Diz-se que o Grêmio tem entre suas maiores virtudes a gestão criteriosa do elenco — um clube que raramente deixa pendências financeiras se transformarem em escândalos públicos. Na verdade, não tem — pelo menos não desta vez. O volante colombiano Gustavo Cuéllar, rescindido pelo clube gaúcho em fevereiro de 2026 após apenas 29 partidas disputadas, notificou extrajudicialmente o Tricolor pelo não pagamento da multa rescisória prevista em contrato. O valor cobrado é de R$ 15 milhões.

A rescisão foi anunciada pelo Grêmio com uma justificativa que raramente aparece em comunicados oficiais: o clube alegou publicamente que Cuéllar não demonstrava vontade de evoluir no dia a dia e não se entregava nas atividades. É o tipo de argumento que, no futebol, funciona como faca de dois gumes — serve para encerrar um ciclo, mas também expõe o clube a questionamentos sobre o processo de contratação. Afinal, o colombiano tinha sido trazido em 2025, com contrato formal e multa rescisória registrada. Se havia sinais de comportamento inadequado, por que a rescisão levou meses para acontecer… e aí vem o problema.

O que Cuéllar deixou para trás no Flamengo e o que não conseguiu no Grêmio

Para entender o peso simbólico deste caso, é preciso recuar até novembro de 2019. Cuéllar era titular absoluto do Flamengo de Jorge Jesus quando a equipe levantou a Libertadores no Estádio Monumental de Lima, diante do River Plate. O colombiano havia disputado as fases eliminatórias até as quartas de final — suficiente para figurar no rol de campeões, e suficiente também para que seu nome ficasse gravado na memória da torcida rubro-negra. Em quatro temporadas no clube carioca, entre 2016 e 2019, foram 167 partidas, dois gols e três assistências, além dos títulos do Brasileirão e de dois Campeonatos Cariocas.

A saída do Flamengo, porém, não foi sem atrito. Cuéllar pressionou a diretoria para aceitar a proposta do Al Hilal, da Arábia Saudita, antes mesmo do encerramento da campanha continental. A cúpula rubro-negra da época tentou segurar o atleta, reconhecendo sua importância tática, mas o jogador foi irredutível. A imagem de quem abandona o barco antes da festa ficou colada ao seu nome em parte do torcedores — e, curiosamente, repetiu-se em Porto Alegre, embora por razões distintas.

Os 29 jogos que custaram caro ao Grêmio

Contratado pelo Grêmio em 2025, Cuéllar chegou aos 33 anos com o currículo de quem conhece o futebol brasileiro de perto. A expectativa era a de um volante experiente, capaz de organizar o meio-campo e trazer consistência defensiva. O que o clube encontrou, segundo sua própria versão oficial, foi um atleta sem comprometimento com a evolução cotidiana. Em 29 jogos disputados, o desempenho não convenceu a comissão técnica, e a diretoria optou pelo encerramento do vínculo em fevereiro de 2026.

O problema é que encerrar um contrato no futebol profissional brasileiro tem um custo previsto em cláusula. Cuéllar tinha uma multa rescisória negociada, e o Grêmio, ao tomar a iniciativa da rescisão, tornou-se devedor desse valor. Segundo apuração da imprensa esportiva, o clube ainda não havia iniciado o pagamento semanas após o encerramento formal do vínculo — o que levou o colombiano a formalizar a notificação extrajudicial. Os R$ 15 milhões cobrados representam um rombo considerável para o caixa tricolor, que convive com as pressões financeiras habituais de um clube de grande porte no cenário atual do futebol nacional.

O efeito cascata de uma rescisão mal resolvida

A cadeia de consequências desta disputa vai além do valor em si. Quando um clube rescinde alegando falta de comprometimento e, em seguida, não honra a multa prevista, o sinal enviado ao mercado é ambíguo. Procuradores e jogadores estrangeiros monitoram esse tipo de precedente antes de fechar negócio — e o Grêmio, que nos últimos anos tem buscado reforços internacionais para qualificar o elenco, pode encontrar resistência nas próximas janelas de transferência.

Para Cuéllar, a situação também tem seus custos não financeiros. Após a rescisão, o colombiano retornou ao país de origem e assinou com o Deportivo Cali, clube que ocupava a nona colocação do Campeonato Colombiano no momento da transação. É um degrau significativo abaixo do que o futebol brasileiro representa em termos de visibilidade e salário. A carreira de um volante de 33 anos não tem muitas temporadas de alto nível pela frente, e a disputa judicial com o Grêmio consome energia, tempo e atenção que poderiam estar direcionados à reabilitação dentro de campo.

O Grêmio na Arena e uma conta aberta nas vésperas do Flamengo

Há uma ironia no calendário que os fatos constroem sem aviso. Neste domingo, 10 de maio, Grêmio e Flamengo se enfrentam na Arena do Grêmio, em Porto Alegre, a partir das 19h30 (horário de Brasília), pela 15ª rodada do Brasileirão 2026. Os dois clubes onde Cuéllar deixou marcas — e também pendências — estarão frente a frente enquanto o volante colombiano aguarda, em Cali, a resposta judicial de Porto Alegre.

O que Cuéllar deixou para trás no Flamengo e o que não conseguiu no Grêmio Cuéll
O que Cuéllar deixou para trás no Flamengo e o que não conseguiu no Grêmio Cuéll
Segundo o clube gaúcho, Cuéllar "não demonstrava vontade de querer evoluir no dia a dia e não se entregava nas atividades" — justificativa que, ao mesmo tempo em que encerrou o vínculo, abriu a porta para a cobrança dos R$ 15 milhões.

A notificação extrajudicial é o primeiro passo antes de uma ação judicial formal. Se o Grêmio não apresentar proposta de acordo ou iniciar o pagamento em prazo razoável, o caso deve migrar para a esfera judicial, onde o clube ficaria exposto a eventuais medidas de constrição de bens — cenário que nenhuma diretoria deseja administrar em paralelo a uma temporada competitiva. O clássico de domingo, portanto, acontece com uma conta aberta nos bastidores — e vale acompanhar como o Grêmio responde, dentro e fora de campo, nas próximas semanas.