A arena ainda estava vazia quando Khamzat Chimaev levantou o telefone e jogou para o mundo o que queria: a revanche contra Sean Strickland, com o cinturão dos 84 kg em jogo. O cazaque — que carregava um cartel de 14 vitórias e 1 derrota antes do confronto contra o americano — não aceita o resultado e quer provar que a noite foi uma anomalia estatística. O problema é que Dana White, presidente do UFC, parece não ter a mesma pressa.
O primeiro confronto que deixou perguntas sem resposta
Strickland e Chimaev se encontraram no octógono com históricos técnicos diametralmente opostos. O americano construiu sua carreira sobre striking volume e pressão constante — registra uma média superior a 6,5 significant strikes por minuto ao longo do cartel —, enquanto o cazaque apostou em wrestling elite e transições para o ground and pound, com takedown accuracy acima de 60% nas lutas do UFC. O primeiro round foi de Chimaev no controle do clinch; Strickland respondeu com sprawl eficiente e negação de takedown nas rodadas centrais, quebrando o ritmo do rival.
O striking differential final da luta — diferença entre golpes significativos conectados e absorvidos — favoreceu Strickland em quatro dos cinco rounds segundo os dados oficiais da empresa de estatísticas UFC Stats. Chimaev acertou mais no chão, mas Strickland ditou o jogo em pé, território onde o cazaque ainda tem margem menor de desenvolvimento. A decisão dividida dos juízes, um placar que poucos esperavam, abriu uma ferida que Khamzat não cicatrizou.

"Eu quero essa revanche. Strickland sabe que eu sou melhor do que aquele resultado mostrou. O cinturão tem que voltar para mim", declarou Chimaev em entrevista após o evento, sem disfarçar a frustração com o placar.
Por que Dana White ainda não bateu o martelo
A resposta pública do presidente do UFC foi — deliberadamente — vaga. White desconversou sobre a revanche quando questionado, sem confirmar nem descartar o segundo confronto. Esse tipo de evasão tem lógica comercial: manter dois atletas no limbo de possibilidades aumenta o interesse do público e preserva o poder de barganha da organização nas negociações de contrato e de pay-per-view.
Há, porém, razões técnicas e de calendário que complicam a equação. O peso-médio do UFC — historicamente a divisão com maior rotatividade de campeões desde 2012, quando o cinturão trocou de mãos mais vezes do que qualquer outra categoria nos 84 kg — tem no mínimo três pretendentes com cartéis sólidos aguardando posicionamento: Dricus du Plessis, Robert Whittaker e Paulo Borralho, este último com quatro vitórias consecutivas na divisão. Escalar uma revanche imediata sem dar resposta a esses atletas cria um problema de hierarquia no ranking que o UFC prefere administrar com calma.
"Não vou falar nada agora sobre essa luta", respondeu Dana White quando pressionado por jornalistas, segundo relatos do UOL Esporte. A ausência de resposta, neste caso, é a própria resposta.
O dado que melhor ilustra o impasse é comparativo: entre 2015 e 2025, o UFC levou em média 8,3 meses para escalar uma revanche de cinturão no peso-médio — um intervalo que, na temporada atual de 2026, ainda não foi cumprido para este confronto específico. Para efeito de contraste, a divisão dos pesos-leves fechou quatro revanches de cinturão no mesmo período em menos de seis meses cada.

O cenário mais lógico para o cinturão dos 84 kg
Do ponto de vista técnico-marcial, a revanche Strickland x Chimaev tem substância real para acontecer. O cazaque mostrou no primeiro confronto que seu wrestling — com takedown attempts acima de 8 por luta — é capaz de criar situações de ground and pound que Strickland precisa administrar melhor. O campeão, por sua vez, demonstrou que o rear naked choke não é sua única ferramenta de finalização: a defesa de quedas melhorou consistentemente desde 2023, e sua finish rate de 58% no cartel profissional indica que ele encerra lutas quando domina o centro do octógono.
O ajuste técnico mais relevante que Chimaev precisaria apresentar numa segunda luta seria a variação de entrada no clinch — o padrão de dois passos para o double leg ficou previsível para Strickland, que negou cinco das sete tentativas de takedown nas rodadas 3, 4 e 5. Uma abordagem mais vertical, com jab-cruzado para distanciar o adversário antes de buscar o clinch, abriria ângulos diferentes. Strickland, do lado oposto, teria que conter o volume de golpes no primeiro round, onde Chimaev é historicamente mais agressivo — ele conecta 42% dos seus significant strikes totais nos primeiros cinco minutos de luta.
O caminho mais provável — e que melhor atenderia os interesses da divisão — seria o UFC escalar Strickland contra Borralho ou du Plessis como defesa voluntária do cinturão, enquanto Chimaev enfrenta um top-5 para consolidar sua posição de contendor obrigatório. Uma vitória convincente do cazaque, especialmente por finalização ou TKO via ground and pound, eliminaria qualquer dúvida sobre a legitimidade do pedido de revanche e forçaria Dana White a sair do silêncio. A próxima janela viável para esse desfecho aponta para o último trimestre de 2026, quando o calendário de grandes eventos do UFC — incluindo ao menos dois pay-per-views confirmados para outubro e novembro — tem espaço para uma luta de cinturão no peso-médio.












