É um maestro afinando o instrumento mais caro do conjunto enquanto guarda o segundo violino na estante. Só que o segundo violino também custa uma fortuna — e ninguém sabe por quanto tempo vai aceitar o papel.

O Santos venceu o Bragantino por 2 a 0, neste domingo (10), na Vila Belmiro, pela 15ª rodada do Brasileirão. O placar é limpo, o resultado é necessário — o Peixe sobe para a 14ª posição e se afasta momentaneamente da zona de rebaixamento. Mas o que realmente importa analisar não está no marcador: está na prancheta de Cuca, que optou por escalar Neymar como titular e deixar Gabigol no banco. A escolha funcionou hoje. A pergunta é se funcionará como política.

A narrativa popular que precisa ser desmontada

Circula no ambiente santista — e nas redes sociais — a ideia de que Cuca está simplesmente priorizando Neymar por questões de marketing, prestígio ou pressão da diretoria. Essa leitura é sedutora, mas ignora os dados da partida. Neymar marcou o primeiro gol nos acréscimos do primeiro tempo, após troca de passes coletiva, e participou indiretamente do segundo lance que resultou no gol de Adonis Frías aos 30 minutos do segundo tempo. Não foi presença decorativa: foi protagonismo técnico mensurável.

Gabigol, por sua vez, entrou no segundo tempo, substituindo exatamente Neymar — que saiu por cansaço — e não produziu nada de concreto. Nenhuma finalização de perigo, nenhuma participação direta nos lances decisivos. Quem defende que o camisa 9 deveria ter começado precisa explicar com base em quê, porque os 90 minutos desta tarde não oferecem argumento.

"Hoje a opção por ele (Gabigol) não jogar foi técnica, foi para que a gente também tenha outras maneiras de jogar. Não dá para você fazer um planejamento de muitos jogos, porque é muito desgastante." — Cuca, após Santos 2 x 0 RB Bragantino

O argumento do Arsenal e o que Cuca acertou ao citá-lo

Cuca usou o Arsenal como referência para justificar o rodízio — e a comparação tem mérito factual, ainda que o contexto seja desproporcional. Os Gunners, com um dos maiores plantéis da Premier League 2025/2026, exibiram sinais visíveis de desgaste físico neste mesmo domingo. Cuca assistiu ao jogo e reconheceu o padrão: sequência de partidas destrói ritmo, independentemente do tamanho do elenco.

O Santos não tem o plantel do Arsenal — isso o próprio treinador admitiu com clareza. Mas o princípio é válido: distribuir a carga física entre jogadores de alto rendimento não é hesitação técnica, é gestão. A Copa do Brasil entra no calendário já na quarta-feira (13), quando o Peixe visita o Coritiba no Couto Pereira às 19h30, pelo jogo de volta da quinta rodada — o primeiro confronto terminou 0 a 0 na Vila Belmiro. Ter Gabigol descansado para essa partida é, no mínimo, raciocínio lógico.

"Eu adoro o Gabigol, eu acho ele um estupendo jogador. Foi uma situação de jogo hoje. Cada jogo é uma história. O jogo mostrou que a gente fez certo, ele entrou depois, pôde fazer boas jogadas." — Cuca

O problema real que a vitória não resolve

A avaliação do SportNavo é que Cuca acertou a escolha pontual, mas o modelo de gestão dos dois astros ainda não tem uma lógica clara para o torcedor — e esse vácuo de comunicação cria ruído desnecessário. Neymar acumula 5 gols em 12 jogos no Brasileirão, uma média de 0,41 por jogo que, para um atleta de 34 anos retornando de longa lesão, representa produção real. Gabigol, por sua vez, foi contratado para ser o centroavante titular do projeto, não um reserva de luxo.

O contra-argumento mais honesto que os críticos de Cuca podem levantar é este: se o rodízio é a política, ela precisa ser simétrica. Neymar também deve sentar quando Gabigol joga — e não apenas ser substituído por cansaço depois de ter sido o protagonista do dia. Hoje o modelo foi Neymar titular, Gabigol de reforço. Na quarta, contra o Coritiba, a lógica exige inversão. Se isso não acontecer, o rodízio deixa de ser política e vira hierarquia disfarçada… e aí vem o problema.

Cuca elogiou Neymar com precisão cirúrgica após o apito final: "Ele prendeu a bola, criou, tem lances geniais que deixam o cara na condição de fazer o gol. Fez um golaço, participou da jogada que a gente treina no segundo gol com assistência indiretamente." Nenhum treinador elogia assim um jogador que pretende escalar com parcimônia — o que sugere que Neymar, enquanto estiver fisicamente disponível, será a primeira opção de Cuca independentemente do discurso de rodízio.

O Santos volta a campo na quarta-feira (13), contra o Coritiba, no Couto Pereira, em jogo de volta pela Copa do Brasil — com a vantagem de ter o empite como resultado que avança. Vale gravar o jogo para verificar se Gabigol começa como titular e se Cuca sustenta, na prática, o rodízio que defendeu com palavras.