A última vez que um jogador nascido em Liverpool se tornou peça regular do meio-campo do clube na Premier League, Steven Gerrard ainda estava no início dos anos 2000. Duas décadas depois, Curtis Jones carrega esse peso com 25 anos, 185 cm e uma consistência que a cidade vermelha esperava há muito tempo.

Início de carreira

Era 2010. Jones tinha nove anos quando cruzou os portões da academia do Liverpool pela primeira vez. Não como visitante. Como atleta. A cidade que o viu nascer, em 30 de janeiro de 2001, seria também o cenário de toda a sua formação esportiva — algo raro num futebol europeu cada vez mais globalizado e impaciente com talentos locais.

Em janeiro de 2018, ele deu o passo seguinte: passou a integrar o time Sub-23 do clube. No mês seguinte, assinou seu primeiro contrato profissional. A velocidade dessa ascensão não era acidente — era o resultado de anos dentro de um sistema que ele conhecia de cor. Em abril daquele mesmo ano, Jürgen Klopp o convocou para o banco no clássico contra o Everton. Jones não entrou, mas estava lá. Sentindo o calor do Merseyside Derby de perto, respirando aquela rivalidade que a cidade carrega na espinha.

A estreia oficial viria na Copa da Inglaterra, contra o Wolverhampton Wanderers. Setenta minutos com a camisa 48 — número que hoje parece distante do 17 que ele veste em Anfield. Klopp, naquela pré-temporada de 2018-19, já havia elogiado publicamente a mobilidade e as habilidades de drible do jovem. O técnico alemão enxergou algo antes que o resto do mundo percebesse.

Números que importam

Na temporada atual da Premier League, 2025/2026, Jones acumula 33 jogos, 3 gols e 3 assistências. Não são números de artilheiro, e ele sabe disso. Mas para um meia de construção, que atua numa equipe com Salah e companhia monopolizando os holofotes ofensivos, contribuir diretamente em 6 jogos — com gols e assistências somados — representa uma influência real, não decorativa.

Para colocar em perspectiva: na avaliação do SportNavo, esses 3 gols de Jones nesta temporada superam a soma de gols marcados por jogadores de linha da defesa do Liverpool em toda a campanha — o que revela o quanto ele consegue aparecer em momentos decisivos saindo de uma posição de meio-campo. Na temporada anterior, 2024/2025, foram 38 jogos, 3 gols e 4 assistências — o maior número de partidas da sua carreira até aqui. A consistência de presença é o dado mais revelador: Jones não some.

Estilo de jogo

Ele não é o meia que domina a bola e faz o estádio prender a respiração. Não é aquele tipo. Jones é o futebol que funciona sem aplausos — a pressão no momento certo, a transição que ninguém filmou, o passe que abre espaço para o espetáculo acontecer dois metros à frente. Klopp identificou isso cedo: mobilidade e drible, sim, mas também inteligência posicional para um jogador ainda na adolescência.

Aos 185 cm e 78 kg, ele tem estrutura física para disputar bolas no meio-campo sem recuar. Não é um meia de criação pura, nem um volante de marcação. Fica nessa faixa híbrida que os treinadores modernos adoram e que os torcedores às vezes subestimam — porque o trabalho não aparece no placar, mas aparece no resultado.

Início de carreira Curtis Jones e os 33 jogos que Liverpool
Início de carreira Curtis Jones e os 33 jogos que Liverpool

Conquistas e momentos marcantes

A lista de troféus de Jones conta uma história que poucos jogadores da sua geração podem narrar. Com o Liverpool, ele conquistou a Premier League em 2019-20 — quando ainda era jovem demais para ser titular absoluto, mas já fazia parte do grupo — e novamente em 2024-25, desta vez como peça do elenco consolidado. No meio, vieram a Copa do Mundo de Clubes da FIFA de 2019, a Copa da Liga Inglesa em 2021-22 e 2023-24, e a Copa da Inglaterra em 2021-22.

São cinco títulos com o mesmo clube. O clube da sua cidade. Isso não é coincidência de calendário — é uma trajetória construída com paciência num ambiente que facilmente descartaria um jogador local em favor de uma contratação milionária. Jones sobreviveu a essa pressão e saiu do outro lado com medalhas.

O que esperar daqui pra frente

Ele tem 25 anos. Está no pico físico da carreira de um meia. A temporada 2025/2026 já é a mais equilibrada que ele entregou em termos de regularidade — 33 jogos até aqui, com contribuições ofensivas consistentes. O próximo passo natural é aumentar o peso nas decisões: mais gols em jogos que importam, mais assistências em momentos de pressão.

O cenário mais realista para os próximos 12 meses é de consolidação definitiva. Não como estrela, mas como âncora. O tipo de jogador que um técnico risca por último da escalação porque sabe exatamente o que vai receber. Numa Premier League cada vez mais exigente, isso tem valor — e mercado.

Curtis Jones não é a melodia principal da orquestra de Anfield. Mas é o instrumento que mantém o tempo. Retire-o, e o resto desafina — lentamente, imperceptivelmente, mas desafina. Como um relógio suíço ao qual ninguém presta atenção enquanto funciona, e que só é notado de verdade quando para.