É uma máquina de imprimir dinheiro com o cadeado na mão errada.
Essa é a melhor tradução para o que Stephen Curry descreveu em entrevista ao canal Complex Sports nas últimas semanas. O armador do Golden State Warriors — que receberá US$ 59,6 milhões na temporada 2025/2026 e US$ 62,587 milhões no ano seguinte, último de seu contrato — afirmou que os jogadores da NBA são, na sua avaliação, mal pagos. Não porque os salários sejam baixos em termos absolutos, mas porque o modelo atual impede que os atletas participem da valorização patrimonial das franquias enquanto ainda estão em quadra.
"Isso é muito importante porque é uma parceria com os proprietários. É uma parceria com a Liga, e nós estamos no lado curto dessa receita."
Curry é o jogador mais bem remunerado da NBA há nove temporadas consecutivas, desde 2017/18. Atrás dele no ranking salarial desta temporada estão Joel Embiid e Nikola Jokic, ambos com US$ 55 milhões. Para encontrar o primeiro jogador abaixo da marca de US$ 40 milhões é preciso chegar à 27ª posição, onde está OG Anunoby, dos Knicks, com US$ 39,569 milhões. Em qualquer análise de distribuição de renda, esses números parecem estratosféricos — e é exatamente aí que mora o ponto de Curry.
O que o novo contrato de TV revela sobre o tamanho do bolo
A NBA fechou um acordo de direitos televisivos avaliado em US$ 77 bilhões, o maior da história da liga. Para ter uma referência de escala: o PIB anual da Croácia gira em torno de US$ 82 bilhões. A liga está vendendo basquete por um valor próximo à produção econômica de um país europeu inteiro. Curry resumiu o fenômeno com precisão cirúrgica:
"Os números parecem loucos, mas o que a Liga está fazendo — comparado com qualquer outra era — é provavelmente dez vezes maior. Então, a ideia de que não podemos participar do capital enquanto jogamos é parte do motivo pelo qual eu diria que sim, somos mal pagos."
O Acordo Coletivo de Trabalho (CBA) vigente define o Basketball Related Income (BRI) — basicamente toda receita gerada pela liga — e estabelece que os jogadores recebem entre 49% e 51% desse total na forma de salários. Parece justo até você perceber o que está fora do cálculo: a valorização das franquias em si. O Golden State Warriors foi comprado por US$ 450 milhões em 2010. Hoje, segundo estimativas da Forbes, vale aproximadamente US$ 8,8 bilhões. Nenhum centavo dessa apreciação de 1.856% foi para os atletas que construíram o produto.
Win Shares e o paradoxo de quem cria valor sem capturá-lo
Existe uma métrica no basquete chamada Win Shares — ela tenta quantificar quantas vitórias um jogador gerou para seu time ao longo de uma temporada, combinando contribuições ofensivas e defensivas. Pense nela como uma espécie de "participação no lucro" do desempenho coletivo: se o time ganhou 50 jogos e você tem 12 Win Shares, você foi responsável por cerca de 24% das vitórias. Curry acumulou 182 Win Shares ao longo de 17 temporadas — um dos maiores totais entre armadores da história da liga. Esse número traduz décadas de valor gerado para a franquia, para a liga e para os parceiros comerciais. O que ele não traduz é participação no patrimônio.
Segundo análise do SportNavo com base nos dados públicos do CBA e nas avaliações de franquias da Forbes, a relação entre salário total pago aos jogadores e valorização patrimonial das franquias nos últimos 15 anos aponta para uma assimetria crescente. Enquanto os salários subiram cerca de 220% desde 2010 (acompanhando o crescimento do BRI), as avaliações médias das franquias subiram mais de 600% no mesmo período. Os atletas capturaram o fluxo de caixa; os donos ficaram com o patrimônio.

Como a participação acionária funcionaria na prática
O modelo que Curry defende não é inédito no esporte profissional americano. Na NFL, a Green Bay Packers é de propriedade comunitária desde 1923 — embora esse seja um caso único e proibido para novas franquias pelo regulamento da liga. No futebol europeu, clubes como o Barcelona e o Real Madrid são tecnicamente de propriedade dos sócios. O que Curry propõe é diferente: que jogadores ativos possam adquirir equity — participações acionárias — nas franquias ou na própria NBA enquanto ainda estão em quadra.
Hoje, o CBA proíbe explicitamente essa modalidade para atletas ativos. Ex-jogadores podem e já investem em franquias — Magic Johnson é sócio do Washington Commanders (NFL) e tem participação nos Commanders, enquanto Grant Hill foi co-proprietário do Atlanta Hawks. A barreira existe, segundo a liga, para evitar conflitos de interesse em quadra. Mas a lógica econômica de Curry é difícil de refutar: se um jogador detém 0,5% de uma franquia avaliada em US$ 5 bilhões, ele tem US$ 25 milhões em patrimônio que cresce independentemente de lesões, queda de desempenho ou aposentadoria forçada.
O próximo CBA será negociado antes de 2030, e a nova geração de estrelas — Luka Dončić, Shai Gilgeous-Alexander, Victor Wembanyama e Anthony Edwards — chega às negociações com consciência financeira muito maior do que as gerações anteriores. A declaração de Curry, aos 37 anos e com 17 temporadas na liga, funciona como um manifesto antecipado para essa rodada.
O que muda para os Warriors e para a liga se o debate avançar
Do ponto de vista prático, qualquer mudança nessa direção exigiria renegociação do CBA — um processo que historicamente gera tensão entre donos e sindicato de jogadores (NBPA). A última grande crise trabalhista da NBA resultou no lockout de 2011, que cancelou parte da temporada. Com US$ 77 bilhões em direitos de TV na mesa e uma nova geração de talentos globais atraindo audiências recordes, nenhum dos lados tem interesse em paralisar o produto agora.
Curry entra na última temporada de seu contrato com os Warriors em 2026/27, recebendo US$ 62,587 milhões. Aos 38 anos, provavelmente não será ele o beneficiário direto de qualquer mudança estrutural que venha a acontecer. Mas o timing da declaração não é acidental — o armador está posicionando o debate para que Wembanyama, Edwards e Gilgeous-Alexander, que ainda têm uma década de carreira pela frente, cheguem à próxima negociação coletiva com um argumento já testado na opinião pública.
Se o NBPA colocar a participação acionária como pauta central nas negociações do próximo CBA, os donos de franquia aceitariam ceder equity real em troca de um teto salarial mais baixo — ou a liga entraria em seu segundo lockout do século?










