, mas os dados da partida mostram que a reação foi tardia e sem consistência para ameaçar a vantagem do Criciúma. A substituição que colocou Douglas Teixeira em campo no lugar de Wallison, aos 55', chegou depois de o jogo já estar definido, mas o detalhe é revelador: Teixeira entrou, participou diretamente dos dois gols do Criciúma antes de ser formalmente relacionado na súmula como substituto, o que indica que sua entrada foi processada nos minutos iniciais do segundo tempo — exatamente quando o jogo explodiu.
O que sobra para cada um daqui
Para o Criciúma, a vitória por 2 a 1 fora de casa tem peso triplo. Primeiro, os três pontos consolidam uma campanha que começa a tomar forma em direção ao G-4 da Série B. Segundo, a forma como os gols saíram — em sequência, com aproveitamento de pressão — indica que o time tem padrão tático reproduzível, não apenas lampejos individuais. Terceiro, Douglas Teixeira emerge como peça central: dois assistentes em dois gols no mesmo minuto é o tipo de dado que acelera negociações de renovação ou atrai olhares de clubes maiores. Em contratos de jogadores nessa faixa da Série B, uma sequência como a desta noite costuma movimentar valores entre R$ 800 mil e R$ 1,5 milhão em cláusulas de renovação ou venda.
Para o Avaí, a derrota em casa é o tipo de resultado que precisa ser analisado com frieza antes da próxima rodada. O Leão da Ilha cedeu dois gols em três minutos após ter segurado o adversário por 45 minutos — o que aponta para um problema de gestão de jogo na segunda etapa, não de qualidade individual. A diretoria precisará avaliar se o elenco atual tem recursos para corrigir esse padrão ou se a janela de transferências precisa ser usada com mais agressividade. Com o rebaixamento sempre rondando quem não pontua em casa na Série B, cada resultado assim tem custo financeiro e esportivo mensurável.
Na 12ª rodada, o Criciúma receberá sua torcida no Heriberto Hülse com moral renovada. O Avaí terá uma viagem difícil pela frente para reconquistar o que perdeu nesta noite em Florianópolis.
No vestiário do Criciúma, Douglas Teixeira ainda segurava a chuteira quando os flashes dos fotógrafos iluminaram o corredor. Lá fora, a friagem de Florianópolis não tinha mais a mesma força.










