Diz-se que lateral-esquerdo moderno precisa de velocidade acima de tudo. Na verdade, não precisa — e o caso de Marc Cucurella é a demonstração mais eloquente disso na Europa desta temporada. Com 173 cm e 66 kg, o espanhol não é o mais rápido, não é o mais alto e tampouco o mais goleador da posição. Mas está entre os mais inteligentes, e essa distinção tem pesado muito mais do que qualquer atributo físico dentro do projeto do Chelsea.

O número que define a temporada

Trinta e seis jogos. Esse é o número que melhor descreve o que Cucurella representa para o Chelsea na temporada 2025/2026 — não como curiosidade, mas como argumento. Em uma equipe que disputa a Champions League e precisa gerir um elenco amplo, chegar a 36 partidas como defensor é sinal de confiança irrevogável da comissão técnica. Para contexto: quando Franco Baresi completava temporadas inteiras pelo Milan nos anos 80 e 90, a métrica de presença era o critério mais básico de avaliação de um zagueiro. Cucurella cumpre esse critério com folga.

Nessa temporada, ele também somou 1 gol e 1 assistência — números que, para um defensor espanhol de perfil mais contencionista, representam contribuição ofensiva consistente sem distorcer sua função primária. Não é o Cucurella artilheiro que o torcedor do Chelsea quer ver; é o Cucurella que aparece quando o time precisa de equilíbrio, e isso tem valor que nenhuma planilha de gols captura completamente.

Como ele chegou aqui

A trajetória de Cucurella é, antes de tudo, uma história de recusa produtiva. Formado nas categorias de base do Barcelona — o mesmo clube que produziu Puyol, Piqué e Jordi Alba — ele passou pelo Barcelona B entre 2016 e 2019 sem jamais receber uma chance real no time principal. Para quem conhece a cultura da Masia, sabe que isso não é necessariamente um julgamento de qualidade: o Barcelona daquela época ainda vivia o ciclo final da era Guardiola-Valverde, com posições bloqueadas por nomes consolidados.

O número que define a temporada Cucurella e os 36 jogos que transformara
O número que define a temporada Cucurella e os 36 jogos que transformara

O empréstimo ao Eibar na temporada 2018/2019 foi o primeiro teste de fogo em ambiente de LaLiga adulta, em um clube que historicamente serve como laboratório para jovens espanhóis — o mesmo Eibar que revelou ou poliu nomes como Sergi Enrich e Joan Jordán. Depois veio o Getafe, na temporada 2019/2020, onde Cucurella encontrou um sistema tático que valorizava exatamente o que ele tinha: leitura posicional, pressão alta e capacidade de cobrir espaços em diagonal. Seu desempenho foi tão consistente que o Getafe exerceu a compra definitiva em 1º de julho de 2020, pagando 11 milhões de euros — um valor que, retrospectivamente, parece irrisório.

A sequência até o Chelsea consolidou uma carreira que acumulou títulos em diferentes frentes: a Copa do Rei de 2017/2018 com o Barcelona (mesmo que pelas categorias de base), a Liga Conferência da UEFA de 2024/2025 com o Chelsea, o Mundial de Clubes FIFA de 2025 e, o mais simbólico de todos, a Eurocopa de 2024 com a seleção espanhola. Quatro troféus de naturezas completamente distintas, conquistados em diferentes fases da vida — o arco de um jogador que aprendeu a vencer em doses, não de uma vez.

O que o faz diferente dos pares

Comparar Cucurella com os laterais-esquerdos de elite europeia exige honestidade sobre o que ele não é. Não tem a explosão física de Alphonso Davies no Bayern, não tem o volume ofensivo de Andrew Robertson no Liverpool dos anos de ouro. Mas há uma dimensão em que ele se destaca com clareza: a versatilidade posicional. Cucurella atua tanto como lateral-esquerdo quanto como zagueiro central — uma característica que, no futebol moderno de três zagueiros e alas, tem valor estratégico imenso.

Pense assim: a diferença entre um jogador que ocupa uma posição e um jogador que ocupa duas posições com competência é, em termos de utilidade tática para o treinador, algo da ordem de distância entre Recife e Cuiabá — não é um detalhe, é uma outra dimensão geográfica de possibilidades. Isso explica por que Cucurella, mesmo sem ser o jogador mais vistoso do elenco, acumula 36 jogos em uma temporada de Champions League.

Como ele chegou aqui Cucurella e os 36 jogos que transformara
Como ele chegou aqui Cucurella e os 36 jogos que transformara

Há também um elemento humano que a imprensa começou a registrar. A reportagem de maio de 2026 sobre a relação entre Cucurella e Estêvão — descrita como uma virada de rival xingado a referência no vestiário — aponta para uma liderança silenciosa que jogadores experientes de 27 anos desenvolvem sem alarde. É o tipo de influência que Maldini exercia no Milan dos anos 90 sem precisar de braçadeira de capitão: a autoridade que vem da consistência, não do cargo.

Os limites a vencer

Seria desonesto não reconhecer as fronteiras do perfil de Cucurella. Aos 27 anos, nascido em 22 de julho de 1998, ele está tecnicamente no pico físico da carreira — mas também no momento em que as escolhas de clube e sistema tático definem se um jogador será lembrado como grande ou apenas como sólido. O Chelsea de 2025/2026 é um projeto ambicioso, mas ainda em construção, e a Champions League é o teste que separa os bons dos memoráveis.

Sua estatura de 173 cm, que nunca foi impedimento na LaLiga ou no futebol inglês graças à sua inteligência de posicionamento, pode ser explorada por adversários em situações de bola aérea nas fases decisivas da Champions. É uma limitação real, não uma narrativa fabricada. Os grandes laterais que superaram essa questão — Cafu, Lahm, Jordi Alba — fizeram isso compensando com antecipação e organização defensiva coletiva. Cucurella tem esse repertório, mas ainda precisa demonstrá-lo no palco mais exigente.

O que se pode dizer com segurança é que Marc Cucurella chegou à temporada 2025/2026 como um jogador completo no sentido mais honesto da palavra: não o melhor em nenhum atributo isolado, mas suficientemente bom em todos eles para ser insubstituível. Essa é uma qualidade rara, e o Chelsea sabe disso. A pergunta que fica é concreta: se o Chelsea avançar às semifinais da Champions League, Cucurella conseguirá manter o nível de presença e consistência que acumulou nas 36 partidas desta temporada — ou o peso do torneio vai expor os limites que a fase de grupos ainda não testou?