Havia uma névoa de indefinição pairando sobre São Januário quando o número 66 entrou em campo pela primeira vez nesta temporada — não a névoa do Rio de Janeiro em manhãs de inverno, mas aquela outra, a da dúvida coletiva sobre o que o Vasco da Gama seria em 2026. Cuiabano não respondeu essa pergunta de uma vez. Ele foi respondendo jogo a jogo, com a paciência de quem aprendeu cedo que no futebol, quem não tem cão caça com gato — e às vezes o gato surpreende.

Início de carreira

Luis Eduardo Soares da Silva nasceu em 16 de fevereiro de 2003, e o sobrenome de guerra que carrega — Cuiabano — já diz algo sobre identidade e origem. Formado nas categorias do Grêmio, ele chegou ao profissional em um momento de transição do clube gaúcho, disputando o Brasileirão Série A com apenas 20 anos. Em 2023, somou 24 partidas pelo Tricolor na Série A, além de seis pela Copa do Brasil — números que, para um zagueiro ainda em formação, já sinalizavam uma confiança pouco comum da comissão técnica em atletas tão jovens.

A virada veio em 2024, quando o Grêmio o cedeu ao Botafogo — um salto de escala considerável. No Alvinegro carioca, Cuiabano encontrou um ambiente de alta competitividade e disputou partidas pela CONMEBOL Libertadores e pela FIFA Intercontinental Cup, competições que pouquíssimos brasileiros de 21 anos chegam a conhecer por dentro. Foram 23 jogos pelo Botafogo na Série A naquele ano, com quatro gols e uma assistência — produção ofensiva notável para um defensor central.

Números que importam

A temporada de 2026 é, até agora, a mais densa da carreira de Cuiabano em termos de responsabilidade. Com 30 jogos disputados pelo Vasco, ele já acumula cinco gols e duas assistências — uma contribuição ofensiva que coloca em perspectiva o quanto esse zagueiro de 179 cm não se limita à função de varredura. Cinco gols em 30 partidas é uma taxa que muitos meias de área não alcançam; para um defensor de 23 anos, é uma assinatura.

Olhando para o histórico disponível, a consistência numérica é uma constante: quatro gols em 23 jogos pelo Botafogo na Série A 2024, quatro gols em 28 jogos pelo Grêmio na mesma temporada. Não há aqui um pico isolado ou um surto de forma passageiro — há um padrão que se repete em clubes diferentes, em contextos diferentes, contra defesas diferentes. Isso não é acidente; é característica.

Estilo de jogo

Cuiabano é um zagueiro que habita o espaço entre a contenção e a construção. A altura de 179 cm não o favorece nos duelos aéreos mais disputados, mas ele compensa com posicionamento e com a capacidade de iniciar jogadas — uma qualidade cada vez mais valorizada no futebol brasileiro contemporâneo, que exige zagueiros capazes de jogar com os pés em situações de pressão alta.

A passagem pelo Botafogo de 2024 foi reveladora nesse sentido. Aquele time, sob pressão intensa da Libertadores e de um Brasileirão que terminou em título, exigia que seus defensores tomassem decisões rápidas e precisas. O fato de Cuiabano ter mantido espaço no elenco — mesmo que em participações pontuais nas competições continentais — indica que ele absorveu parte dessa exigência e saiu diferente do que entrou.

Início de carreira Cuiabano, o zagueiro de 23 anos que o Va
Início de carreira Cuiabano, o zagueiro de 23 anos que o Va

No Vasco de 2026, um time que segundo a imprensa especializada testou oito escalações diferentes em apenas dois meses, Cuiabano figura como uma das poucas certezas de presença. Trinta jogos numa equipe em construção permanente não é estatística menor — é âncora.

Conquistas e momentos marcantes

A ausência de troféus listados no currículo de Cuiabano não apaga a densidade das experiências acumuladas. Disputar a Libertadores com menos de 22 anos, integrar um elenco que chegou à FIFA Intercontinental Cup — torneio que reúne os campeões continentais do mundo — e ainda assim manter regularidade no Brasileirão é uma trajetória que poucos defensores brasileiros da mesma geração podem apresentar.

O momento mais simbólico talvez seja exatamente esse: em 2024, enquanto o Botafogo conquistava sua Libertadores histórica, Cuiabano estava no grupo, participando do processo, sentindo o peso e o sabor de uma campanha que entrou para a memória do futebol sul-americano. Ele não foi protagonista daquele título — mas esteve lá, e isso forma jogadores de maneiras que nenhum treino substitui.

O que esperar daqui pra frente

Com 23 anos completos desde fevereiro e uma temporada 2026 que já soma 30 partidas e cinco gols, Cuiabano está no momento em que a carreira ou consolida ou se fragmenta. O Vasco, clube de torcida apaixonada e exigente, é um palco que amplifica tanto os acertos quanto os erros — e o número 66 tem vivido mais dos primeiros do que dos segundos.

O cenário mais realista para os próximos doze meses é o de um jogador que, se mantiver essa produção, começará a aparecer em radares de clubes maiores — tanto no Brasil quanto no exterior. A combinação de jovialidade, experiência internacional precoce e capacidade de marcar gols sendo zagueiro é uma equação que o mercado valoriza. A questão não é se haverá interesse; é se o Vasco terá condições de segurar ou se preferirá capitalizar.

Há também a dimensão da seleção brasileira, sempre um horizonte para quem performa bem no Brasileirão com menos de 25 anos. Cuiabano ainda não figura nas convocações, mas o caminho está pavimentado — e pavimentos, como todo arquiteto sabe, existem para serem percorridos, não admirados à distância.