Diz-se que rivalidades de verdade no UFC se constroem dentro do octógono. Na prática — não, errei, vou ser direta: isso não é sempre verdade. O caso de Khamzat Chimaev e Sean Strickland prova exatamente o contrário. O ódio entre os dois foi construído em entrevistas, redes sociais, coletivas de imprensa e, mais recentemente, num chute que Chimaev desferiu em Strickland durante o face-off da coletiva do UFC 328, na quinta-feira, no Prudential Center de Newark, Nova Jersey. Dana White, CEO do UFC, não ficou surpreso. Ficou satisfeito.

O que Khabib x Conor e Jones x Cormier têm a ver com Newark

Quando White foi questionado sobre a coletiva na live da Nina Drama no Kick, ele não hesitou em contextualizar a rivalidade dentro da história do UFC. Primeiro, colocou Chimaev x Strickland na segunda posição do seu ranking pessoal de piores relações entre lutadores. Depois, ao ser lembrado da saga interminável entre Jon Jones e Daniel Cormier — que inclui uma briga em hotel em 2014 e anos de provocações mútuas —, White reconsiderou e rebaixou a dupla para o terceiro lugar.

"Conor-Khabib é o número 1. E o único motivo pelo qual é o número 1 é o Brooklyn, e o que aconteceu depois da luta. Cometemos alguns erros, obviamente, antes e depois daquela luta. E não vamos repetir isso", disse White.

A referência ao Brooklyn diz respeito ao episódio de abril de 2018, quando Conor McGregor jogou um carrinho de mão contra um ônibus com lutadores do UFC, ferindo dois atletas e resultando em sua prisão temporária. O confronto com Khabib Nurmagomedov, em outubro do mesmo ano, terminou com o russo saltando do octógono para agredir membros do time de Conor, gerando uma briga generalizada no T-Mobile Arena. Esse é o padrão de comparação que White usa para medir Chimaev e Strickland. E eles chegaram perto o suficiente para incomodar.

Semanas de ameaças antes do chute no palco

A escalada entre os dois começou muito antes da semana do UFC 328. Por semanas, Strickland e Chimaev trocaram provocações pela mídia, atacando desde a fé religiosa até a origem familiar um do outro. Strickland, conhecido por declarações sem filtro, chegou a fazer ameaças de morte públicas contra o russo. Chimaev respondeu no mesmo tom, sem recuar nenhuma polegada.

A temperatura atingiu o pico na coletiva de quinta-feira.

No face-off, Chimaev desferiu um chute em Strickland, transformando o que deveria ser um ritual de divulgação em quase uma briga de verdade. A segurança precisou intervir. Dana White, ao comentar o episódio, resumiu com a objetividade de quem já viu muita coisa: "Foi exatamente o que eu esperava."

"Às vezes os caras são muito respeitosos, ficam tranquilos e tal. E às vezes são como hoje. O ótimo das coletivas é que tem uma amplitude enorme. Não é sempre a mesma merda. Mas para essa aqui, esse é um dos piores casos de sangue ruim de todos os tempos", afirmou o CEO.

O cinturão dos médios no centro de uma guerra pessoal

O que diferencia Chimaev x Strickland de outras rivalidades tóxicas do UFC é que o ódio entre eles não surgiu de uma derrota no octógono. Não há revanche a ser buscada, não há cinturão roubado na memória. A hostilidade é anterior à luta — e isso, historicamente, ou produz combates memoráveis ou resulta em desclassificação por falta de controle emocional.

Khamzat Chimaev, 30 anos, chega ao UFC 328 com cartel de 14 vitórias e 0 derrotas no MMA profissional, incluindo triunfos sobre Kamaru Usman e Gilbert Burns. Ele nunca foi nocauteado ou submetido na carreira. Sean Strickland, 33 anos, detém o cinturão dos médios após vencer Dricus Du Plessis no início de 2025, com cartel de 30 vitórias e 6 derrotas, sendo conhecido pelo volume de golpes e pela resistência absurda.

As odds nas casas de apostas americanas apontam Chimaev como favorito, com linha em torno de -180, enquanto Strickland aparece como zebra em +155 — números que refletem o histórico invicto do russo, mas também reconhecem que o campeão tem vantagem técnica no boxe e experiência de título.

O que acontece com o ranking depois do UFC 328

Uma vitória de Chimaev no sábado o consolidaria como o primeiro campeão dos médios a chegar ao cinturão sem uma derrota sequer no UFC — feito que nem Anderson Silva, Bisping ou Adesanya conseguiram. Uma vitória de Strickland, por sua vez, seria a segunda defesa consecutiva de título para o californiano e o colocaria definitivamente na conversa dos maiores campeões da divisão.

Independentemente do resultado, a rivalidade Jones x Cormier levou cinco anos e quatro confrontos diretos para ser resolvida — e ainda assim deixou cicatrizes. Chimaev e Strickland chegaram ao mesmo nível de toxicidade sem nunca terem se enfrentado antes. Se a luta for à altura do ódio que a precedeu, Newark vai assistir ao melhor combate de 2026 na divisão dos médios.

O UFC 328 acontece neste sábado, 9 de maio, no Prudential Center, em Newark. Chimaev e Strickland entram no octógono com o cinturão dos médios, o ranking histórico de rivalidades do UFC e um chute de coletiva para resolver.