Voltou. E voltou de um jeito que o futebol brasileiro não via há quase dois anos: Neymar marcando, assistindo e arrastando a Vila Belmiro em uma noite de Brasileirão com peso de decisão. A vitória do Santos por 2 a 0 sobre o Red Bull Bragantino, pela 15ª rodada do Campeonato Brasileiro 2026, foi mais do que três pontos. Foi um currículo entregue na mesa de Carlo Ancelotti com carimbo e data.

O que aconteceu nos bastidores antes do apito

A semana que antecedeu o duelo com o Bragantino foi de elogios públicos incomuns. O próprio Ancelotti, normalmente avaro em palavras sobre convocações antes da lista oficial, deixou escapar aprovação ao desempenho de Neymar nas últimas rodadas. Nos corredores da CBF, o nome do camisa 10 já circulava como presença na pré-lista — informação apurada pela ESPN e confirmada por fontes próximas ao processo de seleção. A convocação final, com 26 jogadores, será anunciada no dia 18 de maio, no Rio de Janeiro.

Cuca, que assumiu o Santos há menos de dois meses, tem acompanhado o ressurgimento do craque de perto. No empate por 1 a 1 com o San Lorenzo, em Buenos Aires, pela terceira rodada do Grupo D da Copa Sul-Americana, o técnico já havia sinalizado o que via em campo.

"Vejo-o forte, cada vez mais forte. Para ser convocado para a seleção, é uma questão do treinador e da comissão técnica. Como brasileiro, torço para que isso aconteça", disse Cuca após o jogo na Argentina.

Neymar em campo pelo Santos na temporada 2026

O gol marcado contra o Bragantino não foi um lampejo isolado. Neymar participou diretamente dos dois tentos na vitória sobre o Coritiba pela Copa do Brasil — gol de Gabriel Bontempo e gol de Adonis Frías saíram de jogadas construídas pelo camisa 10. No jogo de domingo na Vila Belmiro, o padrão se repetiu: gol marcado e participação indireta no segundo gol do Peixe. Cuca não poupou adjetivos.

"Neymar fez um jogo muito bom. Prendeu a bola, criou, tem lances geniais que ele deixa o cara para fazer o gol. Fez um golaço, participou indiretamente do segundo gol", declarou o treinador após a vitória sobre o Bragantino.

O próprio jogador, em rápida declaração após o apito final, contextualizou o momento do clube:

"Feliz pelo gol, feliz por ajudar a equipe e principalmente por vencer, que é o mais importante. Estávamos há um tempo sem ganhar e não poderíamos deixar escapar hoje de jeito nenhum."

Há um dado que o olho nu não captura facilmente, mas que os analistas de Ancelotti certamente têm na planilha: Neymar está completando partidas inteiras com mais frequência do que em qualquer outro período desde seu retorno ao Brasil. A minutagem crescente é o termômetro mais honesto de condição física — e o número aponta para cima.

O que aconteceu nos bastidores antes do apito Cuca vê Neymar pronto para a Copa
O que aconteceu nos bastidores antes do apito Cuca vê Neymar pronto para a Copa

Para quem acompanha a história do futebol brasileiro, o paralelo inevitável é com Romário em 1994. O Baixinho chegou ao Mundial americano carregando dúvidas sobre lesão e forma física, saiu de lá como artilheiro e melhor jogador do torneio. A comparação não é de nível técnico — Romário era um centroavante nato, Neymar hoje opera como meia-atacante de múltiplas funções. Mas o padrão de ressurgimento tardio, às vésperas da lista, tem precedente dourado na história verde e amarela.

A decisão que Ancelotti precisará tomar até o dia 18

Cuca foi além do elogio pontual. Em coletiva após a classificação sobre o Coritiba na Copa do Brasil, o técnico santista articulou um argumento tático que vai direto ao coração da dúvida de Ancelotti.

"Não é aquele Neymar do passado, que pegava a bola e levava dentro, mas ele cria uma dificuldade enorme para o adversário hoje. Na Seleção, ele pode ajudar de muitas maneiras, vindo de trás, pifando alguém, inteligência, prende a bola, organiza, define. Ele joga do lado do campo, de 10, de falso nove. A vaga dele na Seleção está muito bem encaminhada, eu imagino", afirmou o treinador.

O argumento de Cuca tem consistência tática. Ancelotti, que ao longo de sua carreira na Europa escalou jogadores em declínio físico em funções adaptadas — Kaká no Real Madrid de 2013, Pirlo na Juventus campeã —, conhece bem o valor de um jogador inteligente que não precisa mais ser o mais rápido em campo. Neymar aos 34 anos não é o atleta de Barcelona de 2015, quando marcou 39 gols e deu 10 assistências na temporada pelo clube catalão. Mas é um jogador capaz de desequilibrar por outros meios.

A Copa do Mundo de 2026 será disputada nos Estados Unidos, Canadá e México, com início marcado para junho. Para Neymar, seria a quarta participação em Mundiais — ele esteve em 2014, 2018 e 2022, marcando 8 gols no total em 14 jogos disputados. Em 2014, no Brasil, chegou a ser o artilheiro da Seleção antes de se machucar contra a Colômbia nas quartas de final, com quatro gols em cinco partidas.

Antes da convocação de Ancelotti, Neymar ainda tem pelo menos mais uma oportunidade de mostrar serviço: o Santos enfrenta o Coritiba no domingo (17), às 11h, na Neo Química Arena, pela 16ª rodada do Brasileirão. Cuca foi direto ao ponto sobre o que espera: "Domingo ele pode fazer mais um bom jogo e carimbar o passaporte para a Copa." A lista sai na segunda-feira seguinte. O intervalo entre o apito final e o anúncio de Ancelotti será de menos de 24 horas — tempo suficiente para um golaço mudar tudo, ou para confirmar o que os números já estão dizendo.

Uma convocação tem a lógica de uma receita que leva tempo no forno: os ingredientes precisam estar prontos no momento exato em que a porta se abre. Neymar, gol a gol, minuto a minuto, parece ter chegado na temperatura certa.