A névoa da Bombonera ainda não se formou, mas o peso do jogo já se sente desde cedo. O Cruzeiro desembarca em Buenos Aires esta terça-feira (19) com 7 pontos no Grupo D da Libertadores e uma equação simples na cabeça: vença o Boca Juniors e durma classificado para as oitavas de final. A bola rola às 21h30 (horário de Brasília), com transmissão exclusiva do Paramount+.

A matemática que favorece a Raposa no Grupo D

Com 7 pontos e o Boca logo atrás com 6, o Cruzeiro ocupa a segunda posição do grupo — e a diferença de um ponto torna este confronto direto ainda mais cirúrgico. Uma vitória fora de casa encerra qualquer discussão sobre classificação antes mesmo da última rodada, quando a Raposa recebe o Barcelona de Guayaquil no Mineirão, no dia 28. O Boca, por sua vez, fecha a fase contra a Universidad Católica, mas só se importa com isso se sobreviver à noite de hoje.

O momento recente do Cruzeiro ajuda a embasar o otimismo: a equipe de Artur Jorge arrancou um empate fora de casa contra o Palmeiras, líder do Brasileirão, e ainda avançou na Copa do Brasil sobre o Goiás. Consistência que se reflete em números de pressing — o PPDA (passes permitidos por ação defensiva) do time nas últimas rodadas coloca a Raposa entre os times mais intensos do grupo, com aproximadamente 8,2, o que significa que o Cruzeiro força o adversário a cometer erro a cada 8 passes, controlando o campo sem a bola.

Boca sem Bareiro e o problema do xG que não se resolve

A ausência de Adam Bareiro, cortado por lesão muscular no adutor da coxa direita, é o fator que mais desequilibra a análise tática do lado argentino. Bareiro é o principal gerador de xG (expected goals — métrica que estima a probabilidade de gol com base na qualidade de cada chance criada) do ataque do Boca nesta Libertadores. Sem ele, o técnico Claudio Ubeda chegou a cogitar Ángel Romero, ex-Corinthians, mas optou por Milton Giménez — que carrega um problema no tornozelo e atravessa fase irregular.

A diferença entre os dois perfis é relevante para entender o que o Boca perde. Bareiro atua como referência de área, acumulando xG dentro dos 16 metros. Giménez, quando está bem, prefere sair para buscar a bola e criar combinações — um estilo que exige mais progressive passes dos meias para funcionar. Com Leandro Paredes como pivô criativo no meio, essa cadeia pode até se conectar, mas a falta de consistência do centroavante titular torna o processo menos previsível.

  • xG esperado do Boca sem Bareiro: queda estimada de ~0,4 por jogo, baseado na participação direta do paraguaio em finalizações de alto valor
  • Progressive passes do Cruzeiro por 90 min: Matheus Pereira e Gerson figuram entre os mais ativos nessa métrica no grupo, com médias acima de 6 passes progressivos cada
  • PPDA do Boca em casa: mais alto (mais permissivo) do que fora, indicando que o Xeneize pressiona menos quando joga na Bombonera e aposta no contra-ataque

As escalações e o xA que pode definir o jogo

Artur Jorge confirma: Otávio; Fagner, Fabrício Bruno, Jonathan Jesus e Kaiki; Lucas Romero, Gerson, Christian e Matheus Pereira; Bruno Rodrigues e Kaio Jorge. A linha de cinco no meio-campo com Gerson e Matheus Pereira funcionando em conjunto é onde mora o principal perigo cruzeirense. Matheus Pereira acumula xA (expected assists — probabilidade de que um passe resulte em gol) acima de 0,18 por 90 minutos nesta Libertadores, número que o coloca entre os meias mais perigosos da fase de grupos.

Quando Matheus Pereira recebe entre as linhas, ele atrasa para Gerson e abre para Bruno Rodrigues pela direita — o triângulo mais letal do ataque. Quando Kaio Jorge se movimenta para fora da área, ele libera espaço para a chegada de Christian pela meia-esquerda.

Do lado do Boca, a escalação de Ubeda: Leandro Brey; Malcom Braida, Di Lollo, Ayrton Costa e Lautaro Blanco; Tomás Belmonte, Leandro Paredes, Milton Delgado e Tomás Aranda; Miguel Merentiel e Milton Giménez. Paredes tem qualidade para conduzir o ritmo, mas o setor ofensivo depende demais de Merentiel para criar volume. Nos 17 confrontos históricos entre os clubes, o Boca leva vantagem — 7 vitórias contra 6 do Cruzeiro, com 4 empates. A Bombonera nunca foi um passeio para a Raposa.

O que está em jogo além da classificação

Na avaliação do SportNavo, este jogo é um termômetro do projeto de Artur Jorge para além da fase de grupos. Jogar na Bombonera com a possibilidade de fechar a vaga é um teste de maturidade que poucos elencos brasileiros passam com tranquilidade. A arbitragem venezuelana de Jesús Valenzuela adiciona uma camada de imprevisibilidade — o árbitro tem histórico de ser rigoroso com infrações táticas, o que pode favorecer o Cruzeiro caso o Boca opte por pressão física para compensar a falta de Bareiro.

Segundo o técnico Claudio Ubeda, a opção por Giménez no lugar de Ángel Romero foi uma decisão técnica de última hora, pesando o estado físico de ambos antes da partida.

Se o Cruzeiro segurar o resultado, a última rodada vira apenas protocolo — a Raposa recebe o Barcelona de Guayaquil no Mineirão no dia 28 já com a vaga garantida. Está no caminho certo — falta executar na Bombonera.